domingo, 16 de julho de 2017

Versos e civilização

Santiago Rusiñol Prats - Alegoria da poesia (1895)

Meter equals verse, equals poetry, equals culture, equals civilization.
Charles O. Hartman, Free Verse, an Essay on Prosody, p. 6

A recepção hostil da poesia escrita em verso livre – isto é, em verso que não obedece às regras métricas de distribuição dos acentos tónicos e dos limites da dimensão do verso – levou a que muitos estudiosos da poesia considerassem a emergência do verso livre, em finais do século XIX e inícios do XX, não apenas uma aberração poética como, em última análise, um ataque à civilização. É isso que Charles O. Hartman sintetiza de forma irónica na frase citada em epígrafe. A frase tem o poder de, ao falar de versos e de poesia, nos mostrar aquilo que consideramos ser uma vida civilizada, a qual é sempre erigida em contraposição com a vida dos bárbaros.

A vida civilizada, se a perscrutarmos a partir da analogia com o verso, é aquela que tem uma certa medida, tal como os diversos tipos de versos tradicionais obedecem a certas medidas, as quais impõem um limite para o tamanho do verso. Esta concepção da civilização tomada em analogia com a métrica dos versos não deixa, porém, de obedecer a uma concepção moderna de civilização. Uma ideia que se liga de imediato à civilização é a de limite. Um ser civilizado é, contrariamente a um bárbaro, alguém que reconhece limites à sua acção e à satisfação das suas faculdades de desejar e de conhecer. Ser civilizado significa reconhecer que tanto o que pode desejar quanto o que pode conhecer é limitado. Esta ideia de limite é central na modernidade e, fundamentalmente, no Iluminismo e épocas subsequentes.

O carácter moderno deixa-se compreender, talvez ainda com mais intensidade, numa outra característica presente no verso metrificado, no verso não livre. Trata-se do próprio conceito de medida. A poesia estaria aberta a uma compreensão matematizante e quantificada através da escansão das sílabas poéticas. Escandir um verso é uma forma de medir o verso, de introduzir o cálculo e a quantidade nesse elemento que, na imaginação popular, está mais próximo de uma visão qualitativa do real do que de uma visão quantitativa. É esta ligação do verso à quantidade que permite, juntamente com a ideia de limite, que se estabeleça a analogia entre verso e civilização, isto é, aquilo que nós ocidentais modernos consideramos civilização. A vida civilizada do Ocidente tem no seu fundamento o cálculo e a quantificação. Basta olharmos para o peso que a economia tem, desde há muito, na vida social e política. Basta compreender que os sistemas políticos civilizados – isto é, as democracias – fundam-se na matematização das opiniões expressas em votos e, também, em sondagens.

No âmbito da analogia entre verso e civilização, podemos, agora, perguntar o que significa a emergência do verso livre, do verso que abandonou, na sua estratégia prosódica, o cálculo das sílabas poéticas e a ideia de limite do verso, isto é, que rompeu com as convenções anteriores. A primeira coisa que é possível compreender é que uma civilização – tal como um verso – está fundada em convenções. Assim como a métrica dos versos é uma convenção, a vida civilizada é também uma vida convencional, uma vida que adoptou certo tipo de convenções e que proscreveu outras. Isto tem um impacto muito maior do que se possa pensar. Significa que a civilização ocidental não é a civilização mas uma civilização possível entre outras. Tem as suas convenções diferentes de outras convenções adoptadas por outras formas de vida civilizada. O verso livre, ao relativizar os versos métricos, diz-nos, ao mesmo tempo, que a nossa civilização é meramente relativa, um modo de vida entre outros modos de vida possíveis e civilizados.

Uma segunda consequência do verso livre, se se continuar com a analogia entre verso e civilização, é que a ideia de limite ou de fronteira foi estilhaçada. Não é que os limites ou as fronteiras tenham deixado de existir. Tornaram-se, porém, mais difusos se não mesmo mais confusos. Curiosamente, foi isso que sucedeu no mundo desde o início do século XX (e o século XX começa, efectivamente, em 1914, com a Grande Guerra) até aos dias de hoje. Neste caso, o verso livre teve a capacidade de antecipar o destino da vida civilizada, onde as fronteiras entre civilizados e bárbaros, para recorrermos à distinção grega, se tornaram completamente porosas.

Onde a analogia parece não fazer sentido é na questão do cálculo e da quantificação. Se o verso livre trocou a quantificação métrica por outras formas de prosódia para a construção do ritmo e do sentido poéticos, a vida da nossa civilização continuou – aliás, tem-se assistido a uma intensificação – dependente do cálculo e da matematização da realidade. Se o ritmo de um verso já não é dado pela quantidade métrica, a vida civilizada depende, cada vez mais intensamente, de uma compreensão quantificada da realidade, seja esta qual for. Aceitando isto, poderemos dizer que a analogia, há muito intuída, entre verso e civilização falhou completamente. Ou então, uma possibilidade sempre atraente, pode-se afirmar que o verso livre se constituiu como uma profecia, acerca da nossa civilização, ainda não realizada, uma profecia que contém a ameaça do fim de uma vida dependente continuamente do cálculo e de uma interpretação quantitativa da realidade.