quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Os dois grandes inimigos da direita

Juan Giralt - Ora Pro Nobis (2000)

Merece meditação o desprezo que uma certa direita social – aquela que não es­­tá comprometida com a necessidade de ganhar votos e, por isso, diz o que parte da outra também pensa – vota ao Papa Francisco e ao actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Este desprezo consubstancia-se em referências como o papa Chiquinho ou as marcelices do PR. Este desprezo provém, como a generalidade dos actos de desprezo, da combinação da desilusão e da impotência.

Desejariam, por exemplo, que o Papa fosse cúmplice do maravilhoso mundo ultraliberal, que se calasse perante o problema da preservação do planeta e, em matéria de relações com o Islão, tivesse já proclamado uma nova Cruzada contra os infiéis. Como o Papa não esteve pelos ajustes com estes delírios, ela desiludiu-se e, como se sente impotente, de momento, para nomear um novo Papa, passou ao jogo do desprezo e do achincalhamento.

No caso de Marcelo Rebelo de Sousa, o problema centra-se no jogo político nacional. O PR em vez de ter despedido a geringonça ou ter apelado a uma fronda contra a esquerda no poder, tem tido a sensatez de valorizar o que o actual governo tem feito, apesar do cumprimento das regras draconianas impostas por Bruxelas, para estruturar a coesão do todo nacional e evitar confrontações sociais. Também aqui, à desilusão com o facto do PR não se ter arvorado em chefe de seita seguiu-se o desprezo e, sempre que possível, o achincalhamento da figura política do Presidente.

Esta direita, ébria e radicalizada pelas possibilidades trazidas pela globalização, desdenha os laços comunitários e a necessidade de encontrar equilíbrios sociais, políticos, económicos, culturais e religiosos. Não por acaso, revê-se em Trump e nas aventuras que este promete ao mundo. Cultiva o mantra da incorrecção política, embora o que a crítica do politicamente correcto pretende destruir é sempre direitos e garantias dos mais fracos.

Esta direita deseja, do fundo do coração, não apenas rupturas sociais e políticas mas a confrontação que permita esmagar os mais fracos e submetê-los à dominação. Travestido de desprezo, o ódio é dirigido para aqueles que, como o Papa ou o actual PR, insistem em estabelecer pontes, encontrar equilíbrios e não desistem de cultivar a velha virtude aristotélica da mesotês, esse meio termo entre o excesso e a deficiência, o lugar onde se encontra a justa medida, que nos permite viver, de forma decente, uns com os outros.