sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A espera

A minha crónica em A Barca.

Vivemos em tempo de interlúdio. O país – governado à esquerda ou à direita – não possui os mecanismos necessários para a resolução dos problemas que atravessam a economia portuguesa. Esses mecanismos foram hipotecados pela adesão ao Euro. Uma das soluções seria a saída da moeda única, mas essa é uma aventura cujas consequências são imprevisíveis. Na verdade, todas as forças políticas estão convictas de que fora do espartilho do Euro seria mais fácil pôr a economia a crescer, mas nenhuma está disposta a arriscar uma saída unilateral e a arcar com o ónus de um possível apocalipse social.

Para além da retórica política e dos floreados parlamentares, toda a gente está à espera. Espera que o Euro se reforme – uma possibilidade improvável tendo em conta a posição alemã – ou que, por um qualquer acidente político, acabe. Até lá tratam-se de questões de mercearia, que foi aquilo que o governo anterior fez, roubando no peso, e é aquilo que o actual está a fazer, sendo generoso com os fregueses. Esta situação de impasse não deixa, porém, de ser perigosa. Independentemente da orientação política do governo, o que ela nos mostra é a fragilidade de Portugal.

A Europa e o Euro foram a saída encontrada por um país periférico e de escassos recursos. Agora descobrimos que estamos presos e que pela frente só parece haver duas possibilidades: ou esta dependência passiva sem fim à vista do Euro, que nos torna impotentes, ou esperar a implosão do projecto europeu, o que nos libertaria das grilhetas da moeda única, mas que nos confrontaria com o desconhecido. Na verdade, Portugal não está preparado nem para continuar no Euro nem para enfrentar a implosão do Euro e da própria Europa. Portugal espera. Espera porque não sabe o que fazer. E esta é a pior das atitudes que um país pode ter.