segunda-feira, 27 de março de 2017

Europa, pobre Europa


A Europa, precisamente nesta hora do seu máximo sucesso, parece ter-se tornado vazia a partir de dentro, paralisada em certo sentido por uma crise do seu sistema circulatório, uma crise que põe em risco a sua vida, que vai confiando, por assim dizer, em transplantações que, depois, acabam por eliminar a sua identidade. A este enfraquecimento interior das forças espirituais basilares corresponde  o facto de que também etnicamente a Europa parece estar a caminho da despedida. (Joseph Ratzinger (2005), Europa – Os seus fundamentos hoje e amanhã. Paulus Editora, pp. 24/25. O texto citado é de 2000)

Nestes dias em que se celebra o 60.º aniversário do projecto europeu, dias em que BE e PCP trazem, mais uma vez, para o espaço público uma visão eurocéptica, aliás presente, com mais ou menos intensidade, na generalidade dos países que fazem parte da União Europeia (U. E.), o importante não é sublinhar o estado crítico em que se encontra a U. E., mas tentar compreender a cegueira que se abateu sobre os europeus que não lhes permite perceber as causas efectivas que os estão a conduzir ao lugar assombrado em que passaram a viver. Contrariamente ao que pensa o BE e o PCP – que não é particularmente diferente daquilo que pensa o senhor Dijsselbloem, apenas o horizonte é outro –, os problemas não se centram na economia, nas finanças ou na existência ou não de soberania monetária. Isso são apenas sintomas, entre muitos outros, de uma crise estrutural muito mais profunda e para a qual os preconceitos – isto é, a ideologia – dos diversos actores funciona como um véu que os torna cegos.

O diagnóstico de Ratzinger feito no ano 2000 torna manifesta as causas profundas da crise europeia. O vazio que tomou conta da Europa. O vazio não diz respeito nem à produção e consumo de mercadorias, nem aos sistemas financeiros, nem ao desenvolvimento da técnica. Esse vazio tem uma natureza espiritual, cuja marca mais ostensiva é a grave crise do cristianismo, a sua cada vez maior irrelevância na vida do europeus, mesmo dos que se dizem cristãos e ainda mantêm uma qualquer ligação prática com a respectiva igreja. Esta crise na vida religiosa dos europeus não deixa de contaminar as outras áreas espirituais, nomeadamente a filosofia – no contexto filosófico internacional, em poucos decénios a filosofia praticada em Itália, Alemanha e França tornou-se irrelevante, perante a filosofia de cariz analítico praticada em Inglaterra e EUA – e a arte, como se em todas as áreas do espírito a Europa tivesse sido tragada pelo niilismo.

Esta crise que os actores políticos são incapazes de ver, até porque o nosso sistema político nasce da crença da separação entre religião e política, está a corroer todas as outras esferas da vida europeia, nomeadamente o domínio das condutas individuais e comunitárias, com uma evidente erosão da responsabilidade e da solidariedade. O texto de Ratzinger citado tem o ainda o condão de tornar patente a ligação entre a crise espiritual e a crise biológica dos europeus. Também etnicamente a Europa parece estar a caminho da despedida, escrevia o então cardeal. Dito de outra maneira, os valores pelos quais os europeus se regem mostram-se incapazes de os conduzir à sua própria reprodução, à manutenção das antigas comunidades e dos seus valores estruturais. A crise económica e política da Europa está intimamente ligada à sua crise biológica (veja-se o caso de Portugal) e esta parece estar correlacionada com a profunda crise de fundamentos espirituais, com o principal destaque para a crise religiosa, que assola toda a Europa. Estes são os problemas que os europeus se impediram de ver, enquanto se deixam seduzir pelas artimanhas da economia e das finanças, e são eles que estão a alimentar o crescimento dos extremismos, a impotência política do europeus e a contínua perda de referências e de horizonte.

Nota: todos os livros de Ratzinger sobre a Europa - e são vários - merecem ser lidos com muita atenção.