quinta-feira, 23 de março de 2017

Inspiring Future

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Assisti há dias, na escola onde lecciono, a uma intervenção da Yorn Inspiring Future que, para além de trazer consigo um conjunto de sessões e workshops, onde 37 universidades e politécnicos tentaram cativar os alunos do 12.º ano, explicou, numa sessão de pouco mais de uma hora, o processo de candidatura. Foi a esta sessão que assisti e foi, para mim, verdadeiramente inspiradora. A candidatura ao ensino superior é um processo burocrático e completamente desinteressante. O animador da sessão, porém, transformou aquilo num espectáculo, que, devido aos seus dotes de entertainer e de comediante, prendeu os alunos do princípio até ao fim. Quem organiza estas coisas está bem preparado, conhece os auditórios. Sabe adulá-los.
                                                                                                                                                  
Conforme me comprazia e espantava com a capacidade comunicacional ali exibida, uma preocupação nascia dentro de mim. Não se tratava sequer de estabelecer conexão entre o que estava a ver e o célebre livrinho de Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo. A coisa era mais prosaica. Ao olhar os alunos na sessão ia-se tornando claro o ideal de professor que, sem ninguém ter consciência disso, se manifestava. Não é o saber, o rigor científico ou sequer a clareza na comunicação que são fundamentais. O essencial é que o professor seja um misto de animador de plateias e comediante. Que saiba transformar os conteúdos lectivos num espectáculo leve, onde a comédia desempenha um papel central. A degradação da profissão de professor teve um ponto alto quando se começou a dizer que os alunos não eram estudantes mas clientes e os professores não passavam de gestores de aprendizagens. Esta tontice, porém, está ultrapassada.

Os alunos continuam a não ser estudantes. Talvez sejam clientes, não de aulas mas de espectáculos. O ideal que deverá agora guiar o professor não é o da ciência e do saber – não são inconvenientes, mas não são o essencial – mas o da capacidade de animar os alunos, de os entreter, de os fazer rir. Depois de morta a figura do professor às mãos dos gestores de aprendizagens, são estes que terão de ceder o seu lugar ao animador-comediante, que não prepara aulas mas espectáculos. Em tudo isto, há apenas dois problemas. Olhando para o corpo docente que existe país fora não estou a ver como é que toda essa gente com idade provecta vai conseguir fazer rir quem quer que seja. Em segundo lugar, a formação de professores está completamente deslocada. Técnicas de animação, preparação de comediantes, colecção de anedotas para teenagers continuam a não fazer parte dessa formação. O que é lamentável, pois falhar-se-á o inspiring future que nos aguarda.