quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O senhor Platão


Estou a ler o Against Democracy, de Jason Brennan. É muito curiosa a forma como ele divide, relativamente à política, os cidadãos das sociedades democráticas. Hobbits, hooligans e vulcanos. Os hobbits têm um fraco ou nulo interesse pela política. São, perante ela, sujeitos passivos. Os hooligans possuem um interesse vivo, informam-se e sentem o dever de participar, embora a sua capacidade de entender outros pontos de vista, mesmo se são apoiados por uma evidência esmagadora, seja muito limitada ou nula. São os sujeitos políticos activos. Por fim, os vulcanos. Interessam-se pela política, mas são racionais a pensá-la. Aqui a racionalidade é entendida como a capacidade de não aceitar crenças desmentidas pelo factos. Se a realidade desmente a teoria, o vulcano desfaz-se da teoria. É um sujeito racional perante a política. Também é uma raridade.

Esta divisão tripartida dos cidadãos perante a política, apesar da fosforescência das designações, onde se desenha um certo divertimento, ecoa algo muito antigo. Na verdade, não estamos perante outra coisa senão a visão platónica do ser humano, com a alma dividida em três partes. A concupiscente, a irascível e a racional. Todos os seres humanos possuem as três partes, o que os diferencia é a parte que é dominante. Combinando a teoria de Platão com as designações de Brenann, teríamos os hobbits, em que o que domina a alma é a concupiscência, o que explica a sua passividade. A parte irascível domina nos hooligans, daí a sua propensão para a acção política acompanhada pela incompreensão do outro lado. Por fim, os vulcanos não são mais do que os filósofos platónicos, em que a parte dominante da alma é razão. E isso torná-los-ia mais aptos para governar. Como se vê, de um momento para o outro, uma velha teoria platónica, tida como uma curiosidade pelos leigos ou uma relíquia pelos praticantes da filosofia, é reanimada e colocada no centro do debate intelectual. Mais uma vez somos chamados a reflectir sobre o que acontece quando somos governados por hooligans. O senhor Platão nunca passa de moda.