sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Arthur Conan Doyle


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Será um mistério aquilo que faz com que uns sejam indiferentes à leitura e outros tenham nela uma fonte inesgotável de prazer. Talvez o prazer de ler tenha uma componente genética. Não faço ideia, mas é possível. No entanto, pode também resultar da deusa fortuna, da sorte de encontrar autores que despertem esse prazer quando se é muito novo. Se olhar para a minha história pessoal, descubro dois autores que tiveram uma importância fundamental na génese do meu gosto da leitura. Enid Blyton e Arthur Conan Doyle. Não, não comecei a ler precocemente os grandes clássicos do romance ou da poesia, muito menos os de filosofia. Na verdade, sou mais serôdio do que precoce. Deixo Enid Blyton para outra altura e volto-me para o médico escocês Arthur Conan Doyle, político meio falhado e espírita militante até ao fim da vida. O que lhe devo?

Devo-lhe, assim como milhões de outros leitores, o ter criado essa personagem fantástica que dá pelo nome de Sherlock Holmes. Devo-lhe ainda o prazer de ver a subtileza social britânica encenada nas relações entre Holmes e o dr. Watson. Descobrir as aventuras do singular detective na adolescência não significou apenas ter encontrada uma fonte de entretenimento, mas a abertura de mundos que estavam muito para além da pacata vida numa pequena vila de província de um país periférico, como era – e ainda é, infelizmente – Portugal. Os livros de Conan Doyle contribuíram mais para a formação do meu espírito, para a atracção pela filosofia e o respeito pela ciência, do que todos os professores que tive antes de chegar à universidade.

As aventuras de Sherlock Holmes, com o apreço dado à subtileza lógica e a atenção prestada ao papel da ciência na resolução dos mistérios criminais, não representaram apenas uma espécie de propedêutica ao amor do saber. Foram também uma escada de acesso à literatura e ao prazer de ler. Ler sem poder parar é uma experiência que nem todos têm e que nem todos os autores sabem proporcionar. Tive-a, embora não fosse já novidade, com os policiais de Conan Doyle. A partir dos seus livros descobri outros autores policiais e iniciei-me na grande literatura universal. Há muito tempo que não o leio, mas julgo que um dias destes voltarei a ele. Quem não as conhece – ou as conhece apenas de séries ou de filmes – não perderá tempo se pegar nas aventuras de Sherlock Holmes.