domingo, 25 de dezembro de 2016

Livro do Êxodo - 38. O poeta ridículo

Marc Chagall - The Poet or Half Past Three (1911-12)

Quando pisavam os ladrilhos, abriam a boca e inalavam lentamente o ar, corriam com o olhar os desfiladeiros de pedra e mata rasteira, sorriam. A noite deixara os últimos vestígios, morrera nos braços esguios da aurora, tocados pelas folhas, o vento as animava, e era uma ténue recordação a fugir diante dos olhos, animal bravio do caçador se esconde. Não há regresso à terra de onde partiste, sussurraram ao ouvido, quando a névoa, névoa iluminada por um sol indeciso, pairava sobre a copa das casas, a cidade cobria. Mulheres, na sombra as havia, escutavam os passos, portas fechadas, e um terror de pétalas rasgava como furúnculos a pele do coração. Por vezes, deitavam-se sobre o pano verde das mesas de bilhar, erguiam as abertas pernas para que alguém ao passar as tomasse e no desconcerto as enchesse e ao útero, de tanta espera cansado, vida desse.

Amei ajuntando os espelhos das mulheres para neles me rever, o sexo hirto, a carne a chamar-me, a relva incendiada se abrasava. Quando respirava tudo me doía, mãos e pernas, a língua, os lábios de tantos lábios tocar. Poeta ridículo, apedrejas as palavras, feres  a sintaxe, amontoas as sílabas, pedras são, uma intifada o que de tuas mãos sai, disseram, ainda o mosto fermentava, o leite coalhado já a envinagrar, verso a verso, histórias entremeadas de outras histórias, água glaciar a correr na brancura do papel, agora tingido de tinta incolor, de onde tudo parte, o som, o sentido, o sexo, o sémen que semeia abismos no teu coração, feminino coração, delicada mão o protege, se a mim, ridículo poeta, a amar me fora dado. Comecei com uma variação para piano e orquestra, mas perdi do opus a numeração, e se ainda reconstruo um incómodo pizzicato, a memória recusa calar-se e então ladra na noite, ladra no poema, ladra como uma loba esfaimada, as crias por alimentar, os rebanhos lá longe, cães de pedra os guardam.

Ladrar, ladrar, ladrar e depois vêm os uivos, fortes uivos, dos pulmões, mal respiram, saem, vocábulos contra vocábulos, uma guerra civil alastra no campo da língua, gemem moribundas as palavras, encrespam-se as ondas do mar e na lua, o luar o anuncia, espelha-se a noite que nasce no ventre, no meu ventre, rugosos intestinos, entranhas fétidas, o bandulho onde tudo desagua e de lá tudo vem. Não há vísceras poéticas, apenas flores delicadas, como aquelas que minha mãe ordenava no restrito espaço, jardim lhe chamava, onde eu corria, braços abertos, as narinas a fumegar num céu riscado de corvos e de águias abertas sobre a planície da solidão.

Não há na minha terra choupos, salgueiros, os últimos carvalhos foram dizimados e as figueiras, para a tua boca figos davam, são uma sombra inclinada para o chão de ladrilhos. Nele, deitou-se a loba, as crias escanzeladas, e um poeta, ridículo poeta, amontoa pedras feitas de letras, sílabas e sons vocálicos, gritos de horror no som mecânico, roufenho som, do megafone: ao diabo a métrica, belzebu rima com cu, ao diabo a rima. Deus expulsou-me do paraíso, não foi para que andasse, de papel em papel, a compor metros, urdir rimas, sonetos ou redondilhas. Comecei com uma variação para piano e orquestra, mas do opus perdi a numeração, quem quer saber de ciência assim funesta?