terça-feira, 15 de novembro de 2016

Os banqueiros excepcionais

Gustavo - Banquero abanderado, bailando con una serpiente africana (1986)

A telenovela da entrega da declaração de rendimentos e património (ver aqui), por parte dos administradores da Caixa Geral de Depósitos, no Tribunal Constitucional, tal como é exigida pela lei, está a ultrapassar todos os limites da sensatez. Não faço ideia se os actuais administradores foram convidados com a promessa que não teriam de o fazer. Tudo é possível num país como Portugal, e o Partido Socialista, por vezes, tem uma visão muito própria da realidade e da legalidade. Confrontados, porém, com o dever de o fazer, parece-me inaceitável o jogo a que se dedicam. 

Esse jogo não apenas representa um desgaste político para o governo que os convidou, embora isso seja irrelevante (e talvez o governo o mereça por ter convidado esta gente), como lança um véu de incerteza sobre a própria instituição, afectando não só o accionista, o Estado Português, como os próprios clientes que vêem o banco em que confiaram a ser envolvido num braço de ferro entre os putativos génios financeiros descobertos pelo governo e as leis da República. 

Em tudo isto há duas coisas que me fazem muita impressão. Em primeiro lugar, se os senhores administradores não querem depositar no Tribunal Constitucional, segundo as regras em vigor, as suas declarações de rendimentos e património, então demitam-se e vão à sua vida (ou estão à espera de ser demitidos?). Em segundo lugar, parece-me extraordinário que estas pessoas vejam a sua situação como uma excepção e, excepcionais que são, julguem que a lei comum não se lhes aplica. Frequentar as conselhos de administração da banca será por certo muito proveitoso, mas parece não ajudar nada a ter uma visão clara sobre a realidade, como se tem visto nos últimos anos pelo mundo fora.