quarta-feira, 28 de março de 2018

Seguro de saúde

Marc Chagall, A revolução, 1937

O artigo de David Dinis sobre as alianças à esquerda refere o óbvio. No entanto, aquilo que é óbvio perde muitas vezes o essencial. O texto diz “ O PCP é diferente (do BE): já só espera a oportunidade para saltar para as ruas, que é onde está a alma do comité central — e a razão da sua subsistência.” Não é que o PCP não goste de rua, mas, muito provavelmente, o PCP conseguiria melhores resultados eleitorais se estivesse no governo do que estando apenas na rua. Duvido que o PCP precise para subsistir de estar sempre na oposição, mas o regime democrático, tal como foi desenhado, em 25 de Novembro de 1975, precisa do PCP na oposição. Um PCP na rua, com as suas bandeiras, manifestações e greves, é um seguro de saúde do regime.

O governo de Passos Coelho, por exemplo, deve muito ao PCP. Este canalizou, de forma legal, ordeira e disciplinada, a contestação às tropelias da troika e do governo. Essa contestação não teve nenhum impacto na diminuição das tropelias mas evitou que emergissem formas de contestação erráticas, anarquizantes, imprevisíveis e, por isso mesmo, perigosas. Aquilo que se passou nos anos da troika já se tinha passado anteriormente. Não será tanto o PCP que precisa da rua, embora goste muito dela. São os partidos do regime que precisam do PCP na rua. Quando tudo corre bem, o PCP parece não ter papel algum na democracia, mas quando chega o tempo das vacas magras, o que é recorrente neste país, o regime inteiro precisa do PCP para que as energias negativas sejam canalizadas ordeiramente. Veja-se a confusão que aconteceu em Espanha, França e, sobretudo, Itália com o desaparecimento dos velhos Partidos Comunistas. Perderam o seguro de saúde com as consequências que todos conhecemos.