segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Descrições fenomenológicas 12. A rua

Lucio Muñoz - 27-85 (1985)

A rua era íngreme, a estrada empedrada, ladeada por passeios de terra batida. Ouvia-se o som dos cascos de um cavalo a bater na pedra. O cavaleiro endireitava-se, sem esforço, na sela e conduzia o animal com bonomia. Vestia um fato de montar que a escassa luz da iluminação pública mostrava como se fosse preto. Subia em direcção a uma curva apertada, que, depois de outra tão apertada mas de sentido contrário, levaria ao adro da igreja. A porta lateral desta, guarnecida por um pórtico triangular de granito, estava aberta, deixando coar uma luz amarelada vinda do interior. De ambos os lados, candeeiros de vidro lançavam sobre a noite um clarão breve e hesitante. Um padre de batina e barrete subia a rua, impulsionado pelo arquejo do coração. Às vezes, parava, parecia concentrar-se e reunir todas as forças para continuar. Tossia e murmurava, mas não se distinguia se era uma ladainha ou uma imprecação. Três mulheres, por volta dos quarenta anos, vestidas de negro, iam mais à frente. Conversavam em surdina, como se estivessem já dentro da igreja. Esta era antecedida pela casa paroquial, de janelas gradeadas no rés-do-chão e uma porta estreita por onde entrou o sacerdote. O luar débil era recortado pelo campanário. Dois sinos suspendiam-se ali. Quando o cavaleiro desapareceu na última curva, ouviu-se o bater das dez horas. As mulheres pararam, entreolharam-se. Pareciam hesitar, à última badalada, entraram na igreja. A rua estava agora deserta, tomada de assalto por um vento frio e um cheiro a pedra húmida, que dobravam o coração e o inundavam de uma estranha angústia nascida da súbita solidão. Acabara de chegar à terra distante do passado.