segunda-feira, 3 de julho de 2017

O anarquismo

Nadar  - Russian anarchist Michael Bakunin (1864)

As ideologia políticas têm tido, nas sociedades modernas, uma dupla função. As elites políticas assumem-nas como formas de legitimação do seu direito de ocupar o poder de Estado. Tanto os poderes autoritários como os democráticos precisam, para além da violência ou dos votos, de um discurso, de uma narrativa, que confira sentido e, por isso, legitimidade ao seu poder. Os cidadãos usam as ideologias como um véu de ilusão que os ajuda a suportar esse mesmo poder. A natureza do poder de Estado é tal que nunca é possível olhar para ele na sua crueza. A visão do poder tal como ele é em si mesmo é insuportável. Por isso, ele precisa de se cobrir com um véu e os cidadãos necessitam que ele se cubra com esse véu. No Antigo Regime, o véu ideológico seria a narrativa sobre o direito divino dos Reis a governar. Depois da Revolução Francesa, esse véu passou a ser constituído pelas ideologias políticas.

É aqui que cabe perguntar se o anarquismo é uma ideologia política. Em aparência, será, mas o anarquismo defende a extinção do poder do Estado. Mais do que uma ideologia comparável com o liberalismo, o socialismo ou o conservadorismo, o anarquismo é expressão de um sonho da humanidade. O sonho de não ter de se submeter ao império do outro. O sonho de não ter de obedecer ao arbítrio de terceiros. Como acontece com os sonhos, os sonhadores sabem que, devido à nossa natureza, o sonho anarquista é uma pura impossibilidade. E apesar de não o levarem a sério, não deixam de olhar para ele com a simpatia que devotam aos seus devaneios mais queridos. O anarquismo é o negativo da nossa condição. Ele não está no horizonte das nossas possibilidades, nem corresponde à nossa natureza retorcida e, para usar a linguagem da religião, decaída. Seria a forma de organização social em que gostaríamos de viver se não fôssemos aquilo que somos.