sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Descrições fenomenológicas 61. O mosteiro

Ellsworth Kelly, Shadows Under a Balcony, 1950

No chão desenha-se ainda um caminho de terra batida. A humidade e o frio compactaram-na, tornando-a mais dura sob os pés cautelosos que, por vezes, a pisam. Aqui e ali, descortinam-se pequenas poças. Uma água suja e cansada, quase sólida, onde repousam folhas mortas, pedras, pequenos ramos secos. O resto, porém, está coberto pela brancura irisada da neve, um espelho imaculado que reflecte o mundo. Não há nela pegadas humanas ou de animais, pois uma ordem severa impõe uma disciplina estrita de respeito pela vastidão do manto branco. Um castanheiro antigo retorce-se despido. Sobre os seus ramos amontoam-se flocos que fazem lembrar pequenas aves brancas pousadas na madeira escurecida pelo Inverno. O tronco, em baixo, é rodeado por um banco circular de granito, onde, nas estações mais amenas, não é inabitual encontrar ali alguém sentado, quase sempre em silêncio, evadido da frivolidade das conversas que animam o mundo. A alguns metros da árvore, vindo do tempo da fundação, há um velho fontanário de pedra, de onde sai uma água cristalina e gélida que cai em borbotões na pia circular, para depois se evadir, formando um pequeno regato que se precipita encosta abaixo. Num dos edifícios, o mais recuado, a capela, a neve amontoada da última noite desliza devagar pelas abas negras do telhado e precipita-se no pátio com um ploc-ploc surdo. Sobre o pórtico, uma estátua de um santo enfrenta a invernia com decisão, indiferente aos humores do clima ou aos pássaros que o escolhem como poiso temporário, para ali ganharem energia e se alçarem aos céus. Sob as arcadas do edifício principal, um coro de monjas, ocultas em seus hábitos castanhos com grandes golas brancas, enfrenta o frio e canta. A voz aguda e cristalina penetra na montanha e eleva-se às esferas celestes, entoando um requiem que suspende o tempo e deixa entrever, na luz que se desprende das velas, o sinal de uma eternidade quase palpável que se estende pelo mosteiro e transborda num eco sem fim pelas encostas íngremes e pelas florestes onde dormem os animais selvagens.

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