domingo, 27 de dezembro de 2020

Meditações Taoistas (26)

Miquel Barceló, Chemin de Lumières, 1986

[A via] é o tesouro dos homens bons

E o refúgio dos que não são bons.

 

Lao Tse, Tao Te King, LXII

Um tesouro ou um refúgio? Quem é o que de si mesmo poderá dizer que não precisa de refúgio, pois nele tem império a bondade? O que procura a via busca-a para se resguardar. A vida traz consigo perigos e ameaças constantes, mas ainda maiores são os riscos e prenúncios obscuros que no coração fazem casa e daí podem, sem aviso, como um rio impetuoso sob o efeito da enxurrada, transbordar para o mundo. O que entra no jardim onde os caminhos se bifurcam e, a cada instante, se vê obrigado a escolher a rota, esse fá-lo como refugiado, aquele para quem o seu tribunal íntimo decretou o exílio. Perdeu a pátria do hábito e deixou as paisagens familiares onde conduzia, entre esperanças e sobressaltos, a vida, sem que desta encontrasse sentido que lhe matasse a terrível sede e finalidade que saciasse a grande fome que o consumia.

A via é o refúgio dos desabrigados, pois é um abrigo exposto ao devir, ao puro acontecer que nasce de cada passo com que o viandante se adentra na vereda. Um caminho não é mais que um caminho, nele não há princípio nem fim, não liga um lugar de onde se parte a outro onde se chega. Aquele que caminha já caminhava antes de encontrar a via, e dentro dela não descobre para onde se dirigir, pois ela não leva a não ser ao sítio onde se está. Não há nem ali nem acolá para o refugiado que, de pés nus, escolhe sem escolher a senda que cada bifurcação lhe propõe. Fá-lo sem pensar, embora nunca deixe de pensar. Fá-lo sem querer, mas nunca a vontade o abandona. Fá-lo sem sentir, todavia o sentimento está presente em si. O refugiado amadurece ao caminhar e a sua falta de bondade é a dádiva que entrega ao espírito que o conduz a cada passo.

Um dia, sem que disse tenha consciência, descobre que, apesar de desabrigado e sujeito à intempérie, o refúgio é um tesouro e que, onde quer que esteja, não há outra riqueza senão essa, a de seguir intrépido a via que, subitamente, se lhe abre, enquanto esquece os hábitos e perde as paisagens familiares. Desaprende, sílaba a sílaba, a língua que herdou para que, a cada passo, invente uma nova e mais precisa para dizer o mundo aqui e agora. Não há homens bons a não ser aqueles que, temerosos da sua maldade, se refugiam nessa via sem destino, nesse caminho que leva a lado nenhum. Exilados e pobres, enriquecem subitamente, não porque tenham descoberto um tesouro, mas porque já não sabem distinguir entre a pobreza e a riqueza, entre o tesouro da virtude e o refúgio do vício.

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