quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Livro do Êxodo - 33. Os anjos de salitre

Marc Chagall - Abraham and the Three Angels (1958-60)

Tudo arde em lume brando, a porta escancarada por onde anjos desvairados entram e saem. Ouvem-se gritos. Um risco de cal ainda preso na parede, mas o salitre já a tomou por dentro, cresce para as ombreiras, primeiro das janelas, logo de seguida da porta, por fim infiltra-se no coração e dizima, célula a célula cada corpo que vai pelas ruas e navega pelo ar da tarde, absorvendo os odores da cidade, estranhos odores são, enquanto os carros passam, tão tristes, com um rasto de ar contaminado, com uma pressa de silêncio, com uma angústia de rosas desfolhadas à janela da melancolia. Os candeeiros cavalgam a tarde e em tropel abrem a noite à víscera da solidão.

Há anjos presos nas gruas, vejo-os se saio pela porta, infestam a cidade, anjos descuidados, pássaros entontecidos na ânsia de humanidade, voam sem memória, olhos desatentos, presos aos transeuntes, lá em baixo vão, cegos e confiantes no seu anjo, e este já preso, o ferro espetado na asa, uma dor não sentida no quase corpo que é o seu. Ondulam assim os anjos deste dia, e sentem vertigens, o fumo os toca, tossem e esfregam com dedos de arame os olhos chorosos. O cheiro da cidade contamina-os, se tudo arde em lume brando e pelas escancaradas portas entra e sai gente de gravata no colarinho, o fato escuro e a camisa acesa, carros que passam, sirenes cortam as palavras, e, se falam, prendem os olhos e seguem na inquieta velocidade, cidade fora, a arder no lume de onde me chamaste.

E havendo eu tirado minha mão, me verás por detrás; mas minha face não se verá, nem o nome te direi, apenas enumerarei os sais e abrirei perante o teu olhar um comércio de ácidos e bases, os sais amargos de anjos salitrados a voar sobre a cidade, em funesto trabalho, o de compor lojas com mãos de pelica e um fato de xadrez e mangas de camurça. São assim os dias e as noites nesta cidade de anjos avessos, tomados pelo desconsolo, ébrios de escuridão. Mais tarde – quantas avenidas mais tarde? – soube o nome que eles me deram. Tinha um som de calcário, e diziam-no em ritmo lento, como se comessem nêsperas e falassem devagar, a boca enrugada e, nos dentes cariados, houvesse uma violeta pilhada na venda da esquina, agora para sempre fechada.