quarta-feira, 7 de março de 2018

A distopia educativa

Florian Schmidt, Turn The Page

Há muito tempo que perdi qualquer ilusão sobre a melhoria do sistema educativo português. Os motivos são vários. Há uma cultura dos alunos adversa à aprendizagem escolar, há um retrocesso no formação dos professores relativamente às décadas de oitenta e noventa do século passado e há também um problema com as famílias que ora são desatentas ao percurso dos seus filhos, ora são factor de perturbação, devido a uma hipertrofia da sua presença nas escolas, quase sempre de forma enviesada. Estes factores, porém, não são o cerne do problema. 

O problema reside na bipolaridade política (e aqui estou de acordo com Santana Castilho) que tornou o sistema absolutamente ingovernável. Depois de um consenso inicial nos anos noventa, consenso esse gerador de um grande entusiasmo, a ressaca dos aspectos utópicos gerou dois campos antagónicos que colonizam a educação com os seus devaneios ideológicos. Poderíamos dizer que estamos perante duas utopias. Uma utopia de direita baseada na idealização de uma escola do passado e num rigor que nunca existiu. Uma utopia de esquerda fundada numa perfectibilidade de professores e alunos a ser atingida no futuro que nunca virá. 

Ambos os lados fogem do presente, isto é, da realidade. Dos professores que existem, dos alunos que estão nas escolas, das famílias que solicitam os serviços de educação. Eu sei que a mesma realidade pode ter leituras diferentes. No entanto, se ambos os lados olhassem para a realidade talvez houvesse margem de manobra para se chegar a consensos que evitassem a maluquice em que as escolas vivem ano após ano. Muda o governo e tudo tem de mudar no sistema educativo. Já chega. A soma de várias utopias gerou uma escola completamente distópica. É tempo de mudar de página. São precisas mudanças, claro. Mas elas têm de ser consensualizadas, caso contrário o inferno não terá fim.