terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Um país mais liberal

Gustav Klimt - Girlfriends (1916-17)

Não nego, longe disso, a coragem de Adolfo Mesquita Nunes, um talentoso político do CDS da nova geração, e de Graça Fonseca, secretária de Estado do actual governo socialista, de assumirem publicamente a sua orientação sexual. Como salienta João Miguel Tavares no Público, “Portugal deve ser o país com maior distância entre as políticas progressistas no que diz respeito aos direitos dos homossexuais, onde estamos entre os países mais avançados do mundo, e o número de políticos que se assumem como homossexuais no espaço público, onde estamos entre os mais atrasados da Europa”. A coragem deve ser lida como coragem de ruptura com a prática política de ocultar a orientação sexual, se esta é homossexual.

Há contudo uma outra coisa que não é dita nos justos encómios a Mesquita Nunes e Graça Fonseca. Não tem a ver com a esfera política mas com o país. Portugal tornou-se um sítio onde se aceita com facilidade as opções dos outros. Tem crescido, nos últimos tempos, uma cultura liberal entre a população marcada pelo vive e deixa viver. Quem conheceu o Portugal de há 40, 30 ou mesmo 20 anos sabe que houve mudanças radicais no comportamento perante o que os outros fazem das suas vidas. Não é que não haja má-língua, não é que não aflorem, ainda demasiadas vezes, tentativas de intromissão na vidasde terceiros, mas o ambiente mudou radicalmente. Podemos discutir se essa mudança se deve a termo-nos tornado mais tolerantes ou se é fruto da pura indiferença. Talvez as duas sejam verdadeiras.

Seja como for, o acto destes dois protagonistas políticos só se tornou possível porque o país mudou e mudou para melhor, tornando-se mais liberal e mais respeitador das opções de cada um. E o que mostra que o país mudou foi a forma como as declarações de ambos foram recebidas na esfera pública. Esta recepção assim como a crítica acerba, mesmo dentro da Igreja, às declarações do cardeal Manuel Clemente sobre a abstinência sexual dos recasados (um problema que apenas afectaria os católicos) mostram que o país se reconciliou com a sexualidade, que não faz dela uma arma de arremesso político, remetendo-a para a esfera da vida privada e da consciência dos indivíduos, os quais são considerados livres para fazerem o que entendem das suas vidas. E este progresso da cultura do país não deve ser subestimado.