terça-feira, 7 de março de 2017

Liberdade e estupidez

Lyonel Feininger - Euphoric Victory (Siegesrausch) (1918)

A triste história do cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na FCSH (ver aqui) merece dois considerandos. O primeiro diz respeito aos princípios. A liberdade de expressão é um bem que deve ser preservado independentemente da ideologia daquele que pretende exprimir-se. É inaceitável, em regime democrático, que as próprias opiniões anti-democráticas não possam exprimir-se. E isto é uma questão inegociável. Pode-se não gostar de Jaime Nogueira Pinto nem dos organizadores da sua conferência. Pode-se mesmo achar que nem Jaime Nogueira Pinto nem os organizadores são defensores das liberdades democráticas. Isso é irrelevante. Desde que aquilo que se diz não fira a lei (e no caso de ferir são os tribunais a julgar o facto e não as associações de estudantes ou outras), as pessoas têm o direito de ter as posições que muito bem entendem. Uma democracia que não permitir o contraditório tem pouca confiança em si e nos seus princípios. Pessoas que temem uma conferência possuem, apesar da exaltação, fraca fé nos seus próprios princípios e crenças. Como disse, a liberdade de todos se exprimirem é um bem inegociável.

O segundo considerando diz respeito aos objectivos estratégicos dos estudantes proibicionistas. Se esta eufórica e exaltada gente pretendia combater as opiniões de Jaime Nogueira Pinto, então seguiu o pior dos caminhos possíveis. Conseguiu, talvez por uns instantes, fazer do conferencista um pequeno mártir da liberdade. E isso, tendo em conta o passado político de Nogueira Pinto, é um feito notável. Os estudantes conseguiram transformar uma conferência irrelevante, perdida numa sala de uma faculdade, num acontecimento comentado na comunicação e nas redes sociais. Além do desrespeito por um dos vértices da democracia, a liberdade de expressão, a acção foi estrategicamente estúpida. A não ser que o objectivo seja criar um clima de temor nas franjas políticas a que os organizadores da conferência e Jaime Nogueira Pinto pertencem. Se o objectivo é este, então o caso ainda é mais grave e mais estúpido, pois abala mais fortemente os fundamentos da democracia e, como qualquer um poderá perceber, pode ajudar a dar corpo a movimentos políticos que não têm tido terreno para proliferar. Não há nada que mais ajude a crescer os qualquer movimento político do que a vitimização e o martírio. Os estudantes conseguiram uma vitória eufórica, ao ser anulada a conferência. É pena que tenha sido a vitória da estupidez e não da razão.