segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Abandono

Deborah Turbeville - Unseen Versailles - Aurelia Weingarten, 1980

Olha-se a fotografia de Deborah Turbeville e percebe-se, se súbito, que todo o abandono é uma encenação, uma encenação que é uma estratégia para lidar com a desmesura, com o que há de excessivo. O corpo no chão, perdido na decomposição outonal, parece esmagado pela altura do palácio e, no entanto, não é a morte aquilo que vemos, antes um fingir-se morto, uma diminuição de si, como o fazem certos animais, para que o excesso envolvente não dê por aquela presença. O abandono é, então, um longo exercício de auto-defesa, de preservação, de conservação. Um recurso da esperança.