sábado, 21 de janeiro de 2017

Descrições fenomenológicas 19. Nas águas-furtadas

José Balmes - El Alba camino a Quilicura (1994)

A luz esbranquiçada e vibrante de uma manhã ensolarada de inverno entrava pela pequena janela das águas-furtadas, caía sobre a cama, fazendo reverberar a brancura da coberta, ao mesmo tempo que confirmava a suspeita de que ali a vida era se não pobre pelo menos frugal, quase o resultado de uma prolongada ascese. As paredes pintadas de azul cobalto, há muito salitradas, entristeciam perante a cavalgada ébria das valquírias solares. Ostentavam o efeito do tempo sobre a matéria, o desenrolar da corrupção que se instala em tudo e, sem condescendência no julgamento, anuncia o inevitável fim. O tecto inclinado, como o de todas as mansardas, composto, para esconder o telhado, por frágeis ripas de madeira castanha, segurava um fio eléctrico, hirto e amarelado pelo tempo, de onde pendia uma lâmpada nua, então apagada. Ao lado da cama, em desconcerto com o que se observava, havia uma belíssima cadeira de mogno com assento em palhinha, talvez a recordação de uma outra vida ou o resultado de um acaso. Parecia conjugar as funções originais com as de cabide e de mesa de cabeceira. Um livro de capas alaranjadas repousava ali. Das suas costas, pendia, indolente, um casaco de senhora. No meio do compartimento tão escassamente mobilado, um homem, de barba e cabelos acastanhados, vestido com uma camisa azul clara e umas calças antracite, envolvia com os braços uma mulher, com uma longa saia vermelha e uma blusa branca. As mãos dele, firmes e determinadas, seguravam-na pela cintura e puxavam-na para si, como se quisesse fundir-se naquele corpo, tão plástico e maleável se tocado pelos imperativos da volúpia. Os braços dela, uns belos braços magros e esguios, despidos, envolviam-no pelo pescoço, respondiam em contraponto aos dele, num esforço concertante que nunca deixa de fazer sorrir o improvável espectador. Beijavam-se iluminados pela luz do sol de Inverno, um beijo longo, ansioso, a anunciar um tumulto tão em contradição com o ambiente quase monacal daquele lugar. Os seios dela, avolumados sob a roupa, espalmavam-se contra o peito do homem, enquanto as bocas se sorviam, obedecendo a uma necessidade que nunca deixa de lado o poder do artifício, para se mostrar como inédita e livre, e, nesse ardil desenhado por eros ou pelo engenho da vida, transfigurar em glória aquilo que é vulgar e determinado pela ordem das coisas.  O silêncio do lugar conspirava contra o segredo, pois um segredo sempre existe numas águas-furtadas, já que deixava escutar as respirações entrecortadas, a incerta harmonia de suspiros e murmúrios, a grande corrente de ar do desejo, que crescia à medida que o sol matinal desbotava afrontado pelas primeiras nuvens que carregavam em si os sinais violáceos, quase negros e terríveis, da grande tempestade prestes a desencadear-se.