quinta-feira, 3 de agosto de 2017

As relações PCP e BE

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Uma meditação política antes de férias. No actual arranjo governativo há uma situação a que não se dá a atenção que merece. O governo depende dos acordos na Assembleia com o BE e o PCP. Por norma, não há um acordo a três, mas acordos do PS com o BE e acordos do PS com o PCP. Esta situação deve-se às relações equívocas – para não dizer tensas – entre BE e PCP. Há, para isso, razões históricas e razões psicológicas, digamos assim.

Historicamente, as organizações que constituíram o BE nasceram de rupturas traumáticas com o PCP, no caso da UDP e da Política XXI, ou com a antiga Terceira Internacional, no caso dos trotskistas do PSR. O trauma em política conduz a considerar que o antigo amigo é agora um encarniçado inimigo. Por outro lado, desde o 25 de Abril de 1974 que o PCP tentou evitar que surgisse, à esquerda do PS, uma força política com peso. O facto do BE ter, actualmente, uma maior expressão eleitoral do que o PCP é sentido por este como uma injustiça e quase um insulto.

Poder-se-ia pensar que a rivalidade nasce de ambos disputarem o mesmo espaço eleitoral. Contudo, não é isso que acontece. O BE não tem qualquer capacidade de penetrar no eleitorado tradicional do PCP, nem este tem capacidade de penetrar nos eleitorados onde o BE encontra os seus eleitores. Na verdade, do ponto de vista do mercado eleitoral, mais do que rivais, BE e PCP são complementares. Para além desta complementaridade, há uma coisa que, queiram ou não, os une.

O que os une é o destino a médio prazo. Esta experiência governativa tem um preço. Esse preço é o de não se poder voltar atrás, aos tempos em que PCP e BE se apresentavam como belas almas, sem as mãos sujas pelo convívio com o poder, não sentindo limite para a contestação e os devaneios. Isso acabou. A relevância de ambos os partidos, a partir de agora, não vem da mera contestação, mas da sua capacidade de influenciar e exercer o poder.

Uma maioria absoluta do PS, nas próximas eleições, pode condenar a ambos ao definhamento. Para o evitar, é preciso que se apresentem ao eleitorado com vontade de exercer o poder, e com soluções para um bom governo do país, dentro das regras a que estamos sujeitos, por vontade própria. E isto é fundamental para a esquerda e para as pessoas, pois o PS entregue a si próprio está, pela sua própria história, longe de ser confiável. Isto deveria ser suficiente para pôr de lado estados de alma e levar a uma cooperação mais institucional entre PCP e BE, o que reforçaria o seu poder negocial com o PS. O eleitorado das diversas esquerdas agradeceria.