terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Wim Wenders, Os Belos Dias de Aranjuez


Há um momento do filme, Os Belos Dias de Aranjuez, de Wim Wenders, em que um dos protagonistas imita, histriónico, umas aves a voar em pequenos círculos. A mulher que está com ele diz-lhe que qualquer acção está fora do acordado. Esta é a chave para compreender o que faz o realizador alemão. Não há uma história, com intriga, onde a acção, com as suas múltiplas peripécias, seja o objecto do filme. Ao espectador não é proposto que acompanhe o desenrolar de uma narrativa, mas que pura e simplesmente contemple, sem a ânsia de encontrar um fim e desfazer o nó, aquilo que se passa no ecrã. Suspender a ânsia de um desenlace, eis uma das chaves do filme. Entregar-se à pura contemplação num mundo habitado pelo desejo de acção, pelo império do suspense e pelo culto da intriga.

O que se passa no ecrã? Aparentemente, um homem e uma mulher, num belo dia de Verão, estão situados num lugar paradisíaco e conversam. Melhor, ele questiona-a sobre a vida dela e ela responde. Dois modelos filosóficos subjazem ao que se passa. Por um lado, o diálogo platónico, onde uma espécie de Sócrates do século XXI interroga e guia o interlocutor, aqui uma mulher, na descoberta da verdade. Contudo, o diálogo é apenas o motivo para um outro registo filosófico, cujo modelo está em Santo Agostinho. A confissão. Uma confissão racionalizada e questionante, que, muitas vezes, termina, como vários diálogos platónicos, numa aporia. No entanto, esta confissão não tem nenhuma finalidade. Ela é um jogo. O homem e a mulher decidiram fazer um jogo, criaram as regras e jogam-no. Um jogo onde a reminiscência da mulher, a rememoração da sua vida sexual num regista de onde foi excluído qualquer erotismo, solda o diálogo e a confissão.

No entanto, isso é apenas um aspecto lateral do filme. Um escritor é filmado a escrever. O que se passa no jardim, entre o homem e a mulher, o jogo dialógico e confessional, é o produto da imaginação concentrada no seu trabalho produtivo, na sua poiesis. A beleza do lugar – beleza sublinhada pelo recurso ao 3D – e o inusitado do diálogo são uma ficção que se fabrica ali aos nossos olhos. O espectador contempla então a própria criação, como a imaginação trabalha na construção textual e se ampara na capacidade de produzir imagens. Há assim na obra de Wenders uma espécie de inversão de papéis. O filme tem por base uma obra homónima do escritor austríaco Peter Handke. A relação entre escrita e imagem é invertida no filme. Enquanto na realidade a imagem (consubstanciada na obra cinematográfica) tem a sua raiz no texto de Handke, no filme é a imagem projectada pelo escritor que, ao ganhar corpo e cor, se torna a raiz do discurso literário. É esta inversão que Wenders filma e dá a ver aos espectadores, através de uma fotografia esplendorosa, de um paraíso recuperado, onde até a maçã está presente entre o homem e a mulher, num perfect day, na voz de Lou Reed. O que contemplamos é o labor da própria imaginação, o seu jogo livre, que se inventa e institui regras, que pode destruir, um jogo que mostra a imagem, na sua plasticidade, como o fundamento do literário e da própria racionalidade.