quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Semelhanças e confissões

Friedrich Engels - Max Stirner

O irmão mais novo de Bruno Bauer, Edgar (1820-1886), passa por ter sido, nos seus verdes anos, o fundador do movimento anarquista na Alemanha. Há quem, inclusive, consiga discernir nos seus escritos de juventude uma justificação teórica do terrorismo. Mais tarde, como acontece com muitos jovens radicais, tornou-se conservador. Interrogo-me, eu que não conheço as suas obras, em que momento da vida teria escutado a confissão de Max Stirner (1806-1856), catorze anos mais velho. Este ter-lhe-á dito que uma vez, inopinadamente, viu a mulher, Agnes Butz (1815-1838), nua e que, a partir daí, nunca mais conseguiu tocar-lhe. O enigma desta história não está na morte do desejo perante o espectáculo da nudez. Talvez o corpo de Agnes fosse demasiado luminoso e, como sabemos, a luz ostensiva é um poder mortal. Enigmático é o motivo que leva Stirner a partilhar a sua experiência de iluminação e morte com alguém que não só é muito mais novo como, por certo, ainda muito jovem. Podemos pensar que há nos homens um pendor para a confissão. Isso, porém, não explica a escolha daquele confessor. Haverá outra possibilidade. Stirner terá estabelecido uma analogia entre o corpo de Agnes, cuja nudez lhe apareceu como uma explosão paralisante, e o espírito do jovem Bauer, tão pronto a dinamitar a ordem do mundo. E todos sabemos como o reconhecimento de semelhanças leva os homens a falar do que prefeririam esconder.