domingo, 2 de outubro de 2016

O retorno da barbárie

A minha crónica na edição de Outubro de A Barca.

Há dias a ONU nomeou Nadia Murada embaixadora da Boa Vontade para as Nações Unidas. Nadia, uma jovem yazidi de 23 anos, tinha sido raptada pelo dito Estado Islâmico (EI) e feita escrava sexual durante três meses. Perante os líderes mundiais, reunidos na sede da ONU, perguntou: Se decapitações, violações, escravidão de crianças e deslocação de milhões não vos movem, quando se vão mover? Esta pergunta põe a nu o grau de decadência que os valores da vida civilizada atingiram no mundo.

O EI introduziu um novo elemento no cenário global. Se olharmos a vida internacional desde o fim da segunda guerra mundial, encontramos múltiplas e terríveis atrocidades. Basta recordar o que se passou com o domínio do Camboja pelos Khmers Vermelhos. O que se passava, porém, nas diversas ditaduras, era o horror praticado – e em algumas delas esse horror foi desmedido – ser camuflado. Apesar de nada os demover, os carniceiros tinham ainda uma compreensão de que as suas práticas de terror violavam alguma coisa de essencial e que, de uma forma ou de outra, precisavam de ser camufladas.

O EI conseguiu duas coisas impensáveis. Em primeiro lugar, tornar o horror num grande espectáculo que atrai simpatia, apoio e militantes. Em segundo lugar, manifestar esse horror como uma alternativa à vida civilizada que a espécie humana, a muito custo, tem vindo a erigir sobre o nosso pobre planeta. Sem vergonha, o EI mostrou como acções virtuosas a decapitação, a violação, a lapidação, a escravatura, o assassínio por motivos ideológicos, a destruição da memória, etc., etc. O EI ultrapassou uma fronteira que todos nós pensávamos inultrapassável: o terror tornado forma de vida legítima e virtuosa. A desesperada pergunta de Nadia Murada, perante os líderes mundiais, assinala esse momento de derrota da civilização e a impotência que todos pressentimos perante o retorno em força da barbárie. Quando se vão mover?