terça-feira, 31 de outubro de 2017

Catalunha, um certo desconforto

Francisco Iturrino - El paseo. Plaza de Cataluña (1915)

Agora que o problema da Catalunha parece entrar na via da solução – uma solução transitória, como tudo na vida –, vale a pena tentar compreender porque gera uma sensação não só de pura irrealidade mas de um tão grande desconforto. Não se trata de uma questão política, saliente-se. É fácil compreender o ponto de vista das partes. Trata-se antes da encenação, das palavras, das manifestações, das acusações, das fugas. Enfim, da estética do evento, da deplorável estética que dele ressalta.

Num mundo civilizado e esteticamente suportável tudo se passaria tranquilamente. O governo da Catalunha diria: bem estamos cansados deste casamento e queremos o divórcio. Não há razões para continuarmos a viver na mesma casa. Vamos lá fazer as contas. O governo de Madrid consideraria o caso, entre o enfado e a irritação, e proporia que se consultasse o Rei para fazer terapia de casal. As partes desavindas, nas sessões, poderiam insultar-se, embora sem levantar a voz, como se estivessem num filme de Bergman.

A certa altura, o Rei, com cautela e para não interferir na vontade das partes, sugeriria que pensassem bem na situação. Que tal um exame de consciência por parte de quem se quer divorciar? E como quem não quer a coisa, sem gritaria, convocava-se um referendo para, pacata e civilizadamente, os catalães dizerem o que lhes vai na alma. E chegaria o dia em que diriam: foi bom, mas acabou-se. Ou, na alternativa mais provável, reconheceriam que a ligação ainda tem muito para dar.

Tudo isto, porém, sem grande espectáculo, sem palavreado horrendo, sem a chicane do que se quer ir, sem os ataques de fúria do amante atraiçoado, e também, no caso provável de quererem continuar casados, sem cenas românticas na via pública. Num mundo modicamente civilizado, como é suposto a Espanha ser, nada do que se tem passado se deveria ter passado. Casamentos, concubinatos, traições e divórcios são coisas que se devem tratar com discrição. No fundo, ser civilizado é um exercício contínuo de saber manter as aparências e, acima de tudo, o fair-play