segunda-feira, 17 de abril de 2017

Descrições fenomenológicas 25. A bela adormecida

Charles Marq - Double Composition II (1978)

A janela coa a luz fria da manhã, deixa ver o azul do céu, um azul a lembrar as manhãs gloriosas, em que a neblina se esquece de assomar com o seu manto branco e assim deixa os olhos embriagarem-se com um firmamento que ainda há pouco, no negro lutuoso que o cobria, estava infestado de enxames de luz, miríades de abelhas luminosas a cintilar sobre o cansaço dos homens, a resplandecer na sua imaginação, a fulgurar nas cavernas escuras dos corações adormecidos. Agora a luz já não é uma presença pontilhada mas uma onda gigantesca e indomável que cai sobre a terra e penetra pela janela, inunda o quarto de tonalidades amarelas e azuis, aqui e li pontuadas por um verde musgo, tão húmido e tão reluzente. Contra a parede da janela, uma cama estreita, separada do resto do quarto por uma cortina com padrões geométricos, inspirados certamente pela pintura de Vasarely, onde se descortinam grelhas lineares de duas cores, rosa salmão e azul safira, que se combinam em múltiplas figuras, deformadas pela ondulação do espaço, criando a ilusão de mundos multidimensionais a partir da superfície do tecido. Sobre a almofada, estendem-se uns cabelos negros, longos, revolvidos pela sono, com ligeiras ondulações, como se tocados por um vento suave vindo não se sabe de onde. As omoplatas sobem e descem em ritmo suave, compassado, sinal do sono ainda profundo, não maculado pelo infortúnio dos grandes pesadelos nem pela irrupção do poço do inconsciente das águas tumultuosas do desejo. A estreita cintura abre-se, num acesso de generosidade, em nádegas onde se vê, num jogo de luz e sombra, a marca do biquíni, símbolo de demarcação entre o território visível no espaço público e aquele que só a esfera da intimidade permite perscrutar, quando o corpo se abandona, despreocupado ou desejoso, ao olhar exterior. Um rio de sombra separa as nádegas e desce, cada vez mais intenso e obscuro, traçando a raia que permite compreender a separação das coxas. Um lençol branco, enrugado, oculta pés e pernas, centra o olhar do espectador na luminosidade que, ao cobrir aquele corpo em repouso, o deixa ver na harmonia recôndita que dele se desprende, como se o sono profundo o libertasse de todas as convulsões da vida, da dissonância introduzida pelo desejo ou pelos afazeres que os dias impõem. Adormecida e apaziguada, mergulhada na pequena cama, oferece o corpo para a contemplação de algum espírito invisível que a proteja do dia que já começou a rolar sobre si, ainda perdida na planície do sono, das horas de vigília onde a vida se prepara para desfazer a consonância entre o espírito e a carne que a noite, ao celebrar no sono o mistério da reconciliação, tinha com tanto cuidado posto em ordem.