segunda-feira, 15 de maio de 2017

Os piores, se exceptuarmos todos os outros

Hiroshi Sugitomo - Cascade River, Lake Superior, 1995

Consta que os republicanos começam a ficar fartos do senhor Trump (ver aqui). Esta experiência americana deveria ser acompanhada com muita atenção pelos eleitorados das democracias liberais. É empolgante a retórica contra os políticos e ainda mais empolgante é incensar as virtudes dos não políticos - as gentes da sociedade civil - para o exercício do poder. As pessoas não percebem que os políticos obedecem a uma racionalidade e sabem que o seu comportamento deve ser razoável, permitindo às pessoas saberem aquilo com que contam. O cidadão não político que, como Donald Trump, decide, por um acto de puro voluntarismo destituído de qualquer fundamento cívico, entrar na corrida para o poder não obedece a nenhuma razoabilidade. O que move esse tipo de cidadão é o capricho e um ego desmesurado, os quais convivem, por norma, com tendências autocráticas, com a necessidade de eliminar todos os constrangimentos que as sociedades civilizadas têm colocado a quem ocupa o poder. O jogo de contra-poderes que este tipo de actores detesta não foi construído para tornar o jogo político mais exaltante. Foi construído para defender o homem comum dos delírios de quem ocupa o poder. Quando o homem comum, envolvido no nevoeiro da ignorância e do preconceito, não percebe isso, o resultado é o triste espectáculo que, quase todos os dias, nos chega dos EUA, onde uma democracia sólida e funcional é constantemente confrontada com a arbitrariedade de quem chegou ao poder. Parafraseando um político que falava da democracia, podemos dizer que os piores homens para ocupar o poder são os políticos, exceptuando todos os outros.