sábado, 24 de junho de 2017

A doença do optimismo

Pablo Picasso - Cabeza de hombre (1969)

Um dos argumentos que a direita, entre ela os liberais mas não só, com mais pertinência usou contra o marxismo e as suas pretensões foi o da risibilidade do optimismo antropológico inerente às crenças socialistas e comunistas. Crer que a maldade humana é o fruto de uma sociedade classista e com o fim desta - e da propriedade privada dos meios de produção - essa maldade desapareceria para dar lugar a uma espécie de paraíso na terra, no qual a própria política perderia sentido, é acreditar numa fantasia que nenhum facto corrobora ou sequer indicia.

O mais espantoso é que o cepticismo antropológico que a direita, com acuidade e justeza, dirigiu à utopia marxiana se transforma num complacente optimismo perante a iniciativa privada, o mundo dos negócios, a liberalização e desregulação de tudo e mais alguma coisa. Nem os mais patentes casos de polícia e as desgraças disseminadas que tomam o nome de crises são factualidade suficiente para que a direita se recorde do pessimismo antropológico com que enfrentou o marxismo.

Ora um pessimismo persistente sobre a natureza dos homens é a melhor maneira de tornar a vida civilizada. A civilidade não nasce porque acreditamos na bondade do homem, mas porque desconfiamos dele, das suas intenções e das consequências dos seus actos. Só um pessimismo antropológico persistente suporta, em todas as áreas, políticas prudenciais que limitam sonhos (isto é, desejos de triunfar sobre os outros) e utopias (e como se sabe há utopias comunitárias e utopias individuais). A prudência não resolve tudo, porque há coisas que ultrapassam a medida e o poder dos homens, mas pode impedir que certas catástrofes se tornem um drama sem fim.

Por detrás dos acontecimentos de Pedrógão Grande há um longo percurso fundado no optimismo antropológico, na crença na bondade dos interesses e desejos dos homens. O resultado foi um comportamento generalizado onde a prudência esteve longe, muito longe, de ser preocupação dos políticos (não apenas dos vários governos, mas de vários regimes), dos empresários que vivem da floresta, das instituições e das próprias pessoas. Por norma, estas coisas não se notam, mas há momentos, como o actual, em que tudo se conjuga para tornar patente que a nossa conduta é há muito, e também agora, errada e viciosa.

Aprendemos alguma coisa? Obviamente que não. Iremos passar o tempo a discutir questões técnicas e a tentar tirar proveito político. As facas estão já a ser afiadas e a natureza dos bandos, passado o pudor inicial, virá ao de cima. Não é porque 64 pessoas morreram e arderam uns milhares de hectares que o optimismo antropológico inerente às várias seitas e capelas em confronto irá ser abandonado. Claro que alguma coisa irá mudar, mas apenas para que, como ensinou Tomasi di Lampedusa, tudo continue na mesma. Amanhã outra coisa qualquer ocupará o lugar da indignação, que é a reacção sentimental e naïf pela falência da crença na bondade do homem, no optimismo antropológico.