sábado, 26 de novembro de 2016

António Costa, um moderador


Passado um ano de governo de António Costa já é possível perceber, para além das paixões de seita, o quão acertada foi a sua decisão de não suportar um governo minoritário de direita. Quando o actual primeiro-ministro decide romper com a tradição e aliar-se à esquerda, a direita anunciou que vinha aí uma radicalização do país e vociferou que ele apenas fazia isso para salvar a sua pele de uma derrota clara. É verdade que, sem o poder, António Costa tinha a carreira política por um fio. Porém, isso é apenas uma parte da verdade e uma parte bem limitada.

A decisão de António Costa foi também a salvação do Partido Socialista. Tivesse vencido a perspectiva de Francisco Assis e hoje o PS estaria a caminho da liquidação, como aconteceu com o PASOK grego ou, em menor escala, com o PSOE espanhol. Um governo de direita assente na cumplicidade dos socialistas iria atirar uma parte importante do eleitorado tradicional do PS para os braços do Bloco de Esquerda e, embora bastante menos, do PCP. A decisão de António Costa não salvou apenas a sua carreira política. Salvou também o PS como grande partido da democracia portuguesa.

Uma terceira consequência, a mais importante, liga-se ao todo nacional. Um governo de direita, fundado na cumplicidade dos socialistas, continuaria a abrir clivagens no todo nacional, radicalizando ainda mais a sociedade portuguesa. O que aconteceu é que a actual governação mostrou uma coisa que, para quem observa desapaixonadamente a vida política, parecia clara: a esquerda portuguesa, mesmo aquela que está à esquerda do PS, é bastante moderada. Depois de uma governação de direita apostada claramente na radicalidade político-económica, na  polarização social e na luta de classes, António Costa conseguiu um governo fundado na moderação e na busca da conciliação interclassista. António Costa é um moderador e isso, num tempo ansioso de radicalizações, não é pouco.