sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A esquerda e os rankings escolares


Vivemos num estranho país. Num país menos estranho do que o nosso, seria normal que as gentes de esquerda quisessem ver publicados os rankings escolares e as gentes de direita – pelo menos, aquela que tem os descendentes nos colégios privados que ocupam os primeiros lugares dos rankings – quisessem que eles não fossem publicados. Mas não é assim. As gentes de esquerda, por norma, odeiam ou, pelo menos, desprezam os rankings, enquanto a direita social gosta deles. Por que motivo, perguntará o leitor, a direita deveria querer ocultar os rankings e a esquerda deveria querê-los públicos?

Relativamente à direita social, a resposta é fácil. Esta não tem qualquer interesse em que se saiba claramente as vantagens que os seus descendentes têm no acesso à Universidade, às melhores Universidades. Quanto menor for a concorrência, quanto menor for a igualdade de oportunidades, quanto maior for o fosso entre os resultados do ensino público e os dos grandes colégios privados e quanto mais secreto for esse fosso melhor. Os descendentes estarão mais à vontade no acesso aos cursos que pretendem, àqueles que abrem às pessoas as melhores oportunidades. Para essa direita, o melhor seria não haver rankings e que ninguém soubesse o desempenho da escola pública.

Relativamente à esquerda social (e política, diga-se) o problema é mais complicado. Por norma, é contra os rankings porque estes hierarquizam as escolas. Um dos argumentos que mais se ouve é que os rankings não avaliam as escolas como deve ser. Este argumento, porém, é uma falácia do espantalho. Os rankings não pretendem avaliar escolas ou professores. Os rankings apenas tornam patente os resultados dos alunos organizados por estabelecimento de ensino. Um segundo argumento diz que os rankings comparam o incomparável. Este argumento é pura e simplesmente falso. O que está a ser comparado são os resultados dos alunos e esses são comparáveis. Mais, a diferença desses resultados tem consequências para o destino de cada um dos alunos.

Por que motivo a esquerda deveria gostar dos rankings? Pelo facto de eles mostrarem como está a saúde das políticas de igualdade de oportunidades. Se os rankings avaliam alguma coisa é o trabalho do sistema educativo na promoção real – e não apenas proclamatória e virtual – da igualdade de oportunidades. Quando os rankings mostram que certas escolas públicas, mas também privadas, apresentam resultados maus ou medíocres está a mostrar-nos que o sistema – tanto a nível central como local – está a falhar no desígnio de assegurar a todos os alunos um acesso semelhante a um bem que é a educação, onde se inclui o acesso à educação superior. A esquerda prefere que isto não se saiba? Que se disfarce?

A esquerda deveria preocupar-se em assegurar condições para que o fosso dos resultados desaparecesse, para que os rankings passassem a mostrar que os alunos pobres e/ou do interior têm as mesmas possibilidades reais – e não meramente virtuais – que os filhos das elites que frequentam os grandes colégios. A esquerda, se estivesse preocupada com os filhos dos seus potenciais eleitores, em vez de esconder a mensagem e tentar matar o mensageiro (os rankings), deveria exigir discriminação positiva eficaz no apoio às escolas em dificuldades e reivindicar condições para um ensino rigoroso e de qualidade em todo o sistema público. Parece, contudo, que a esquerda gosta mais dos seus preconceitos ideológicos (ainda por cima incongruentes) do que das pessoas reais. Infelizmente.