sábado, 1 de julho de 2017

Um desafio


A minha crónica no jornal A Barca.

Uma das consequências do fim do bloco de leste e da consequente derrota política e ideológica do socialismo foi a perda de sentido para as vitórias eleitorais da esquerda. Por perda de sentido refiro-me à ideia de que essas vitórias seriam – como então se pensava à esquerda – um passo no progresso para uma sociedade melhor e mais justa, uma verdadeira sociedade socialista. Não é que a realidade confirmasse que qualquer vitória eleitoral da esquerda tivesse o condão de deslocar a sociedade em direcção ao fim que ela almejava. Não deslocava. Permitia, quando permitia, algumas reformas tendentes a uma maior democratização no acesso a certos bens sociais. Contudo, o sentido estava ali a dar uma coerência e uma finalidade à história vivida.

Hoje em dia, nada disso existe. Uma vitória eleitoral da esquerda não é um passo em direcção a coisa nenhuma. Permitirá, eventualmente, algumas reformas menos duras na sociedade, mas não traz consigo nenhuma ilusão de um progresso em direcção a uma outra sociedade. As vitórias eleitorais da esquerda são apenas um momento que dará lugar a futuras vitórias eleitorais da direita. A ilusão de que nos estaríamos a aproximar de algo melhor e mais justo acabou, e acabou porque pura e simplesmente não há lugar nenhum mais justo que nos espere no futuro. Esse território da sociedade melhor que a actual – o que fazia da política de esquerda uma política de contínua extra-territorialização, de estar a caminho de outra coisa – nem como ilusão consistente existe hoje em dia.

Uma das consequências disso é a actual solução governativa portuguesa. Foi o sentimento difuso existente no BE e no PCP de que não há nenhuma sociedade socialista à nossa espera que os tem obrigado a apoiar ao governo de António Costa. Esse sentimento, porém, precisa de ser transformado em análise racional da realidade social e política que nos cabe. O desafio que se coloca hoje à esquerda é apenas – pois não há outro – o de melhorar as instituições económicas, sociais e políticas em que vivemos. Ora esta política de melhoria não pode ser construída apenas pela reivindicação de devoluções e de reposições de certos bem sociais perdidos. Esta é ainda uma política reactiva. A esquerda, se quer continuar a influenciar os destinos do país, precisa de ter políticas activas que melhorem o funcionamento da sociedade, que limitem drasticamente a corrupção, que combatam a incúria e que fomentem uma economia de mercado mais adequada, mais justa e com menos influência no Estado. Dito de outra maneira, que ajudem a melhorar o capitalismo.