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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Pôr de lado o medo, banir a lamentação

J.S. Bach - Christmas Oratorio BWV 248

Set aside fear, banish lamentation... (do Oratório de Natal, de J. S. Bach)

Não farão de novo pleno sentido estas palavras? Não chegou o tempo de os homens tornarem a pôr de lado o medo (o texto alemão diz a hesitação), de banir a lamentação? Não é na noite mais escura que mais viva brilhará a luz? Sim, o Natal também traz consigo a ideia de libertação, a ideia de emancipação. Fundamentalmente, traz a ideia de que é possível libertarmo-nos das ilusões que nos amarram à insignificância e ao medo. Muitas vezes, presos às leituras eruditas da história, pensamos que a ideia de emancipação nasce com o Iluminismo e a sua vertente irreligiosa. Mas o que é a figura de Cristo senão a imagem do homem emancipado das suas ilusões e da prisão a que, voluntariamente, se sujeita? Um bom Natal.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A certificação de Narciso

Francis Bacon - Auto-retrato (1971)


Selfie foi eleita a palavra inglesa do ano, devido ao crescimento exponencial do seu uso na internet. O Público, no título da notícia, diz que é uma nova forma de nos vermos. Será. A fotografia virtual é a água do Narciso actual. Mas isto não é tudo. Narciso, o do mito, definha preso à paixão pela sua própria imagem. Não pensa partilhá-la, tão certo estava da beleza que via e amava. O Narciso contemporâneo, porém, vive angustiado e atormentado pelo que vê quando se contempla. Precisa de partilhar a imagem para se certificar. Para se certificar de quê? Da sua beleza, claro. Dessa beleza que suscita likes e comentários nas redes sociais. Mas esse é apenas o aspecto superficial do exercício. O Narciso precisa de se certificar, perante o sentimento de vazio que o habita, da sua própria existência, de que é alguma coisa. Selfie não é apenas um exercício onde se manifesta a selfishness, o egoísmo, é, antes de mais, um ritual mágico para aplacar as dúvidas sobre a realidade da própria existência. Se selfie é uma manifestação da selfishness, ela é mais que tudo o sintoma da nothingness, da insignificância, da vida do homem contemporâneo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Palhaços e acrobatas

Christian Bérard - Clowns and Acrobat

O que torna fascinantes estas figuras - palhaços e acrobatas - não é a sua função crítica. Eles não são, nos dias que correm, figuras da crítica social, agentes que desconstroem as personagens sociais, a imagem pública do risível e do desequilibrado que existe em todos nós. O fascínio - e ao mesmo tempo a perda de aura que os atinge - está todo em eles serem um espelho fiel daquilo que somos. Num palhaço ou num acrobata não se vê aquilo que todos queremos esconder. O palhaço e o acrobata não são outra coisa senão o retrato realista do homem moderno, desse homem que reduziu a vida a um conjunto de ridículas acrobacias.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Cenas circenses

Carlos Saenz de Tejada - Escena Circense (1924)

Uma das definições de circo, dadas pelo velho, mas mui nobre, dicionário da Porto Editora, reza assim: espectáculo de acrobacias, habilidades executadas por animais domesticados, cenas burlescas. Nunca uma definição foi tão apropriada ao que se passa no nosso país. Acrobacias, habilidades e cenas burlescas. Nada se faz segundo princípios nem por convicção. Tudo acontece, seja onde quer que seja, porque há uns habilidosos que não hesitam em fazer umas acrobacias e, se ninguém se comove com o desempenho, passam para o burlesco. Enquanto as pessoas se distraem na risota, eles espetam-lhe, literalmente, a faca nas costas.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

De abismo em abismo

Alfons Mucha - O abismo (1897-99)

A situação abissal a que se chegou terá, por certo, múltiplas e pertinentes explicações. A inveja galopante, o peso da mediocridade e, fundamentalmente, a mais completa ausência de rigor e exigência no que se faz, tudo isso, contudo, escavou o buraco negro onde estamos.  A complacência tem um preço e o preço não é apenas a vitória dos medíocres, é também a dolorosa via crucis que é o caminho que nos cabe no momento actual. O que mais temo, porém, é que nada aprendamos com tudo pelo que estamos a passar, que o nosso destino, enquanto povo, seja o de mergulhar de abismo em abismo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O tempo da corrosão

Sam Francis - Rectângulo Negro (1953)

O que há de mais negro nestes tempos não é a crise ou o aumento exponencial da pobreza e do desespero. O mais negro está no carácter vil de muitos que, agora que parece ter chegado o seu tempo, não hesitam em mostrá-lo. Vivemos tempos propícios para homens de mau carácter, homens que poluem a sociedade e, pela sua acção deletéria, acabam por corroer o carácter daqueles que são mais frágeis. Este é o tempo da corrosão.

domingo, 20 de outubro de 2013

Sombra, sombria sombra


Toda esta agitação com que somos envolvidos, o desespero de uns e o triunfo de outros, a banalidade infinita que escorre da vida social, o linguarejar impudente dessa gente que não se cala, a avidez de uns e a inveja dos outros, tudo isso não passa de um jogo de sombras. Um jogo por vezes doloroso, outras divertido e irónico, mas um jogo onde apenas sombras se movem, sombras que têm a consistência de uma sombra. Vivemos tempos sombrios, não porque uma crise nos bateu à porta, mas porque o homem se tornou numa mera sombra. Um sombria sombra, eis a humanidade.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O fascínio da perdição

Gustav Klimt - Tragedy (1897)

O prazer proporcionado pela tragédia grega, segundo a leitura de Nietzsche, residia não apenas na grandeza do herói, uma encarnação do deus Diónisos, mas, apesar dessa grandeza, da perdição que o esperava devido ao próprio caminho que, vitorioso, ia traçando. Era na senda exuberante para a perdição que a vida se celebrava na sua completude. Há, porém, um outro prazer mais sublime e mais perigoso, porque menos exterior. É o prazer que resulta da contemplação da aproximação de algo que vai provocar a nossa própria perda. Uma conjuntura perigosa aproxima-se de nós, e nós, impotentes, olhamos fascinados - na verdade, contemplamos em êxtase - a mecânica daquilo que nos vai esmagar, a afirmação de uma potência que não é possível enfrentar e, muito menos, derrotar. Quantas vezes, na minha vida professor, já vi situações destas? O interessante destas situações é a profunda solidão daquele que vê a catástrofe aproximar-se, enquanto todos os outros se entregam, ingénuos e descuidados, à realização daquilo que os há-de - ou que nos há-de - perder.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A dinâmica da decomposição

Umberto Boccioni - Decomposição dinâmica (1913)

Não é a decomposição que surpreende. Todos os sistemas, vivos ou não, acabam por se decompor e desaparecer. Nem sequer o mau cheiro exalado é motivo para espanto. O que espanta e dá que pensar é o dinamismo do processo, a velocidade com que tudo ocorre, como se uma força cega e surda se tivesse apoderado do modo de vida que foi o nosso e decidisse precipitá-lo para o negro abismo do passado.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A minha queda de Contantinopla

The Siege of Constantinople (1499)

Ontem, a Ivone, parafraseando Álvaro Mutis, escrevia que o último acontecimento político a comovê-la tinha sido a queda de Constantinopla, em 1453. Não é que a queda de Constantinopla não me comova ainda hoje. Comove e acho que foi uma safadeza do destino o bizantino fim do Império Romano do Oriente. O texto da Ivone, porém, está a ser citado não por causa do destino do cristianismo ortodoxo, mas porque me confrontou, sem que ela o suspeitasse, com o interesse que eu dedico aos acontecimentos políticos, os quais, na verdade, não me comovem nem me movem. Mas interessam-me. É este interesse que é para mim motivo de espanto. Umas páginas de Maquiavel e a essência da coisa fica detalhadamente explicada. Páginas essas que os políticos até hoje se encarregaram de nunca desmentir. Não há novidade política que mova a curiosidade nem acontecimento que introduza uma revolução na teoria. Tudo é muito repetitivo e, na verdade, cansativo.

O que me interessa na política é aquilo que me aborrece nela. Não consigo imaginar-me exultante pelo partido do senhor Seguro ter ganho 150 câmaras, ou pelo desconforto do senhor Passos Coelho ao ver a deserção dos votantes, ou pela reconquista das câmaras de Évora e de Beja pela CDU, ou pela miserável votação nacional do BE ou do CDS. Daqui a quatro anos tudo será ao contrário, mais coisa menos coisa. A questão é mesmo outra. Eu estou descansado em casa. Oiço música, leio uns livros, escrevo no blogue. Vou à escola, dou aulas, tento fingir que a moral kantiana é a coisa que mais interessa a crianças de 15 anos e que a vexata quaestio do conhecimento começar pelos sentidos ou pela razão deixa - imagine-se - os adolescentes de 16 anos completamente siderados. Depois,  reúno-me com os meus colegas para, debalde, salvar a educação, e volto a casa. Enfim, trato da vidinha como qualquer outra pessoa. O que me aborrece na política é que ela vem ter comigo e tira-me do sossego privado, faz-me patifarias, abate-se sobre mim como um acidente de automóvel ou um desastre natural. Interfere na minha vidinha, sem me pedir autorização, e mostra-me aquilo que eu sou. E aquilo que eu sou, segundo a política que cai sobre mim, é nada. Talvez o que me interessa na política seja a minha própria impotência perante os acontecimentos que ela move, e a forma como ela me remove de onde estou. Há quem pense que dela, da política, pode vir a salvação. Não pode. Ou, pelo menos, eu não acredito. O meu interesse pela política é a de um olhar fascinado pela própria perdição. Na verdade, é como se eu visse retratada na minha queda a queda de Constantinopla.

sábado, 28 de setembro de 2013

Fim da anestesia

Gerardo Rueda - Espera III (1975)

Dias como o de hoje dão-me sono. Esta espera, alimentada ainda por um calor vagamente outonal, inclina-me a vontade para o chão e a boca para o bocejo. Chegamos a um tempo em que desapareceu qualquer ligação entre a espera e a esperança. Não se imagine que a espera de que falo seja a espera pelos resultados eleitorais de amanhã. Não é. Para as eleições de amanhã estou no meu dia de reflexão. 

[Interlúdio] Tenho meditado muito sobre as eleições. Descobri que a lei está mal feita. Está invertida a relação entre o período de campanha e dia de reflexão. Dava-se um dia para os candidatos exporem os seus pontos de vista, fazerem arruadas, comícios, cortejos, colarem cartazes, distribuírem panfletos, programas, isqueiros e caixas de fósforos. Seriam permitidas até procissões, mesmo, ou fundamentalmente, as de carácter dionisíaco. À meia-noite do dia único - por ser o único dia - terminava a campanha eleitoral. A massa dos eleitores entrava então em, por exemplo, dez dias de meditação transcendental, reflexão metafísica e análise crítica das propostas. Ao fim de dez dias, votava-se. [Fim do interlúdio]

Mas, como dizia, a espera que desespera não é a que visa o dia de amanhã. É, como muito bem salientou José Pacheco Pereira, no Público de hoje, a espera por depois de amanhã, depois dos votos contados, dos eleitos sentados nos lugares, e dos cartazes descolados. As aleivosias que se preparam, sorrateiramente, entre palavras mansas e gestos dúbios. A anestesia a que fomos sujeitos nos últimos tempos perde o efeito depois de domingo à noite. Esta é a espera pelo que está para vir, é a espera sem esperança. Os sacerdotes de depois da amanhã são maus e os profetas não auguram nada de bom. E o que está para vir, quando a anestesia passar, é bem pior do que aquilo que já veio.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Naufrágio

William Turner - Naufrágio (1805)

Há dias em que tudo se desvanece. Nessas horas, porém, uma súbita luz ilumina o mundo e mostra - num rápido vislumbre - o naufrágio onde estamos todos. O Captain! my Captain! our fearful trip is done... Estranha invocação esta. Há muito que navegamos sem comandante e a medonha viagem ainda não está acabada. Não sei se são ratos os que agora abandonam o navio. Sei apenas que o naufrágio já começou e não há salva-vidas que nos acolha. Este é o preço a pagar por entregar o destino nas mãos de outro. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A ruína. Conto de edificação e moralidade

Lluis Rigalt - Ruínas (1865)

Primeiro, foram apenas uns grãos de areia que se soltaram aqui e ali. Quase sem se dar por isso, a caliça começou a cair das paredes. Houve quem desconfiasse, mas o mestre-de-obras da altura, sorriu e disse, tranquilizador, que não havia problema. Era mesmo assim. Era preciso que a caliça fosse caindo. Uma espécie de prevenção, acrescentou. Bastava retocar e repintar, a solidez do edifício era inquestionável. Quando as paredes abriram as primeiras frestas, houve discordância de vozes. Os que não gostavam do edifício, sem coragem até ao momento, sentiram que começara a chegar a sua hora. Chamaram arquitectos amigos e sugeriram a necessidade de o derrubar. Aquele espaço seria ocupado de forma mais competitiva por outra coisa e outras gentes. Sem que se tornasse visível, estas vozes, por um estranho malabarismo desconhecido da física, emitiam ondas sonoras em certos comprimentos que afectavam os alicerces do edifício. Pensaram que seria difícil derrubar a casa se ela se mantivesse com uma aparência sólida. Muita gente se abrigava nela. O vozear, sempre naquele estranho comprimento de onda, não mais parou. Quando as primeiras telhas caíram, os que não gostavam do edifício sorriram, enquanto alguns moradores, poucos entre os muitos que havia, tiveram o primeiro vislumbre do destino. Falaram alto, mas riram-se deles. No dia que caíram duas varandas, os moradores entraram em pânico. A intervenção dos bombeiros não foi, longe disso, apaziguadora. A medo, disseram que talvez fosse altura de evacuar o edifício. Para onde vamos, onde poderemos ter um abrigo? Foi a interrogação dos moradores. Os que não gostavam do edifício, sorriram. O novo tempo tinha chegado.