quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O crescimento do hooliganismo político


Um dos efeitos colaterais do surgimento das redes sociais é o da expansão do hooliganismo político. Jason Brennan, no seu livro Contra a Democracia, classifica em três tipos os cidadãos dos estados democráticos. Uns são hobbits. Não têm interesse pela política, não possuem opiniões políticas fortes e permanentes. Ignoram factos, instituições, processos e a história política da comunidade a que pertencem. São politicamente passivos. A segunda categoria é a dos hooligans. Possuem opiniões políticas fortes e permanentes. Defendem com ardor as suas posições, mas são incapazes de articular argumentos contra posições adversas. A sua relação com as suas crenças políticas e a dos adversários é enviesada. Ignoram ou desprezam toda a pesquisa científica que contrarie as suas opiniões. A última categoria é a dos vulcanos, possuem uma visão científica e crítica da política. Fundam as suas opiniões na evidência empírica. Possuem um interesse marcado pela política, mas olham-na de forma desapaixonada.

Por norma, aqueles que fazem política e a vivem, desde a militância até ao suporte partidário ocasional, inscrevem-se na categoria de hooligans. O que parece passar-se, a partir do crescimento das redes sociais, é que parte dos hobbits se está a deixar atrair para discursos radicais, reproduzindo-os, tornando-se fonte de emissão de opiniões professadas pelos hooligans. A polarização política que as redes sociais têm fomentado ajuda a explicar este crescimento do hooliganismo político. Um caso interessante é a reacção à figura de Greta Thurnberg. Encontra-se não apenas nos jornais tradicionais como nas redes sociais uma campanha de ódio contra a adolescente sueca. Não examinam as suas razões ou o sentido da sua causa para as rebaterem de forma racional, mas lançam uma terrível campanha contra a pessoa. Campanha essa que é partilhada por muita gente que, noutros tempos, seria indiferente ao assunto.

A prática política – e a questão climática tem uma clara dimensão política – nunca foi o reino dos vulcanos. No entanto, as democracias representativas cresceram e consolidaram-se num equilíbrio tenso entre as pulsões dos hooligans políticos e um conjunto de virtudes sociais que implicavam o respeito pelo outro, a ideia de que há limites para aquilo que fazemos e dizemos. São estas virtudes sociais que estão a ser dinamitadas deixando o hooliganismo político sem freios e contrapesos. Com a ajuda das redes sociais, o crescente hooliganismo político está a escavar os alicerces que suportaram as democracias ocidentais, baseadas num reconhecimento tácito dos adversários e numa forma de vida civilizada. Não me parece uma boa notícia.

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