quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Descrições fenomenológicas 9. A espera

Markus Luepertz - 1840 (1999)

A primeira casa, talvez a mais degradada, tinha tido, noutros tempos, cor de púrpura. Agora, um rosa desmaiado suporta os efeitos do tempo transformados em cor. Brancos, azuis, laranjas, amarelos, verdes e castanhos crescem como ervas daninhas pelas paredes. Conseguem distrair os olhos das manchas de humidades, encerrando-os num tumulto colorido que lembra o expressionismo de certas pinturas abstractas. Acede-se à porta de entrada por quatro degraus de cimento, paralelos à porta, sem qualquer protecção, que desembocam num minúsculo patamar, ele sim, com pequeno gradeamento de ferro, de onde se pode, subindo ainda um degrau, entrar na casa. A porta não desmerece das paredes. O castanho degrada-se em mil matizes que o conduzem a um bege, que ameaça ser o destino final de toda a porta. Pedaços de tinta seca desprendem-se, encarquilhados, prontos para que uma mão os arranque e jogue por terra. Em cima, ao lado das ombreiras surgem dois números de polícia, em placas brancas, esmaltadas e redondas, onde se lê 19, numa, e 21, noutra. Por cima da porta há um ventilador, quadrado, cuja grelha parece, a cada instante, desfazer-se. No lado esquerdo da porta e do ventilador, uma única janela, protegida por grade de ferro. Assenta sobre uma pequena e pretensiosa colunata. A casa do lado é mais recatada. As paredes brancas são também vítimas da usura do tempo. As manchas de humidades metamorfoseiam o branco em azuis, cinzentos e preto. Recolhida, a moradia tem um pequeno quintal, protegido por um muro gradeado a ferro, que a separa da rua. Para se entrar ali, há que abrir um portão preto composto por perfis de ferro cruzados. Sobe-se quatro degraus de cimento e, caminhando por uma pequena passagem também em cimento, chega-se à casa. O rés-do-chão tem duas janelas a ladear uma porta. Mas são quase invisíveis daqui. O primeiro andar prolonga-se para além do andar inferior e é suportado por duas colunas, formando-se assim uma varanda sombria. O portão está aberto. Um braço cresce da parede e prende-se a um corpo que, desse modo, suporta o seu peso. É uma mulher jovem, de cabelo apanhado no alto da cabeça, formando um carrapito frisado, preso por uma fita avermelhada. O vestido branco contraste com a cor negra da pele. A mulher espera com a mão esquerda na anca, o que permite que o braço desenhe um ângulo agudo. Nos olhos, há uma sombra ansiosa, que ela tenta disfarçar com uma atitude de indiferença. Os lábios tremem. Talvez sussurrem uma canção, ou orem. Talvez praguejem. Ela espera.