sábado, 14 de janeiro de 2017

O longo braço da história

Paul Klee - Angelus Novus (1920)

Serenus Zeitblom, o narrador de Doutor Fausto, de Thomas Mann, quase no início do capítulo XXXIV, faz uma reflexão sobre a grande guerra de 1914-1918. Diz ele, um filólogo educado no mais estrito humanismo burguês, que tinha a sensação de ver o fim de uma era, que abrangia não só o século XIX, senão recuava até ao término da Idade Média, à ruptura dos entraves escolásticos, à emancipação do indivíduo, ao nascimento da liberdade. Thomas Mann tinha claramente a percepção da profundidade histórica, do longo braço da história. E este braço, cujos músculos nem sempre perdem vigor com o passar do tempo, antes pelo contrário, tem, muitas vezes, uma importância decisiva nos acontecimentos que nós vivemos no quotidiano e que a nossa ignorância, pressa e desatenção apenas nos permitem perceber os contornos que daquilo que nos afecta no momento, das dores do presente.

As querelas políticas que animam – e felizmente o fazem – o debate público na sociedade democrática, as opções dos vários quadrantes do jogo, as próprias avaliações que se vão fazendo, tudo isso assenta numa cegueira estrutural e numa desatenção à realidade mais funda que sustenta a vida vivida. A acção política – esse tricotar da história com as agulhas da paixão e o fio dos interesses – ocorre muitas vezes em terreno arenoso, pois, devido ao fulgor da actualidade, ela raramente tem consciência do longo braço da história, cuja força, sempre dissimulado, nos condiciona no presente. A ânsia dos que disputam o poder bem como a fé dos acólitos e a razão dos críticos sofrem, por sistema, dessa cegueira perante o apertado abraço com que a história envolve a actualidade.

Isto não significa que a consciência clara da existência de grandes condicionantes nascidas na história redima os agentes políticos das más opções ou que retire a glória que cabe às decisões benéficas para a comunidade. Significa apenas que todos – os agentes políticos, os acólitos e os avaliadores críticos da esfera pública – deverão ser um pouco mais cuidadosos no que pretendem, no fervor ideológico na defesa da sua seita e na escolha dos critérios com que se julgam homens e acções. A liberdade de acção, essa possibilidade de escolher caminhos perante os problemas com que uma comunidade se defronta, assenta as suas raízes num terreno, o passado, que, apesar da sua representação poder ser manipulada, é muito menos maleável do que aquilo que se gostaria. A cada momento e em cada decisão, quer o saibamos ou não, o longo braço da história não deixa de nos envolver e apertar, condicionando e limitando os nossos desejos e sonhos.