domingo, 11 de março de 2018

Passos, o catedrático convidado

Joan Ponç, Comença el Gran Ball de les Bruixes, 1951

Estou perplexo com as reacções ao convite dirigido pelo ISCSP da Universidade de Lisboa, uma universidade pública, pormenor não despiciendo, a Passos Coelho para que, com o estatuto ou o vencimento, não sei bem, equiparado a professor catedrático, leccione algumas coisas de que ele supostamente terá experiência para dar e vender.

A minha primeira perplexidade é com as reacções da esquerda. Em vez de vitoriar e alegrar-se com a conversão do antigo campeão político do liberalismo português – havia quem o visse já como uma Thatcher de calças e óculos que só não foi mais longe porque… –, com a conversão de Passos, dizia, ao Estado social, acolhendo-se, em tempo de desdita, num emprego do mesmo Estado. Em vez de protestar contra a contratação do antigo primeiro-ministro, os estudantes e o povo de esquerda deveriam acolhê-lo com cravos, como mais um dos dele, um neoconverso ao papel fulcral do Estado na sociedade. Mais, não só vai trabalhar para uma instituição estatal, como vai ser cúmplice, pelo exemplo e enquanto professor, da reprodução do amor ao Estado entre as novas gerações. Passos Coelho deveria ser visto pela esquerda pelo menos – e é o mínimo – como um compagnon de route.

Não menos perplexo me deixa a imensa mole dos apoiantes de Passos que agora vitupera a esquerda por o não querer como professor no ISCSP. O lógico não seria essa gente – fundamentalmente, a brigada liberal e anti-Estado – vir para as ruas e rasgar as vestes? Não deveria a direita social estar furiosa por um deles, aquele que mais esperança lhe deu na liberalização do país, ir agora acolher-se nos braços amáveis de um salário pago pelo maldito Leviatã? Como é possível que O Observador e os blogues associados não organizem uma manifestação contra a conversão de Passos Coelho ao socialismo? Não deveria essa direita exigir que ele se acolhesse numa instituição privada ou iniciasse um negócio e, assim, mostrasse a sua veia de empreendedor?

O que se passa é que os princípios valem zero em Portugal. A única coisa que conta é se ele é dos nossos ou é dos outros. Todo o burburinho e indignação – de uns porque ele vai e de outros porque os do outro lado protestam por ele ir – a que se assiste na esfera pública não passa de uma espécie de Benfica – Sporting (ou de um Benfica – Porto, se acharem melhor) político. Toda a gente de esquerda sabe que Passos Coelho tem experiência política suficiente para transmitir. Toda a gente de direita sabe que o percurso académico de Passos Coelho é medíocre. Não é isso, porém, que está em questão. O que move os dois bandos, mais os comentadores de plantão, é apenas uma coisa: ele é dos nossos ou é dos outros?