terça-feira, 29 de novembro de 2016

Livro do Êxodo - 35. Mãos de ardósia

August Macke - Despedida (1914)

Teciam com mãos de ardósia capas de linho e enfeitavam de pedra as ruas, agora avenidas rasgadas na terra dorida e dolorosa, e se ali passavam  viajantes, apressados na sua viagem e desdenhosos de quem fica, elas volviam os olhos para o chão, erguiam os dedos ao alto, assim o diziam, e sussurravam, emboscadas, à espera que os estranhos passassem, sustendo o vento com os braços, os olhos cobertos com folhas de jornal, capas de revista, anúncios em papel brilhante. Se chovia, instável era o tempo, corriam para debaixo das arcadas, se o sol vinha, as pobres raparigas retiravam o véu, a cabeça destapada e o rosto descoberto eram uma luz brilhante na tarde, enfeitada de malmequeres e rosas silenciosas, ornada de promessas, as vagas promessas que ninguém cumprirá.

Delicada azáfama a de abrir, com mãos de ardósia, corações e ver o pulsar do sangue, rubras paredes contaminadas pela ira, rasgadas na cal que as tapava, vestidos leves onde as pernas brancas se escondiam, para se abrirem ao desejo que de não vê-las tomava forma, crescia, rebentava diques, desaguando em gritos, enquanto os carros passavam, a lançar chistes de dióxido e urros luminosos, a desabar nos semáforos, a tarde regulavam. Árduo o trabalho do amor, a cirurgia que desvela o que se oculta nas paredes do corpo, na fímbria onde pés incautos deixam pegadas rutilantes que anunciam desejos, que proclamam um querer irrevogável, o tempo o revogará.

As cortinas do pátio, e suas colunas, e suas bases, e a coberta da porta do pátio, a tudo isso desprezastes quando a mão, a pálida mão que era a minha, caiu para a vossa e levantastes voo, erguendo-vos aos céus, as saias prendiam com as mãos exíguas, não fora eu espreitar-vos pernas acima, e compor um soneto de versos exíguos, ritmo cambado, sem métrica nem rima, que de mim vos fizesse gostar, como as crianças gostam de rebuçados, ou os velhos, gengivas gastas e dentes caídos, de amoras. Para quê desenhar catedrais, jardins, rudes avenidas por onde o vento desliza, tocar-vos os seios, apertar-vos a garganta com o pólen do sentimento? Para quê lançar o bisturi sobre a artéria do amor e ver um rio de sangue tresmalhado entre pernas? Para quê tecer com mãos de ardósia capas de linho?