terça-feira, 2 de maio de 2017

A questão religiosa

A minha crónica em A Barca.

O Iluminismo assentou a sua avaliação – claramente, negativa – da religião revelada em três pilares críticos: a crítica do preconceito, da superstição e da autoridade que não advenha da razão. Segundo os iluministas, a religião revelada manteria uma atitude anti-racional fundada em preconceitos e superstições, na ordem do conhecimento, e na autoridade, no que diz respeito a matérias morais e à própria crença dogmática. Esta crítica racionalista tornou-se no Ocidente culto o padrão com que se julga ainda hoje a religião. O que levanta, pelo menos, dois problemas.

Em primeiro lugar, a religião tem dimensões que estão muito para além daquilo que é consignado num sistema de crenças explicativas do mundo ou num código moral. A vida religiosa assenta na relação do indivíduo consigo mesmo e com a transcendência. O essencial de uma religião é a vida espiritual que proporciona. É desta vida espiritual que, no decurso da história da humanidade, se soltaram os elementos que forneceram as primeiras explicações racionalizantes do mundo (os mitos que compõem todas as religiões) e as normas de conduta que regeram – e regem em muitas culturas – a vida das comunidades. Estes últimos elementos são aqueles que, pela sua natureza acidental e histórica, se transformam em preconceitos e superstições. No entanto, eles não fazem parte daquilo que é fundamental numa religião, apesar de serem, muitas vezes, o seu aspecto mais visível e também o mais polémico. Dito de outra maneira, a crítica do Iluminismo à religião deteve-se no acidental e não compreendeu o essencial.

Em segundo lugar, a dissolução crítico-racionalista da religião, o subestimar da sua importância na vida das comunidades, está a tornar o Ocidente incapaz de perceber os problemas que o mundo islâmico lhe coloca, tanto fora de fronteiras (o último caso é o da Turquia e da sua deriva anti-secular) como dentro (o terrorismo ou a não aceitação do modo de vida ocidental por imigrantes muçulmanos). Diversos sectores islâmicos vêem no abandono do cristianismo por parte dos ocidentais uma janela de oportunidade para expandir o Islão. Não tendo passado pelo Iluminismo crítico, estão convencidos de que o actual vazio religioso não poderá perdurar, o que abrirá ao Islão um futuro risonho na Europa. É por estes motivos que a religião não pode continuar a ser considerada pelos europeus uma superstição ou uma irrelevância. E é por eles também que se deve ter muito cuidado em deitar fora o cristianismo, pois corremos o risco de despejar o bebé com a água do banho.