Mostrar mensagens com a etiqueta Descrições fenomenológicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Descrições fenomenológicas. Mostrar todas as mensagens

sábado, 10 de dezembro de 2016

Descrições fenomenológicas 13. O café

Lucio Muñoz - Collage rojo (1995)

A meio da sala, uma velha mesa de bilhar, de pano verde surrado sobre uma armação sólida de madeira com incrustações de mármore, deixa correr, ao sabor da arte dos dois jogadores, três bolas, duas brancas e uma vermelha, que se atraem e repelem, enquanto, junto a um dos pés da mesa, um gato, sentado, abre e fecha os olhos ao som das tacadas e das imprecações dos adversários. Numa das mesas ao fundo, um homem dormita, a cabeça sobre o braço pousado no tampo. Ao lado, entre cafés, dois casais conspiram. Falam baixo, pequenos murmúrios atravessados pelo bater das bolas, risos nervosos na densa atmosfera saturada de fumo. Por vezes, elas entreolham-se e sorriem. Uma nuvem de condescendência ergue-se dos sorrisos e, por instantes, paira junto ao tecto para desabar sobre os companheiros. Depois, voltam à conversa sussurrada, deixando o manto conspirativo crescer. Um empregado atravessa a sala, equilibra numa mão a bandeja cheia de cafés, pára junto a uma mesa e distribui as chávenas, com um ar cansado, um rosto de onde se foram apagando, um após outro, todos os sonhos que um dia, há muitos anos, aquecerem a juventude, como uma promessa que nunca haveria de cumprir-se. Do outro lado da sala, está uma mulher só. Na mesa, uma garrafa de sifão com soda. Entre a malha metálica avista-se o vidro e tudo cintila na luz que se derrama dos três candeeiros arte nova que descem do tecto para espalhar um oceano luminoso sobre as nuvens de tabaco. Ela recosta a face, levemente inclinada, sobre a mão e olha para a porta. Um olhar lânguido que repercute, na sua solidão, como um suspiro de alento. O cabelo, apanhado atrás da cabeça, deixa ver as orelhas, sem brincos, e um pescoço fruste que nem o colorido do lenço consegue dar brilho. O nariz afilado, porém, conjuga-se com os belos dedos que, inesperadamente, terminam as mãos. Alguém atento não deixará de se interrogar perante a incongruência nascida do contraste entre beleza das mãos e a rude vulgaridade do pescoço. Os olhos, de um ébano macerado pela volúpia, rasgam o rosto e deixam entrever o ardor de uma alma que vacila entre o desejo dos homens e o abandono do mundo. Os minutos passam e ela olha, perdida, para a porta. Por vezes, leva o copo à boca e sorve lentamente o conteúdo, para depois o pousar ao de leve no mármore da mesa. Os dois casais conspirativos saem em silêncio e o gato, cansado dos jogadores de bilhar, salta para o colo da solitária. A mão afaga, lânguida e voluptuosa, o dorso do animal e este ronrona, enquanto um outro casal entra e senta-se na mesa ao lado. Dois cafés, diz ele para o empregado, e acende um cigarro.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Descrições fenomenológicas 12. A rua

Lucio Muñoz - 27-85 (1985)

A rua era íngreme, a estrada empedrada, ladeada por passeios de terra batida. Ouvia-se o som dos cascos de um cavalo a bater na pedra. O cavaleiro endireitava-se, sem esforço, na sela e conduzia o animal com bonomia. Vestia um fato de montar que a escassa luz da iluminação pública mostrava como se fosse preto. Subia em direcção a uma curva apertada, que, depois de outra tão apertada mas de sentido contrário, levaria ao adro da igreja. A porta lateral desta, guarnecida por um pórtico triangular de granito, estava aberta, deixando coar uma luz amarelada vinda do interior. De ambos os lados, candeeiros de vidro lançavam sobre a noite um clarão breve e hesitante. Um padre de batina e barrete subia a rua, impulsionado pelo arquejo do coração. Às vezes, parava, parecia concentrar-se e reunir todas as forças para continuar. Tossia e murmurava, mas não se distinguia se era uma ladainha ou uma imprecação. Três mulheres, por volta dos quarenta anos, vestidas de negro, iam mais à frente. Conversavam em surdina, como se estivessem já dentro da igreja. Esta era antecedida pela casa paroquial, de janelas gradeadas no rés-do-chão e uma porta estreita por onde entrou o sacerdote. O luar débil era recortado pelo campanário. Dois sinos suspendiam-se ali. Quando o cavaleiro desapareceu na última curva, ouviu-se o bater das dez horas. As mulheres pararam, entreolharam-se. Pareciam hesitar, à última badalada, entraram na igreja. A rua estava agora deserta, tomada de assalto por um vento frio e um cheiro a pedra húmida, que dobravam o coração e o inundavam de uma estranha angústia nascida da súbita solidão. Acabara de chegar à terra distante do passado.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Descrições fenomenológicas 11. O relógio

Pablo Palazuelo - Orto V

A luz da manhã entrava pela janela e desenhava uma fronteira entre o que logo era visível e uma zona sombria que obrigava o olhar a uma longa habituação. Nessa obscuridade pressentiam-se presenças, talvez de objectos, mas isso gerava no espectador um sentimento de incongruência, pois a primeira sensação que se tinha era a de vazio. Onde a luz incidia com mais furor, no centro da divisão, talvez um quarto, havia, no chão, uma gigantesca almofada vermelha, rectangular, do tamanho de uma cama de casal, guarnecida, nos topos, com faixas de pequenas cordões dourados que mal tocavam o soalho. Num dos cantos da almofada, o que mais próximo estava da janela, havia um enorme prato, daqueles que servem para reter a água que se desprende de algum vaso com plantas ornamentais, talvez uma aspidistra, tão em uso nessa época. Estava pejado de pontas de cigarros, papéis rasgados, chamuscados aqui e ali, uma velha esferográfica de plástico transparente, sem carga e sem préstimo, aparas de unhas e, incompreensivelmente, um relógio, misturado com a cinza. Sobre essa almofada gigante, que alguém desatento poderia confundir com um tapete, havia uma outra, minúscula, cor de pérola. Sustentava a cabeça de um homem moreno, de cabelo negro, com um bigode regular sob um nariz pequeno, dirigido para cima, quase feminino. As pernas, vestidas por calças de ganga, presas por um cinto castanho de cabedal, e os pés, com botas de carneira, estendiam-se sobre a almofada gigantesca. O tronco estava despido. Um relógio de mostrador negro, idêntico ao que jazia entre cinzas e pontas de cigarros, ornamentava o pulso do braço direito, que, como o esquerdo, se estendia inerte pelo chão. A luz da manhã, uma luz fria, mas intensa, desenhava um auréola naquele corpo. Do canto esquerdo da boca, corria um fio de sangue, encontrava o caminho entre a barba por fazer há vários dias, escorregava, deixando um mancha viscosa de encarnado no pérola da almofada, e fundia-se no mar vermelho do que era, naquele instante, um leito de morte. Uma porta aberta deixava pressentir uma ausência ou a sombra de uma solidão. Olhava-se para o homem, mas, de imediato, o olhar fugia, talvez assustado pela morte, saltitava pelas paredes vazias, vagueava entre a luz da janela e a obscuridade que se adivinhava para além da porta do quarto, para se prender, como que enfeitiçado, no relógio perdido no cinzeiro improvisado. 

sábado, 19 de novembro de 2016

Descrições fenomenológicas 10. Um vulto

Esteban Vicente - Ao longe (1970)

Um pequeno bosque de cedros e ciprestes ergue-se mesmo em frente. Inclinadas pelo vento, as árvores oferecem-se aos olhos numa profusão de verdes que um espectador incauto nunca sonharia. Se o vento sopra, elas, em uníssono, inclinam-se, resguardando-se da fúria. Quando o vendaval pára, erguem-se majestosas, apontam para o céu, e nunca deixam perceber se o acusam do mal ou se o louvam como destino da sua caminhada. Vejo-as agora sob uma chuva miúda. A água escorrega por elas e empapa a terra castanha. Aqui e ali despontam pequenas poças. Alguém atravessa o bosque. Vai apressado, fustigado pela chuva. Logo desaparece e tudo volta à solidão. Um pássaro poisa no cimo de um cipreste. Estremece, levanta voo e perde-se no horizonte cinzento. Por baixo das copas, divisam-se, para lá das árvores, carros a passar lentamente. Vejo-lhes as cores, branco, vermelho, preto, alguns cinzentos, mas estão demasiado longe para que lhes oiça o roncar dos motores. São carros fantasmas perdidos num outro mundo. Uma brisa suave levantou-se agora mesmo e os cedros cedem já à tentação de ondular, enquanto os ciprestes se mantém hirtos, presos a um orgulho despropositado. Ouve-se um grito. Parece crescer de intensidade, mas de súbito cessa. Silêncio. Um carro parou para além do bosque. Uma mulher sai da viatura, põe os pés na terra castanha e vagueia entre árvores. Não tem chapéu de chuva. O carro desapareceu. Ela caminha à deriva, parece cambalear. Um cedro de copa alta serve-lhe agora de abrigo. Senta-se, encostada ao tronco. Flecte as pernas e envolve os joelhos com os braços enlaçados. Sobre eles poisa a cabeça. O cabelo cai-lhe e tapa as pernas. Quase posso ver-lhe a nuca. A chuva persiste e ela ali parada, silenciosa, encharcada. Um vulto perdido na cor parda do dia, uma sombra à espera do anoitecer.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Descrições fenomenológicas 9. A espera

Markus Luepertz - 1840 (1999)

A primeira casa, talvez a mais degradada, tinha tido, noutros tempos, cor de púrpura. Agora, um rosa desmaiado suporta os efeitos do tempo transformados em cor. Brancos, azuis, laranjas, amarelos, verdes e castanhos crescem como ervas daninhas pelas paredes. Conseguem distrair os olhos das manchas de humidades, encerrando-os num tumulto colorido que lembra o expressionismo de certas pinturas abstractas. Acede-se à porta de entrada por quatro degraus de cimento, paralelos à porta, sem qualquer protecção, que desembocam num minúsculo patamar, ele sim, com pequeno gradeamento de ferro, de onde se pode, subindo ainda um degrau, entrar na casa. A porta não desmerece das paredes. O castanho degrada-se em mil matizes que o conduzem a um bege, que ameaça ser o destino final de toda a porta. Pedaços de tinta seca desprendem-se, encarquilhados, prontos para que uma mão os arranque e jogue por terra. Em cima, ao lado das ombreiras surgem dois números de polícia, em placas brancas, esmaltadas e redondas, onde se lê 19, numa, e 21, noutra. Por cima da porta há um ventilador, quadrado, cuja grelha parece, a cada instante, desfazer-se. No lado esquerdo da porta e do ventilador, uma única janela, protegida por grade de ferro. Assenta sobre uma pequena e pretensiosa colunata. A casa do lado é mais recatada. As paredes brancas são também vítimas da usura do tempo. As manchas de humidades metamorfoseiam o branco em azuis, cinzentos e preto. Recolhida, a moradia tem um pequeno quintal, protegido por um muro gradeado a ferro, que a separa da rua. Para se entrar ali, há que abrir um portão preto composto por perfis de ferro cruzados. Sobe-se quatro degraus de cimento e, caminhando por uma pequena passagem também em cimento, chega-se à casa. O rés-do-chão tem duas janelas a ladear uma porta. Mas são quase invisíveis daqui. O primeiro andar prolonga-se para além do andar inferior e é suportado por duas colunas, formando-se assim uma varanda sombria. O portão está aberto. Um braço cresce da parede e prende-se a um corpo que, desse modo, suporta o seu peso. É uma mulher jovem, de cabelo apanhado no alto da cabeça, formando um carrapito frisado, preso por uma fita avermelhada. O vestido branco contraste com a cor negra da pele. A mulher espera com a mão esquerda na anca, o que permite que o braço desenhe um ângulo agudo. Nos olhos, há uma sombra ansiosa, que ela tenta disfarçar com uma atitude de indiferença. Os lábios tremem. Talvez sussurrem uma canção, ou orem. Talvez praguejem. Ela espera.

sábado, 5 de novembro de 2016

Descrições fenomenológicas 8. A rua

Gerhard Richter - A.B., Kapelle (1995)

Naquele lugar, em dias de invernia rigorosa, o primeiro cartão de visita é a rua coberta de neve. Branca e ainda pura, vela o alcatrão e as grandes lajes de cimento engravilhado que compõem o passeio. Aqui e ali, a brancura não é suficiente para as ocultar, podem-se observar as manchas do chão, algumas negras e outras acastanhadas, que o Inverno não conseguiu, com o rigor das temperaturas e a limpidez das águas, lavar. Erguem-se três moradias, relativamente grandes, com os seus jardinzinhos pequeno-burgueses. Jardins que, mais que um gosto pela natureza ou um sentimento estético, anunciam a contradição do nosso tempo, pois são, como as casas que decoram, ao mesmo tempo o fruto do igualitarismo social reinante e a marca do desejo irreprimível da diferenciação, um pequeno e frívolo exercício para ostentar um toque distinto, dentro de uma comunidade em que a força do direito tornou todos em iguais. As paliçadas, que separam esses jardins privados e o passeio público, bem como as cancelas, que nos recordam, mais que as próprias paliçadas, a diferença entre os dois espaços e a remota possibilidade de a maioria das pessoas passar para o lado de dentro, suportam montículos de neve, em equilíbrio precário, como se assim anunciassem a fragilidade de tudo o que se vê. Também os telhados, de dupla água e telha negra, estão pintados de branco, embora, aqui e ali, se abram manchas escuras, a denunciar o deslizar das neves. Seria uma rua sem mistério, não fora o caso de ser pontuada por plátanos vigorosos, despidos de folhas, com a ramagem, de aparência acusativa, a apontar os dedos hirtos para os céus. Esta tonalidade crispada impregna o homem que, perto da moradia vermelha, está parado, quase em sentido, olhando para cima. Enquanto espera por alguém ou por alguma coisa, funde-se nos ramos dos plátanos e aponta, com o nariz afilado preso a um rosto avermelhado pelo frio, para o céu, como se maldissesse as deliberações dos deuses ou o arbítrio da natureza.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Descrições fenomenológicas 7. Uma carta

Arden Quin - Forme Noire II (1942)

Os olhos negros, toldados por sobrancelhas espessas e não tratadas, têm, à superfície, uma vida mortiça, embora, se observados com atenção, ainda guardem, bem ao fundo, um brilho, talvez o resto de uma esperança. O rosto ovalado, quase inexpressivo, é cortado por um nariz não excessivamente grande, que se abre em duas narinas regulares e bem marcadas. A boca, surpreendentemente, contrasta com a expressão ascética que se observa ao primeiro olhar. Dois lábios, não muito grandes, onde não há sinal de palidez e longas renúncias, entreabrem-se, carnudos e bem recortados, em vermelho vivo, deixando entrever dentes brancos e regulares. A boca, assim aberta, parece, porém, denunciar uma dificuldade de respiração, como se as narinas, apesar da regularidade, fossem incapazes de cumprir a função e assegurar o comércio do ar entre os pulmões e o mundo. Este contraste, entre a sensualidade da boca e a quase imaterialidade do rosto, parece ser decidido pelos cabelos, modestamente penteados, apenas um risco ao meio, fronteira a partir do qual caem para ambos os lados, quase tapando as orelhas, para se esconderem, enlaçados, atrás das costas. O pescoço não é longo e a parte inferior está coberta por uma gola negra que sobe do vestido, também ele negro e destituído de qualquer artifício, quase uma bata. Enquanto o braço esquerdo cai ao longo do corpo, o direito flecte-se e mostra quatro dedos de uma mão delicada, à altura do seio, que segura, com leveza, uma carta, a esperança que brilha no fundo dos olhos, arrastada pelo desejo insinuado na boca.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Descrições fenomenológicas 6. A fonte azul

Frantisek Kupka - Composição em azul (1925)

Duas buganvílias de brácteas cor de malva, de onde espiam pequenas flores brancas matizadas por um amarelo discreto, ladeiam o pequeno lago, crescem em direcção à fonte, sem a ordem trazida pela mão do jardineiro. Vivem em equilíbrio precário, engavinhando-se no murete que retém a água, deixando-se ondular, se sopra o vento, e recolhem-se na vigilância protectora de dois carvalhos, cujas folhas, marcadas já por um acobreado irremediável, anunciam o Outono decidido no seu caminho para o frio dos dias de Inverno. Estas árvores formam um pálio sobre a fonte, como se esta fosse um andor revestido de uma sombra divina. Um pouco mais à frente, divisa-se o descuido de ervas silvestres, que disputam ente si o espaço do velho jardim. Ao longe, a floresta cresce imperturbada pela decadência do antigo paraíso. Um oceano de carvalhos antigos, pontuado, aqui e ali, por clareiras medianas, onde podemos ver, entre a azáfama de enormes formigas, a decomposição das folhas, a sua lenta metamorfose em húmus, que há-de vivificar a terra, num ciclo infinito de vida e morte. A luz fria do dia tinge as árvores de um verde pálido e cai azul na água do lago. Um pássaro, de penas castanhas, talvez um pardal, poisa e bebe, com rápidos movimentos do pescoço, a água fria e parada da fonte. Um ruído ao longe, a ave levanta voo e perde-se no céu azul reflectido no anil da fonte. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Descrições fenomenológicas 5. O pântano

Romeo Mancini - Antibes (1950)

Assediada pela luz do crepúsculo, a noite desliza e entrega-se, inquieta, no alvoroço da aurora. Ouve-se o coaxar das rãs, um concerto romântico a fender a primeira luz do dia, pontuado pelo som aveludado e grave de um barítono sombrio, perdido naquele fim de mundo. Os choupos despidos pelo Inverno são fantasmas descarnados. Erguem-se como sombras esguias, numa ânsia de tocar o céu, arrepanhá-lo com os ramos finos, para prender, por um instante, as estrelas que se desvanecem no oceano de luz que se aproxima. Os pinheiros, aqueles que se misturam com os choupos, escondem ainda a sua cor, lembram desenhos de criança recortados do papel e colados na paisagem. Os outros, escondidos numa segunda linha, um exército secreto e ameaçador, são uma massa negra, onde a noite ainda demora, renitente, quase lacrimosa pela partida. Em metamorfose constante, maculado pelo combate entre a luz e as trevas, o céu cinde-se em mil cores. Tudo se desdobra, porém, na frieza vítrea e imóvel do pântano, como se a inverosimilhança deste lugar se desfizesse pelo exercício da duplicação, que o reflexo nas águas sempre oferece aos olhos atónitos do viajante matinal.

domingo, 16 de outubro de 2016

Descrições fenomenológicas 4. O canal

Eduardo Gruber - ¿S/T? (1999)

As águas do canal, na sua limpidez, devolvem a imagem de casas e arbustos erguidos na margem. Um mundo duplicado, cheio de cores, sombras e luz. Dois barcos flutuam, presos a terra, à espera de alguém que os faça deslizar sobre as águas. Na margem direita, uma primeira casa, talvez um depósito, exulta no laranja e ocre e quase nos faz esquecer a ausência de janelas, como se ali fosse um lugar de clausura, onde só alguém devidamente autorizado pudesse entrar. Logo a seguir, um prédio de cores carcomidas pelo passar do tempo, de três andares, com pequenas janelas fechadas. Mais à frente uma nova casa, pintada de branco e com porta azul. Sobre esta, uma pequena janela circular, quase um olho, denuncia um sótão. Entre ambas as habitações, crescem arbustos, bem cuidados, onde a luz se matiza em diversas gamas de verde, um catálogo da natureza que se oferece aos olhos do viajante. Na margem direita, um renque de arbustos amarelos antecede novas habitações, uma casa semicoberta por árvores e um prédio, de múltiplos andares, pintado de branco, com porta, varandas e janelas azul de Prússia. Por detrás, germinam os campos recortados por figuras geométricas perfeitas, campos com pastos a crescer para a fome dos rebanhos. Hão-de vir das grandes casas perdidas do convívio da aldeia, casas de paredes soturnas envolvidas por um halo de solidão, pelo cansaço que os campos sempre deixam naqueles que os habitam. Ao longe, as montanhas olham benevolentes a paisagem e estendem sobre ela o manto protector da sua sombra, enquanto no canal, a água desliza na transparência levando consigo o reflexo das margens, o retrato fluido da aldeia.

domingo, 9 de outubro de 2016

Descrições fenomenológicas 3. A avenida

Juán José Vera - Azul (1982)

Tenso, o braço desloca-se quase na horizontal e volta ao ponto de partida. Ouvem-se ruídos de um pequeno motor, mas logo desaparecem. O homem, vestido de fato-macaco verde, com um nome de empresa indecifrável estampado no peito, puxa uma corrente.  Insiste, uma e outra vez, até que o corta-relvas ribomba num dos relvados entre prédios, para se tornar um contínuo monótono de pequenas explosões. A paz da avenida é quebrada, o dia inaugurado, trazido da obscuridade da noite para a corveia do dia. A manhã cresceu e os raios de sol batem nas árvores, despertando os homens para os afazeres que os dobram para terra, curvados ao peso do dever. Um carro, cor de cinza, pára lentamente. A porta do lado direito abre-se, uma rapariga, talvez nos seus quinze anos, de mochila na mão, logo a põe às costas, sai e dirige-se, vergada ao peso, batida pelo vento, para a entrada da escola. O Sol ilumina as copas das árvores e, olhadas de cima, as folhas mostram já manchas de cobre a anunciar o vigor do Outono. Em breve a calçada estará juncada desses restos de vida tomados pelo cansaço, seduzidos pela gravidade, numa girândola de cores quentes, como se prenunciassem o Inverno a vir. Da porta de um dos cafés, sai uma mulher, os passos firmes sobre uns saltos que lhe diminuem a pequenez, a enchem de confiança, a confiança com que empunha o comando e faz deflagrar o ruído do fecho central do carro e o súbito acender dos quatro piscas, que logo se desvanecem. Abre a porta e senta-se ao volante, sem cuidar que a saia lhe sobe pernas acima e as entregue à devassa de um transeunte, de fato escuro e coçado, que aceita, cobiçoso, a dádiva, com um olhar sonhador e implorativo. Ouve-se o zumbir do motor, o carro recua do estacionamento, entra na estrada, perde-se numa rotunda, vai-se dos olhos do homem, onde, por instantes, tinha dançado a esperança de sentir as mãos no oceano de uma pele oferecida ao império do desejo. Um pombo desliza, bate as asas, esconde-se na sombra de uma nuvem. Lá em baixo, rapazes e raparigas afadigam-se para dentro da escola, curvados ao peso dos livros, gesticulam, falam alto, enchem a manhã de palavras obscenas e risos estridentes. Quando a campainha toca, uma folha desprende-se do ramo e cai hesitante, batida pelo vento agreste, na pedra dura e gasta da calçada. 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Descrições fenomenológicas 2. A viúva

Gerardo Rueda - Alcalá (1960)

Negro, o véu cai-lhe sobre os ombros nus. O vestido, também preto, bordejado a branco no decote, acentua a tristeza que lhe escorre dos olhos, tão escuros quanto a noite, e inunda o rosto, marcado por um nariz afilado, cortante, que encima, quase ameaçador, a boca. O lábio superior fino, a lembrar longas asceses, contrasta com a generosidade do inferior, tocado por um leve ensejo de ser beijado, de se entregar ardoroso a outros lábios. Esta diferença labial, tão comum, deixa antever o conflito, entre a frieza meditativa e o ardor vital que se esconde na alma. O rosto, apesar da tristeza lutuosa que aparenta, não o consegue disfarçar. Os seios não são generosos. Pelo contrário, o vestido deixa percebê-los contidos, um novo disfarce, também comum em tantas mulheres. A melancolia da sua imagem faz adivinhar um exercício contínuo para limitar uma sensualidade secreta que, encontrando quem a saiba detonar, se torna, apesar de silenciosa, transbordante. A mão direita repousa sobre o ventre; a esquerda, pousada nas costas de uma cadeira, segura um lenço branco. Negro e branco. E tudo nela é contraste, conflito, contradição. Leva o lenço ao rosto, enxuga uma lágrima irreprimida, dá uns passos em frente e sai, batendo a porta com indisfarçado descuido.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Descrições fenomenológicas 1. A praça

Zao Wou-Ki - 1-3-60

Uma perna fixa no chão, outra erguida e, num impulso, as pernas trocam de posição e o rapaz afasta-se a correr, no seu fato de domingo, calções curtos, meias até ao joelhos, sapatos flexíveis, boné de adolescente. Afasta-se da multidão que chega. Homens e mulheres juntam-se ali, em pequenos grupos que se fazem e desfazem ao sabor das conversas. Pisam a gravilha, que se ouve ranger sob o peso dos corpos, a impaciência dos gestos, o cansaço de domingo. Da praça, abre-se para norte, uma rua de casas negras, de vidraças obscuras, toldadas pelo luto. Anunciam solidões sem fim. Nas janelas entreabertas não se vê vivalma, apenas cortinados levemente entreabertos, de onde ninguém espreitará. A casa é o lugar da solidão. E de lá fogem todos os que desaguam no rossio, onde a conversa parece não ter fim. Não se vê uma árvore. Um pouco acima, as chaminés vomitam o fumo sombrio que se desprende das entranhas das grandes fábricas. Nuvens caprichosas formam-se sobre a cidade, negras, tocadas pelo vento, máscaras com que o céu azul se oculta. Rodopiam e, lentamente, descem sobre os ombros de quem ali conversa, são como um véu de morte nos braços da manhã.