quarta-feira, 1 de março de 2017

Mudar mais uma vez


A minha crónica em A Barca de Março de 2017.

No próximo ano lectivo, nos anos iniciais de ciclo, vamos ser confrontados com novas reestruturações da orgânica educacional. Está em discussão o Perfil de saída dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, Perfil para o Século XXI, e estão previstas alterações curriculares e o que mais se verá. Quem está na docência há mais de trinta anos já nem se pergunta se o que vem aí é bom ou mau. O problema é bem mais profundo do que as hipotéticas virtudes ou possíveis vícios de uma nova intervenção na estrutura da educação. Ao fim de tantas experiências, os professores mais velhos – e hoje em dia quase todos os professores são bem antigos – estão vacinados contra a veia reformadora que atinge os ocupantes da 5 de Outubro.

Na verdade, nunca se sabe por que razão aquilo que vai ser posto de lado é abandonado. Não há avaliação séria de nada. A única coisa que parece clara é que a política educativa é meramente conjuntural. Mudam as maiorias governativas e a educação é vítima de uma reestruturação que parece querer mudar tudo, de ponta a ponta, mesmo quando os ministros – e os secretários de Estado – evitam falar de Reforma da Educação, uma expressão gasta e com má reputação. Por norma, os resultados destas aventuras são sempre bastante estimulantes. As escolas tornam-se espaço de mil reuniões e os professores vêem crescer a burocracia a que têm de dar seguimento para mostrar que aplicam com vigor as alterações estipuladas. Este é o principal efeito do espírito reformador dos governantes – de qualquer cor política – dentro das escolas. Os professores assistem a isto resignados e à espera que venha o próximo gabinete ministerial que trucidará estas políticas e trará novas, com os mesmos resultados.

As consequências do espírito reformista dos dirigentes políticos da educação são dignas de registo. Depois de tantas reformas e reestruturações, depois de tanto dinheiro gasto em escolas novas, conseguimos ter uma educação a funcionar para o século XIX. O principal problema não está naquilo onde os políticos podem mexer. A questão centra-se na cultura das escolas. Esta cultura é muito mais resistente do que os ministros e os governos. Ela está assente em longas tradições e em organizações escolares estruturalmente burocráticas e conservadoras, que são reforçadas pela própria estrutura material dos edifícios escolares (mesmo os das escolas novas), pela formação docente, pela necessidade de prestação de provas imposta pelo Ministério e pelo afã reformador desse mesmo Ministério, o qual, com tantas alterações, gerou uma cultura de resistência docente, cujo resultado é mudar tudo para que tudo fique na mesma. É o que irá acontecer mais uma vez.