quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Livro do Êxodo - 40. Sem sombra como herança

Juan Vidales Pousa - sem título

Ninguém entra, ninguém sai. Fecharam a porta, a chave atirada para o entulho, o quintal o tem, e não há quem a descubra. Se viajares, indo vai, toma o caminho, os pés to darão, não voltes mesmo que claros fiquem os dias, embriagados de sol, a prometer êxtases e fogo-de-artifício, vai pelas rotas onde decapitados animais dormem, um céu de chumbo os cobre, essa é a tua senda. Sem flores pelos canteiros, sem pão nas veredas, apenas alguns segredos haverá na mão, palavras obscuras, uma sintaxe aos repelões, sinais na parede pintados, a cal esfacelada, as metáforas moribundas e um pântano onde flutuam restos de madeira, o caruncho os anima, flores em decomposição, violetas, rosas bravias, alguns lírios, jarros maculados, tudo isso murmura na tarde, conspira, tece breves armadilhas de algodão, cardumes de aves metálicas e peixes minerais em decomposição.

Olhei e vi a noite e o fogo estava de noite sobre ele, perante os olhos de toda a casa que, à luz da escuridão, se animava, ansiava caminhos, traçava rotas, desenhava, com mão firme e lápis de carvão, mapas de fronteiras fluidas e estradas em ruínas. Não havia pontes, as que de Roma ficaram, o tempo as levara, desfeitas em pedras, agora distribuídas casa a casa, paredes, muros, fronteiras onde a propriedade se reparte, alguém neles se senta e risca um fósforo, luz na noite, e fica a olhar as estrelas, a compor constelações, a inventar mundos de pedras cálidas e rios de enxofre, uma neblina azotada, rochas maculadas por zinabre, animais em combustão sobre as areias onde desagua um oceano sem barcos, sem peixes, apenas algumas gaivotas e dois corvos do mar, marinhos corvos eles o são.

Havia sacrifícios na acrópole, cristãos por feras no circo chacinados, a multidão berra barrabás, barrabás, o cordeiro será imolado. Atenas, Roma, Jerusalém, tudo se confunde neste mundo de águas roxas, universo de goivos incertos e areias movediças. Ao longe, na tristeza das tardes de domingo, depois da missa do meio-dia, se à missa foste, e do almoço, a memória é saqueada e fica ali em silêncio, sem devoções, caída na tentação do sono, por vezes do sexo, sem coragem para abrir um livro, ou deixar a cidade e para o campo caminhar, ver as searas de trigo, apanhar os chuviscos, a tarde sempre os traz, gritar os nomes de Deus e colher flores silvestres, o tempo as deu. Na memória, tudo se funde, Atenas, Roma, Jerusalém, quem mata a quem? Quem morre? Quem grita? Quem geme? Quem fere? Quem? Quem? Quem? Quem violou a memória e a despedaçou, a roubou aos dedos, lhe tirou o coração, lhe abriu um rombo no peito, e na face lhe pôs a dor e a pena? Quem?

Há um rio de música na fímbria dos dias, uma mão especada no silêncio da entrada, uma corda à espera da garganta, vermelha de inflamação, que se entrega como um hóspede ao cuidado da dona da casa. Há… Há… Há… Tudo neste mundo há, mas a porta está fechada, ninguém entra, ninguém sai, a chave perdida no entulho, a porteira despedida, pegou um táxi, levou a roupa, a comida, e com um gesto obsceno lavrou um destino, ali, naquele sítio, onde a memória tudo funde, atenas, roma, jerusalém, o caminho da índia, colombo, lisboa, antuérpia, paris, londres, tudo se confunde, se prende, se ata, e a chave tão perdida, e uma secura na garganta, uma dor no peito, a faca nas costas, tudo se funde na gruta dos chacais. Colecciono covis, junto dedais, escrevo palavras desconexas, não são cifras, nem sinais, nem punhos, apenas o ar da madrugada, veio um pouco mais cedo, e, ao longe, alguém que desconheço compõe calendários, mapas que não sei, o mundo me roubam, a casa, o quintal, as palavras de minha mãe, os seios das mulheres que amei, um livro, o jardim de goivos, eu caminho, caminho, pés estrada fora, sem meta por destino, sem sombra como herança. Caminho, o quarto vazio, a roupa rasgada, uma cortina caída, a janela escancarada…