domingo, 11 de junho de 2017

Angela Merkel

A minha crónica no Jornal Torrejano.

O comportamento do presidente Donald Trump na sua estadia em solo europeu teve a utilidade de mostrar que a defesa europeia, através da NATO, se encontra nas mãos de alguém que não é minimamente previsível, sem quaisquer princípios políticos ou, tão pouco, sentido de Estado e das conveniências. A presidência americana não está nas mãos dos republicanos, mas de um self made man sem pedigree político nem humildade para perceber a natureza do jogo perigoso que está a jogar. Isto parece entusiasmar intensamente os amantes de aventuras radicais e os adeptos da teoria de quanto pior, melhor. Para as pessoas sensatas é, todavia, um perigo, pois confirmou-se que o amigo americano nos voltou as costas. Este corte pode, contudo, ser uma oportunidade para o projecto europeu.

Depois do brexit e da visita de Trump, a União Europeia encontra-se numa encruzilhada. Pode ceder à pressão anglo-americana e entrar num processo de autodestruição ou pode encontrar, na nova situação, o combustível para refazer esse projecto e dar passos na consolidação da União como um dos grandes pólos da política mundial e não apenas um espaço comercial mais ou menos rico e apetecível. O retorno às velhas soberanias, tentador em sectores cada vez mais largos dos eleitorados, não será apenas um problema económico derivado da destruição do grande mercado europeu. Será o retorno aos nacionalismos e às velhas rivalidades que conduziram o mundo a duas guerras mundiais. Será também a condenação das nações europeias à irrelevância geopolítica. O projecto europeu continua a ser a única alternativa credível a uma decadência irreversível de parte substancial das nações europeias.

Esse projecto precisa de um conteúdo e de uma liderança forte. Quanto ao conteúdo, ele deve ter, agora que os americanos voltaram as costas, um pilar militar estruturante de uma defesa comum credível. Deve, por outro lado, continuar o processo de modernização das economias e dos estados europeus e, ao mesmo tempo, estabilizar os diversos estados sociais. Primeiro, como forma de reforço da coesão interna através do compromisso dos cidadãos com a União e, depois, como barreira ao crescimento eleitoral dos nacionalismos. Estes conteúdos – que não geram consensos facilmente – precisam de uma forte liderança política. E no actual quadro, tendo em conta os dirigentes políticos existentes, a liderança digna desse nome e com capacidade para dar um rumo à União Europeia é Angela Merkel. A chanceler alemã parece ser a única personagem política europeia que detém a autoridade e a força políticas para evitar a queda no abismo e encontrar um caminho de redenção do projecto europeu.