sábado, 2 de dezembro de 2017

Gravitas

A minha crónica em A Barca.

Os antigos romanos possuíam quatro virtudes que estimavam acima de todas as outras. A pietas (piedade), a dignitas (dignidade), a iustitia (justiça) e a gravitas (gravidade). A tradução portuguesa de gravitas por gravidade não consegue reter a riqueza e densidade semântica do vocábulo latino. Literalmente, gravitas significa peso. Este peso, todavia, não é um peso físico mas moral. O peso que alguém ostenta devido à profundidade da personalidade, à seriedade, à responsabilidade e ao fundo compromisso com o dever. A gravitas foi vista como o pilar do gentleman inglês nas épocas Vitoriana e Eduardina. Até ainda bem dentro da segunda metade do século XX, um político que se prezasse ostentava a gravitas como forma de legitimar a sua presença no poder.

Sem se perceber muito bem porquê, talvez devido aos eflúvios do Maio de 68, a gravitas deixou de ser uma virtude que um homem político devesse ostentar. Talvez as câmaras da televisão, depois da grande revolução dos costumes, convivam mal com personagens graves, profundas e sérias. Elas precisam de outro tipo de actor político para animar o show business. Ora a decadência da gravitas não representa apenas a substituição de políticos com peso na sociedade por políticos cuja característica seja a leveza. A diluição da gravitas arrastou com ela o desaparecimento dos atributos que a compunham. Não apenas desapareceram as personalidades profundas, como desapareceram o culto da seriedade, da responsabilidade e o compromisso com o dever. Não vale a pena dar exemplos tanto em Portugal como por essa Europa fora. Talvez com a excepção da senhora Merkel, o mundo político é risível.

Em tudo isto há um sintoma de uma doença profunda que atinge as nossas democracias. Essa doença, porém, não tem a sua origem nas elites políticas mas nos cidadãos e nas comunidades. Estas, com o desenvolvimento da democracia e do bem-estar, tornaram-se complacentes com as elites dirigentes. São os eleitores que permitiram, primeiro, e exigiram, depois, que a gravitas desaparecesse da vida política. São elas que escolhem políticos risíveis, que veneram gente irresponsável. São elas que desligaram, nas suas concepções de vida e de comunidade, a relação entre dever e política. Assim como os monarcas absolutos, no Antigo Regime, se libertaram da tutela do papado, também os políticos actuais estão a libertar-se da tutela dos cidadãos. Estes são agora cúmplices da leveza com que as elites governativas tratam do bem público. Ora, contrariamente ao que se possa pensar, a democracia não é um regime irrevogável. Um dia poderá cair por falta de gravitas.