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sábado, 10 de novembro de 2018

Joaquim Paço d'Arcos


Foi só agora que cheguei à leitura de Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979). Não fazia parte daquele grupo de escritores tidos por referência, apesar de ter sido bastante lido nos anos 40 e 50 do século passado. Visto como próximo do Estado Novo, no qual foi, entre 1936 e 1960, chefe dos Serviços de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, isso não terá ajudado, numa época em que grande parte dos escritores mais importantes estavam do lado da oposição, a que o seu nome persistisse na memória. Também o seu opúsculo A Dolorosa Razão duma Atitude (1965), onde se demarca da Sociedade Portuguesa de Escritores, da qual era Presidente da Assembleia Geral, quando esta atribui o prémio de Novelística a Luandino Vieira (preso político acusado de terrorismo), terá contribuído para o seu relativo apagamento no panorama literário nacional.

Esta rasura do autor, porém, parece-me claramente injustificada. O ciclo romanesco Crónica da Vida Lisboeta, composto por seis romances (Ana Paula, Ansiedade, O Caminho da Culpa, Tons Verde em Fundo Escuro, Espelho de Três Faces e A Corça Prisioneira), é uma obra de grande fôlego e cuja leitura é essencial para perceber o país entre os finais dos anos 30 e meados dos anos 50. Do ponto de vista literário, a leitura ordenada do ciclo mostra que o escritor vai crescendo de um romance para o outro. Os enredos vão-se tornando mais complexos, as personagens mais ricas e a análise psicológica e social mais subtil. A própria linguagem, que no primeiro romance soa como levemente anacrónica, talvez ainda presa aos costumes da época, sofre uma evolução modernizadora no decurso dos outro romances.

A sociedade lisboeta retratada é a da aristocracia, em fase de decadência, e a da alta burguesia financeira, tendo como pano de fundo o regime do Estado Novo. O retrato destas classes é impiedoso. Um mundo de interesses, de traições, de patetas emproados e videirinhos impiedosos e loquazes. O retrato irónico das classes altas não pode deixar de contaminar o próprio regime, com o seu provincianismo. Ao mesmo tempo, percebe-se, através destes romances, a acção das oposições, tanto dos reviralhistas republicanos, como dos monárquicos saudosos do Rei e, acima de todos, do próprio Partido Comunista. Sobre todos este figurantes do drama nacional daqueles tempos abate-se um olhar penetrante e irónico, uma visão crítica e, surpreendentemente, descomprometida e livre. A leitura destes romances de Paço d’Arcos é fundamental para compreender uma certa Lisboa – e um certo Portugal – de que o país actual, muito mais do que pensamos, é herdeiro e continuador.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O desejo da barbárie


Vive-se, em Portugal, uma doce ilusão, a de que ainda não fomos tocados pelo vírus do populismo. É um facto que os principais agentes políticos têm evitado recorrer ao mais sombrio populismo político. No entanto, na sociedade desenha-se um desejo mal disfarçado de soluções populistas. O que caracteriza essa ânsia é a contestação de muitos dos progresso civilizacionais. Um caso sintomático foi o da fotografia publicada, após captura, dos três foragidos de um tribunal. O ministro Eduardo Cabrita reagiu, afirmando que aquele tipo de fotografias era inaceitável por parte da polícia de um Estado de direito. As reacções de sindicatos e organizações para-sindicais, assim como de muita gente nas redes sociais não se fez esperar, com ataques ao ministro, montagem de imagens falsas e todo o arsenal de indignações mais ou menos alarves.

O que Eduardo Cabrita – e também Marcelo Rebelo de Sousa – fez foi defender a vida civilizada e as regras segundo as quais esta se deve orientar. Regras essenciais da vida civilizada são as que desligam a Justiça da vingança ou as que não eliminam os direitos dos criminosos. Estas regras, cada vez que existe um crime mais dramático, são postas em causa por uma multidão ululante, que despreza a vida civilizada e o progresso moral que nos permitiu sair da barbárie. Na verdade, é através da Justiça que o populismo entra nas sociedades, dissemina-se e corrói os alicerces que tornam a vida digna de ser vivida. Mesmo em Portugal, um dos países mais seguros e com uma das taxas de criminalidade das mais baixas do mundo, a pulsão para a barbárie é mais forte do que se pensa.

O desejo da barbárie é alimentado de forma insidiosa por programas de televisão e artigos de jornal justicialistas, por telejornais que, no infausto modelo que é o seu, destroem uma visão racional e civilizada da justiça e da própria vida comunitária, vendo-as como um jogo de vinganças, um prelúdio à guerra de todos contra todos. A corrosão da civilidade e a degradação da vida em comunidade são vírus que vivem já entre nós. Estão apenas à espera de um meio ambiente mais propício para mostrarem as garras. Tudo isto deveria merecer uma profunda e redobrada atenção dos agentes políticos. Só um exercício político iniludivelmente virtuoso e uma preocupação com a eficácia e independência da justiça pode evitar que a virose se transforme numa doença mortal. O que me aflige, hoje em dia, não é sequer que os agentes políticos – do governo e da oposição – não percebam o que se está a desenvolver. O aflitivo é que eles contribuam, com palavras e actos, para propagar a doença.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

The Times They Are A-Changin'


Ouvida nos dias que correm, a canção de Bob Dylan não deixa de parecer uma singular ironia, uma ironia que atinge o cerne das crenças que estão no coração das gerações que fizeram da balada dylaniana um símbolo do caminho para o paraíso. No domingo passado, o candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro, quase obteve a maioria necessária para chegar a presidente do Brasil e impor um programa impensável ainda há meia dúzia de anos. Logo a seguir, na segunda-feira, os chefes da extrema-direita italiana (Matteo Salvini, no governo) e francesa, Marine Le Pen, apelavam a uma revolução nas eleições europeias de Maio, de forma a criar, na Europa, um sólido bloco soberanista.

Quando olhamos para os programas destas forças políticas, para a sua capacidade de atracção dos eleitores, corremos o risco de sermos superficiais e tomarmos como causa aquilo que é meramente instrumental. Por exemplo, o papel que as redes sociais possuem na propagação de mensagens imbecis e de fake news. Não se percebe, ou não se quer perceber, a existência, nos eleitorados, de um grande ressentimento relativamente às elites e, em primeiro lugar, às elites políticas democráticas. Esse ressentimento nasce de uma percepção de abandono partilhada por amplas camadas populares, as quais se sentem ameaçadas e procuram uma autoridade que lhes dê segurança.

Os tempos estão a mudar e estão a mudar porque as forças mais radicais de direita vão ocupando o lugar vago deixado pelos democratas de direita e de esquerda ou, como é o caso do Brasil, onde a corrupção do corpo político é de tal ordem que as pessoas se entregam nos braços do primeiro aventureiro. Aquilo que está a acontecer nas democracias não é um fenómeno que lhes seja estranho. Foi a sua degradação que alimentou o extremismo social e político.

Para celebrar a bondade da democracia, cita-se a frase de Churchill: "A democracia é a pior forma de governo, à excepção de todos os outros já experimentados ao longo da história." Não se percebe, porém, que ela contém um aviso sub-reptício: a democracia é um mau regime, é preciso cuidar dele. A questão que se coloca não é se existe uma força significativa de radicais de direita nas diversas democracias. A questão é de saber se e quando é que essa vaga se torna uma força mecânica que progride por si própria e torna impossível qualquer resistência. Os defensores das democracias liberais parecem sonâmbulos. Esqueceram-se de cuidar do jardim e deslocam-se na paisagem social de olhos fechados. O pior é que, como canta Dylan, The Times They Are A-Changin'.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O papel dos cidadãos

A minha crónica no Jornal Torrejano.

No início do ano lectivo, costumo explicar aos meus alunos de Ciência Política que a política é o lugar do mal. No seguimento da lição de Thomas Hobbes, tento mostrar-lhes que a política existe porque nós não somos moralmente irrepreensíveis e, movidos por interesses egoístas, fazemos mal uns aos outros. Sublinho, também, que a forma como o poder limita e castiga o mal é também ela uma figura do mal. O poder reprime o mal através do mal, a chamada violência legítima. Por fim, saliento que a política, vista como exercício do poder, contém em si uma possibilidade de mal ainda mais terrível que as anteriores. Trata-se da hipótese daqueles que governam o fazerem em proveito próprio, enriquecendo ilicitamente, promovendo os seus amigos, perseguindo os opositores e oprimindo a população em geral.

Refiro-lhes, depois, que apesar da política estar intrinsecamente ligada à existência do mal, o seu exercício é fundamental e nobre. Evitar que o mal se propague, destrua a paz pública e desarticule a comunidade, mesmo que isso seja feito através da violência legítima, é uma tarefa digna e que merece grande louvor. Por fim, chamo a atenção para a aparente contradição que cada um de nós, cidadãos, exibe perante o poder político. Por um lado, queremos que ele seja forte e, por outro, que seja fraco. Queremos que tenha força suficiente para defender a nossa segurança e os nossos direitos, mas, ao mesmo tempo, queremos que não tenha força para nos oprimir ou para usar o poder em proveito de quem o ocupa.

Aquilo que gosto de sublinhar é que não podemos, em democracia, olhar a política sem compreender o papel dos cidadãos na limitação do mal. A estes não cabe apenas respeitar a lei ou participar na vida política como actores políticos. Enquanto cidadãos, têm o dever de olhar para a política de forma a limitar o abuso do poder, restringir as possibilidades dos agentes políticos praticarem o mal ilegítimo. Quanto menos conscientes forem os cidadãos, mais facilmente quem ocupa o poder pode abusar. Quanto mais conscientes os cidadãos, maiores são os limites que impõem a quem os governa. E este é um dos problema da democracia portuguesa. A maioria dos cidadãos ou não se interessa pela política ou é fanática, transformando a política numa deplorável competição futebolística. Enquanto assim for, a nossa democracia será frágil, os governantes pouco respeitarão as populações e o abuso do poder será uma possibilidade real, a que dificilmente se porá travão.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O quarto milagre de Fátima


A minha crónica no Jornal Torrejano.


O começo do ano lectivo é marcado pela generalização de uma nova reforma do sistema educativo. A ideia que está na base de mais uma aventura na educação portuguesa prende-se com a convicção da actual equipa do Ministério da Educação de que o trabalho realizado pelo professorado está globalmente desadequado às exigências do século XXI. Esta é uma crença que depende da fé e não, obviamente e por impossibilidade factual, de nenhuma informação empírica sobre o que será o futuro. Portanto, a reforma faz-se, como sempre, em nome da ideologia. Para além da minha profunda desconfiança com a ideologia educativa que suporta as novas orientações, saliento dois problemas que me parecem fatais.

Em primeiro lugar, a sua preparação. Alterações destas num sistema educativo exigem anos de estudo, planeamento, experimentação, avaliação dos processos e dos seus resultados, antes que se chegue a uma generalização a todo o universo escolar. O que vai entrar em vigor este ano não seguiu nenhum desses trâmites. Não corresponde nem a um estudo nem a um planeamento sólido (é apenas um conjunto de crenças da equipa ministerial). Teve um ano de experimentação – o ano lectivo transacto – em escolas que se voluntariaram, mas, como qualquer pessoas perceberá, um ano não permite qualquer avaliação séria de processos e ainda menos de resultados. Vamos generalizar uma reforma educativa que ninguém sabe se aumenta ou diminui as aprendizagens dos alunos.

O segundo problema diz respeito à exequibilidade material dessa reforma. Em primeiro lugar, ela impõe alterações drásticas na fora de trabalhar com os alunos. Ora isso exige um período relativamente longo de preparação do professorado para que este possa compreender, experimentar e apropriar-se daquilo que o governo pretende. A generalidade dos professores – e não por culpa destes – está a zero (a definição do currículo aconteceu no final de Agosto), sem qualquer tipo de formação. Em segundo lugar, o que se pretende não se compagina com turmas grandes, como continuam a ser, nem com a forma como estão organizados os espaços e os tempos escolares. Só a reforma do número de alunos por turma e a dos espaços escolares implicaria um investimento incomportável para o país.

Em resumo, a educação vai entrar, por iniciativa do governo, num processo que não foi planeado e avaliado seriamente, para o qual os professores não foram preparados e que exige, para que não seja uma catástrofe, recursos humanos, financeiros e de equipamento que não existem nem existirão nos próximos tempos. Talvez os responsáveis políticos acreditem num quarto milagre de Fátima.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O passado e a tradição


Graças a um artigo de António Guerreiro, no Público, descobri dois versos extraordinários do realizador e poeta italiano Pier Paolo Pasolini. Deste, conheço alguns filmes, mas nunca li a sua poesia. Pasolini sempre me pareceu ligado ao que, noutros tempos, se chamava, não sem acrimónia política e social, forças progressistas. Os versos, talvez por eu não conhecer a poesia do autor, vejo-os como surpreendentes: Io sono una forza del passato, /Solo nella tradizione è il mio amore (Eu sou uma força do passado, /Só na tradição reside o meu amor).

Os versos não nos dizem que o passado é uma força, tão pouco indicam que a verdade está na tradição. Sublinham apenas que o sujeito poético é uma força do passado, cujo amor – não o conhecimento ou a acção – reside na tradição. Mais que uma declaração sobre o poder do passado e da tradição, Pasolini revela a fragilidade desse passado – cuja força reside agora num indivíduo, talvez solitário – e a impotência da tradição, convertida em objecto de culto sentimental. Interpretemos estes versos à luz da vida que vivemos. Peguemos em duas instituições com passado e tradição. A Presidência norte-americana e o Papado católico.

Se há instituição que, na época moderna, pode reivindicar um passado de liberdade e democracia é a Presidência dos EUA. Esse facto, no entanto, não impede que um presidente tente, com não pouco apoio popular, fazer tábua rasa desse passado. Alguém pode dizer: eu sou uma força do passado, eu acredito na liberdade e na democracia. A declaração, todavia, não é suficiente para travar a demolição do edifício democrático a que se assiste. Outra pessoa pode proclamar: só na tradição católica do Papado reside o meu sentimento. Este, contudo, é impotente perante o triste espectáculo da pedofilia na Igreja e a guerra sem quartel entre o Papa Francisco e os seus inimigos.

Quando o passado e a tradição se manifestam apenas no sentimento de uma subjectividade, e não na força plena e objectiva das instituições, estão ambos aniquilados, transformados em poeira, sublimados no suspiro poético de um coração saudoso. E é isso que marca, nos dias de hoje, as instituições que herdámos. O seu passado e a tradição que dele vivia, os fundamentos em que assentava a sua vida, estão a transformar-se em pó. As consequências não são difíceis de perceber. A queda das velhas instituições não é apenas a morte do passado e da tradição, mas a derrocada do presente. Somos nós – o nosso modo de vida e as nossas crenças – que desabamos perante o nosso  próprio olhar de espectadores incrédulos.

[A minha crónica no Jornal Torrejano]

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Protectorado


A minha crónica no Jornal Torrejano.

O Verão teve, até agora, dois acontecimentos políticos maiores. O caso Robles e o fogo de Monchique. Maiores para os mass media e para uma certa direita social. Por direita social não me refiro aos partidos políticos de direita, os quais não estiveram particularmente mal em ambos os casos, mas àqueles que se manifestam nas redes sociais, nas caixas de comentários dos jornais online, que surgem como espontâneos nos directos das televisões, isto é, a uma militância informe, mas muito activa, que vive despeitada pelos seus não estarem no governo.

A importância dada ao vereador Robles é extraordinária. Nem no Bloco de Esquerda era personagem de primeiro plano. E cometeu ele um crime? Parece que a única coisa que fez foi tirar partido legal de decisões provenientes do anterior governo e, ao fazê-lo, entrou em contradição com o que andou a apregoar para se eleger. O que é espantoso não é que um vereador do BE tenha um comportamento político venal e entre em contradição. Espantosa é a importância que os mass media e a direita social deram a uma personagem de quinta categoria no panorama da política nacional, que nem sequer cometeu um crime ou prejudicou o Estado.

O caso do incêndio de Monchique chegou ao caricato de se perceber uma ânsia mal disfarçada para que houvesse uma grande tragédia. A partir do que aconteceu no ano passado, há sectores que vêem em cada incêndio que se descontrola uma ocasião para disparar sobre o governo. Quanto mais trágico for um incêndio, melhor. Os governantes vivem numa espécie de terror. Se estão em silêncio, é porque estão em silêncio. Se falam, é porque falam. Digam o que disserem, será sempre montada uma campanha contra eles a partir de palavras descontextualizadas. O problema disto não reside nos ataques a Robles ou ao governo. Está no que esses ataques ocultam.

Há umas semanas escrevi que as esquerdas não tinham um programa para o país. A virulência do ataque a Robles e ao governo, no caso de Monchique, mostra que também a direita não tem uma ideia para Portugal. Os partidos políticos de direita não têm nada para oferecer aos seus eleitores. Parte destes, perante o vazio, vive de casos e de ressentimento. A importância dada a Robles e a Monchique são sinais de que na direita faltam causas substanciais. Na verdade, nem à esquerda nem à direita existe qualquer ideia sólida e mobilizadora. Os que governam tentam não fazer muitos erros, as oposições – actuais ou anteriores – vivem de casos, enquanto as instituições internacionais tomam conta de nós. Foi a isto que Paulo Portas chamou protectorado.

sábado, 28 de julho de 2018

Torto e fora dos eixos

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Tornou-se um lugar comum aproximar duas ideias que emergiram na mesma época, mas em obras literárias diferentes. Em Hamlet, William Shakespeare fazia notar que “O mundo está fora dos eixos. Oh! Sorte maldita! … Por que nasci para colocá-lo em ordem!”. Miguel de Cervantes, em D. Quixote, escrevia, mais ou menos na mesma altura “… é o meu ofício e exercício andar pelo mundo endireitando tortos, e desfazendo agravos”. Tudo isto veio à luz logo no início do século XVII, esse momento inaugural dos tempos modernos. O que está em gestação, nesses dias, é o nascimento e a afirmação do sujeito – podemos dizer mesmo o nascimento da individualidade – e a revolução científica. Primado do indivíduo e conhecimento científico são, ainda hoje, os pilares em que assente o nosso modo de vida.

Aquilo que, visto retrospectivamente, poderia ser compreendido com um momento glorioso da humanidade ocidental talvez tenha sido compreendido, por muitos, de uma forma bastante mais obscura. O mundo está fora dos eixos ou, na versão de Cervantes, está cheio de tortos que é preciso endireitar. Alguma coisa está mal, fora do lugar e precisa de ser colocada onde deve estar, necessita de ser posta nos eixos. Em Hamlet há uma hiper-lucidez que vê, na tarefa de colocar o mundo em ordem, uma maldição. Maldita é a sorte daquele que foi destinado a pôr o mundo nos eixos. Contudo, no Quixote, a dissonância cognitiva, a persistente ilusão, permitem ver o ofício de endireitar o que está torto como uma tarefa gloriosa.

Durante os quatro séculos que entretanto se passaram, nunca o mundo deixou de ser sentido como estando fora dos eixos. Apesar das revoluções científicas, políticas e tecnológicas, apesar de um crescimento exponencial da civilização, do bem estar das populações e da esperança de vida, o mundo continua fora dos eixos e cheio de tortos que será necessário endireitar. O que as frases de Shakespeare e de Cervantes nos ensinam, porém, mata qualquer quimera. Aquele que estiver plenamente consciente de si sabe que pôr o mundo nos eixos não passa de uma maldição insuportável de carregar aos ombros. Só aos loucos lhes é permitido o logro de que têm por destino endireitar o mundo. Esta é uma lição que se adapta demasiado bem aos dias de hoje. Não faltam no mundo loucos que, sob o aplauso da multidão errante, tomam conta do poder crendo ser seu ofício endireitar o que está torto e desfazer agravos. Esta não é, por certo, a melhor receita para combater insónias. Boas férias.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Um concubinato de conveniência


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Desde o início que a actual solução governativa sofre de um pecado mortal. Este reside num governo onde só um dos partidos de esquerda tem assento. Ao escolher o caminho mais fácil, a esquerda resolveu alguns problemas de momento. António Costa evitou o fim da sua carreira política e o Partido Socialista conseguiu não passar pelas humilhações que outros partidos socialistas europeus sofreram. O Bloco de Esquerda alcançou o estatuto de força política respeitável. Veja-se a condecoração póstuma de Miguel Portas, fundador e dirigente do BE. O Partido Comunista, por seu lado, pôde apresentar-se como uma força de construção de soluções governativas e não de mera contestação. Durante mais de dois anos a fragilidade da solução foi disfarçada pelos aparentes sucessos governativos.

Quando nos aproximamos do último orçamento da legislatura, mesmo que haja uma convicção geral de que será aprovado, os problemas saltam aos olhos de toda a gente. Estes problemas pouco têm a ver com as leis laborais, a distribuição do dinheiro no próximo orçamento ou com as reivindicações dos vários corpos da função pública. Tudo isto é apenas um simples reflexo de uma debilidade estrutural existente desde o início desta solução governativa. As esquerdas não têm um projecto político para o país, um projecto ponderado, negociado e partilhado pelos vários partidos. Viveram até agora num concubinato de conveniência meramente circunstancial. De facto, seria muito exigente negociar um governo com todos os parceiros de esquerda, pois isso implicaria duas coisas.

Em primeiro lugar, haveria que olhar seriamente para a realidade do país. A debilidade financeira, a inconsistência da economia, a frágil situação de grande parte dos portugueses (pobres e com pouca autonomia), a dependência perante os parceiros da União Europeia e os chamados mercados financeiros. Em segundo lugar, seria necessário um forte espírito de compromisso, com todas as partes a terem de aceitar não apenas coisas agradáveis mas também aquilo que lhes desagrada. Um governo assim fundado evitaria tudo a que estamos a assistir, desde as aproximações de Costa a Rui Rio até ao retorno do BE e do PCP às políticas de contestação. Teria outra virtude. Asseguraria ao eleitorado que a esquerda possui um projecto credível para o país e não um mero programa de entretenimento enquanto a direita se recompõe para chegar ao poder e executar as suas políticas. Temo, porém, que os partidos de esquerda sejam mais sensíveis às suas conveniências particulares do que aos anseios do eleitorado.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Dias difíceis


A minha crónica no Jornal Torrejano.

A situação política está mais confusa do que parece. Só há um dado claro e inequívoco. Exceptuando os socialistas, todos os actores agem com o objectivo de evitar que o PS obtenha maioria absoluta nas próximas legislativas. CDS e PSD pretendem recuperar terreno e penetrar no centro político. BE e PCP sabem que uma maioria absoluta dos socialistas será obtida à custa dos votos da esquerda. Ainda menos interessado numa maioria de António Costa está Marcelo Rebelo de Sousa. Isso libertaria o governo da actual submissão ao Presidente da República e tiraria a este qualquer possibilidade de influenciar decisivamente a governação do país, como tem feito desde os incêndios do ano passado.

Numa sondagem da Aximage, as intenções de voto no PS caem pelo quarto mês consecutivo. Este declínio – aliado aos conflitos laborais, ao preço dos combustíveis e à memória da tragédia dos incêndios – torna imprevisíveis as negociações do próximo orçamento de Estado. Até há pouco toda a gente estava convicta de que se o BE e o PCP derrubassem o governo socialista teriam pesadas perdas eleitorais. Esta percepção, porém, pode estar a mudar. Neste momento, não é claro que, em eleições antecipadas, os socialistas consigam ir buscar votos à sua esquerda. Devido, principalmente, à acção do Partido Comunista, instala-se a convicção, em parte do eleitorado de esquerda, de que um voto no PS é um voto inútil, caso esse PS não esteja dependente dos partidos à sua esquerda.

Os socialistas pensaram que iriam capitalizar o sucesso político da solução governativa e ficaram presos nesse sucesso. A retórica da saída da austeridade abriu a porta para que no Estado as reivindicações dos vários corpos existentes se tornassem cada vez mais impiedosas. A narrativa do fim da austeridade desfaz-se perante essas exigências e, também, o cansaço da sociedade civil com a carga fiscal. Por outro lado, uma certa arrogância típica dos socialistas está a escavar-lhe as bases de apoio. António Costa, que parecia ter uma vida fácil, tem, a cada dia que passa, a vida mais complicada. Nem os seus adversários políticos, nem os aliados actuais, nem o Presidente da República, nem a população parecem dispostos a estender-lhe um dedo. Pelo contrário. Desde há uns tempos que olho para António Costa e me lembro de Agamémnon, o rei grego que encontrou a morte – isto é, a derrota – no regresso vitorioso de Tróia. Dias difíceis para o PS.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

O governo e os professores

A minha crónica no Jornal Torrejano.

O que terá levado o ministro da Educação a afirmar que, perante a posição dos sindicatos, o governo, que tinha prometido recuperar quase três anos do tempo em que as carreiras dos professores estiveram congeladas, não contará qualquer tempo para a progressão docente? O ministro pode achar que é uma estratégia brilhante para enfrentar os sindicatos, mas não percebeu como ela é humilhante para os professores, que se sentem tratados como crianças que são castigadas por um ministro a quem, na verdade, não reconhecem qualquer autoridade política ou educativa. Como professor, não vou aqui advogar em causa própria. O assunto é complexo e ambas as partes possuem razões que devem ser ponderadas com sensatez e serenidade. O que me interessa é o aspecto político.

O governo, ao optar pela intransigência, acordou de imediato na memória de muitos professores os tempos de Sócrates e de Lurdes Rodrigues. Isto é o pior que pode acontecer para qualquer governo. A maioria absoluta de Sócrates desfez-se com as peripécias de Lurdes Rodrigues. Quando Passos Coelho chegou ao governo, a sua maioria foi conquistada com um apoio inesperado e inusitado dos professores. As pessoas não se lembram já, mas o fim dessa maioria começou num duro conflito entre o ministro Crato e os professores. Estes que tinham dado o seu apoio ao PSD numas eleições retiraram-no nas seguintes. Assim como Sócrates e Lurdes Rodrigues, também Crato e Passos Coelho desapareceram do panorama político. Esse desaparecimento não se deve aos conflitos com os professores, mas foi neles que as maiorias políticas se começaram a desagregar. O conflito com os professores funciona como uma espécie de profecia do fim.

Não compreendo como António Costa não percebe no que se está a meter com este tipo de provocação. Se ele pensa que se vai poder gloriar como uma certa ministra que proclamava que tinha perdido os professores mas ganho a população, então não percebeu nada da realidade. Apesar da redução drástica do número de docentes, o professorado é um corpo profissional enorme e com uma presença capilar na sociedade portuguesa. Um corpo cansado de ser vexado desde 2005, um corpo profissional que, a continuar a ser tratado como o foi pelo actual ministro, não hesitará em contribuir para enviar António Costa para o limbo político onde residem os seus antecessores. Repito, há razões dos dois lados que merecem ser ponderadas, mas tratar os professores como o fez Brandão Rodrigues pode ter um preço político incalculável para António Costa.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Maio de 68 e democracia

A minha crónica no Jornal Torrejano.


Passam este mês 50 anos dos acontecimentos que ficaram conhecidos por Maio de 68, um conjunto de revoltas estudantis que se prolongaram numa onda grevista, sem precedentes, dos operários franceses. Por norma, salienta-se a natureza excepcional desses acontecimentos, onde se aliaram reivindicações libertárias dos estudantes, na área dos comportamentos sociais e sexuais, com as exigências sindicais bem mais prosaicas por parte significativa da mão-de-obra francesa. Aos acontecimentos – fundamentalmente, às exigências estudantis – ficou adstrito todo um folclore que nunca deixou de assombrar a política de uma certa Europa. Nem sempre se afirma, porém, com suficiente clareza, que as eleições democráticas de 30 de Junho desse ano liquidaram, no plano político, o processo começado na Universidade de Paris, Nanterre, com o movimento espontaneísta e libertário do 22 de Março.

As autoridades francesas começaram por tentar travar a crise estudantil através da repressão, recorrendo à violência policial. Foi como usar gasolina para apagar uma fogueira. Os acontecimentos políticos duraram cerca de dois meses e morreram nas eleições antecipadas. Ao devolver a palavra à população, o problema político ficou resolvido. O poder adquiriu uma nova legitimidade, embora o fim político do general de Gaulle tivesse ficado traçado. A revolta dissolveu-se como que por encanto. Passados cinquenta anos, numa altura em que a democracia representativa parece sofrer de uma grave doença, que alguns parecem desejar que seja fatal, não será descabido sublinhar este facto tantas vezes esquecido pela nostalgia dos soixante-huitards reais ou imaginários.

O Maio de 68 foi uma porta por onde passou muito do que estava em gestação na sociedade francesa e ocidental. O Vaticano II, a guerra do Vietname, a descolonização da Argélia, a prosperidade do pós-segunda-guerra, a descoberta e legalização da pílula, tudo isso tinha gerado tensões de natureza social, política e comportamental, as quais precisavam de uma abertura para emergirem no palco do mundo. O Maio de 68 foi essa abertura. Muito do que entrou por essa porta tornou-se o nosso modo de vida. Isso e a mitologia que foi produzida nos anos subsequentes criaram uma névoa que oculta o essencial. As dinâmicas libertária e esquerdista do movimento, ambas claramente antidemocráticas empalideceram e morreram na consumação de um acto eleitoral. É desconsolador chamar a atenção para o facto, mas nestes dias difíceis para a democracia, é bom não esquecer os recursos que esta possui.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A nossa pátria

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Ao comprar a nova tradução de Frederico Lourenço da Odisseia de Homero, lembrei-me da célebre frase de Fernando Pessoa ou, melhor, de Bernardo Soares: Minha pátria é a língua portuguesa. Há nesta frase um equívoco qualquer. A língua portuguesa, como outras, é apenas uma pátria de acolhimento. Na verdade, somos uma espécie de refugiados de uma pátria mais arcaica e fundamental. Que pátria é essa? É aquela que Frederico Lourenço, através das suas traduções de Homero e da Bíblia, está a expor aos portugueses. Não é uma pátria territorial, mas uma herança com cerca de três milénios.

A nossa pátria é a poesia dos gregos. De Homero, de Hesíodo, de Píndaro, de Ésquilo, de Sófocles e de muitos outros. A nossa pátria é a filosofia de Platão e de Aristóteles. A nossa pátria é a poesia latina de Horácio, Ovídio, Virgílio. Inclui Cícero, Marco Aurélio, Tito Lívio. A nossa pátria é o Antigo Testamento e o Novo Testamento, Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino. Apesar de esforços hercúleos de alguns – como Frederico Lourenço –, a nossa pátria arcaica está a ser corroída pelo abandono a que nós, seus filhos e cidadãos, estamos a votá-la.

É nos autores clássicos greco-latinos e nos dois Testamentos, que constituem o livro sagrado do Cristianismo, que estão os fundamentos daquilo que somos. É lá que residem as fontes que nos alimentaram nos últimos milénios. A descristianização e o abandono, na instrução escolar, da leitura dos clássicos estão a introduzir, desde há décadas, uma brecha entre as gerações actuais e fundo cultural que lhes deu origem, sentido e substância. A partir de certa altura, parece ter-se constituído uma conspiração com a finalidade de cortar as novas gerações da ligação ao passado e apagar, na sua memória, o conhecimento dessa herança que nos trouxe até aqui.

A aventura do homem ocidental não começou com a revolução científica do século XVII, o Iluminismo, a revolução industrial e tecnológica, o liberalismo e a democracia. Começou muito mais cedo, começou nesse tempo e com essa herança que hoje queremos esquecer. Esquecer a nossa origem não é apenas um problema de má memória mas um efectivo suicídio colectivo. Sem a memória do passado, a identidade torna-se de tal maneira frágil que seremos levados por um qualquer vendaval que a História está sempre pronta a oferecer. A leviandade com que estamos a descartar os clássicos greco-latinos e o Cristianismo, a matar a nossa pátria arcaica, é o sintoma de uma doença que tem todo o ar de ser fatal.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O desafio

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Tenho estado a ler The Benedict Option: A Strategy for Christians in a post-Christian Nation, um livro do conservador Rod Dreher. O autor, um cristão ortodoxo americano, defende que os Estados Unidos são já uma sociedade pós-cristã. O livro apresenta uma proposta de resistência dos cristãos ao modo de vida actual. Uma parte dessa estratégia passa pela educação das novas gerações. Dreher defende que as famílias cristãs devem evitar educar os filhos nas escolas públicas. Caso não tenham dinheiro para uma escola de orientação religiosa, a opção é fazer a escolaridade em casa, para as novas gerações não serem contaminadas pela cultura existente na sociedade pós-cristã.

Deixando de lado a visão apocalíptica do autor, há um problema crucial que se coloca relativamente à educação das novas gerações. E esse problema toca a cristãos, agnósticos e ateus. Como fazer passar os valores familiares para os filhos? A questão surge pelo peso desmesurado que os grupos de amigos, que se constituem, por norma, na escola, têm na formação dos jovens. Esses grupos inscrevem-se numa cultura que rompe, de forma radical, com os valores da família, cultura essa que é um produto híbrido entre a imaturidade das novas gerações e a manipulação a que elas são sujeitas por adultos obscuros, mas poderosos, escondidos atrás dos produtos de consumo, dos grandes meios de comunicação de massas e das redes sociais. As chamadas culturas juvenis fomentam, no mundo ocidental, a afirmação do jovem não pela emulação de um modelo parental mas pela revolta sistemática contra ele.

O resultado de tudo isto é aquilo a que o sociólogo polaco Zygmunt Bauman chama modernidade líquida. Nada no mundo contemporâneo é sólido. Não o são as instituições e ainda menos o é a cultura. As culturas ditas juvenis são uma das principais armas de liquefacção do mundo e introduzem rupturas, quase sempre dolorosas, entre gerações. O diagnóstico de Rod Dreher não é despropositado, pois o problema é real, tanto nos EUA como na Europa. A rasura dos valores das gerações anteriores é um problema não apenas porque afecta a transmissão de uma identidade colectiva, mas porque desarma os jovens perante as ciladas do mundo. Ao contrário do que propõe Dreher com o seu anátema da escola pública, precisamos de uma estratégia em que famílias e escolas (públicas e privadas) encontrem meios que ajudem as novas gerações a enfrentar o mundo e a preservar as tradições morais e culturais, de âmbito religioso ou não, que lhes darão uma identidade sólida mas adaptável a um mundo em dissolução contínua. É este o desafio.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Uma ameaça



O caso da resistência à vacinação, que pode estar na origem dos actuais surtos de sarampo e no reaparecimento de certos doenças que se pensavam erradicadas, é apenas um exemplo de um problema mais fundamental. As sociedades modernas atingiram um elevado nível de vida pela conjugação do desenvolvimento do conhecimento científico e da produção tecnológica dele derivada. Nesse elevado nível de vida, encontra-se a comodidade da existência e o prolongamento da esperança de vida.

A resistência ao conhecimento científico não é coisa de agora. Por vezes, torna-se virulenta e tem um poder destruidor do conhecimento e do progresso científico e tecnológico. O que estamos a assistir, em várias frentes onde se inclui a da saúde, é a um ataque de vários tipos de fundamentalismos – uns mais de cariz religioso, outros de natureza mais social – ao pensamento crítico que fundamenta o trabalho científico e tecnológico. O uso da razão crítica por parte dos homens não tem por objectivo criar verdades dogmáticas e resolver problemas com uma varinha mágica. A ciência é um projecto de aproximação progressiva à verdade. Também a tecnologia, por desenvolvida que seja, tem os seus limites de intervenção no mundo.

Assistimos, aproveitando o carácter limitado e aproximativo da ciência e da tecnologia, à pretensão de formas de acção e pensamento mágicos as substituírem. Reivindicam um pensamento e um tipo de acção alternativos. Efectivamente, o que se passa é que esse tipo de pensamento dito alternativo não se confronta com o rigor da testagem científica. É constituído por um conjunto de crenças que ou não podem ser testadas ou que, caso o fossem, não resistiriam aos testes empíricos. Se há crenças que, apesar da sua limitação sempre reconhecida, são submetidas às mais duras testagens para determinar a sua verosimilhança, essas são as crenças científicas, das quais depende a tecnologia que usamos e o nosso modo de existência.

Se por uma infelicidade, as nossas sociedades valorizarem do mesmo modo o pseudo-conhecimento dos saberes ditos alternativos e o conhecimento científico, então estaremos a dar passos para uma regressão civilizacional a todos os níveis. O que está em jogo não é apenas a saúde das pessoas e o seu bem-estar, mas o próprio pensamento crítico. Se este for equiparado ao dogma de uma qualquer crendice, temos razões para temer que, num surto de um súbito fundamentalismo, o seu exercício se torne impossível. O que se está a passar é um sintoma preocupante para o uso saudável da razão crítica, na verdade uma ameaça real ao nosso modo de vida.

segunda-feira, 12 de março de 2018

A razão e o sentimento

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Os resultados eleitorais em Itália, a dificuldade de formação de governo na Alemanha e o tremor – ou terror – que cada novo acto eleitoral provoca Europa fora, tudo isso se enraíza num conflito surdo, que durante muito tempo foi disfarçado, entre as elites europeias e as camadas populares dessa Europa. O conflito tem a raiz na cultura iluminista das elites e na estranheza das camadas populares relativamente a essa cultura. Enquanto o sistema de crenças das elites se foi transferindo da religião para um culto da razão e da sua eficácia, as camadas populares viram a religião, que dava sentido à sua existência, perder capacidade explicativa e integradora, não tendo elas, agora, nenhuma narrativa que lhes explique o mundo e nele as integre.

O conflito foi disfarçado durante uns tempos pelas ideologias políticas que funcionaram como um sucedâneo do cristianismo. Também uma certa expectativa de ascensão social e de capacidade de aceder ao consumo mitigaram a ruptura que atravessava já as sociedades europeias. O que terá acontecido para que esse disfarce tenha caído e para que, cada vez que a vontade popular se expressa nas urnas, as elites europeias tremam perante o avanço do populismo? Podemos pensar que isso se deve ao fim da expectativa de ascensão social, à vilania de um capitalismo voraz apostado em destruir os direitos sociais e à corrupção dos actores políticos. Isso terá algum peso. O problema, porém, está noutro lado, está na presença do estranho, do outro, dos imigrantes e dos refugiados provenientes, antes de mais, do mundo muçulmano.

A explicação é feia? Bastante, mas a realidade não tem de ser bela nem agradável. As elites, com a sua cultura racional e os seus interesses, aceitam facilmente a presença do estranho no seu território. Ao nível popular, contudo, a percepção do outro não é feita segundo princípios racionais derivados do Iluminismo. É feita de suspeita, de desconfiança e, acima de tudo, de medo. Na ausência de uma narrativa – religiosa ou outra – que permita integrar o que é estranho, existem múltiplas anedotas que, ao serem costuradas umas com as outras, fornecem o combustível que alimenta sentimentos negativos e que se traduz em xenofobia e na eleição de partidos e actores políticos que apregoam haver razões para ter medo do outro. As tradicionais elites políticas europeias, em nome da razão, podem continuar a fingir que não há aqui um problema, mas depois não se lamentem que a política tradicional e sensata esteja a morrer e que condottieri sem escrúpulos, em nome do sentimento popular, ganhem terreno e se aprestem para tomar conta dos rebanhos.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Igreja, o espírito e o sexo


A minha crónica no Jornal Torrejano.

A recente declaração do cardeal Clemente sobre abstinência sexual dos católicos recasados e a intensa luta, ao mais alto nível da hierarquia católica, sobre problemas de ordem moral tornam manifesta, mais uma vez, a grande dificuldade que a Igreja Católica enfrenta nas sociedades modernas. O problema centra-se no conflito entre a autonomia e liberdade dos indivíduos, uma característica da modernidade, e a reivindicação, por parte da Igreja, de um papel de tutoria, em matéria moral, de preferência sexual, das consciências dos crentes. O que se passa é que cada vez mais crentes, não deixando de o ser, recusam submeter a sua consciência e a sua liberdade à tutoria dos sacerdotes católicos.

O Vaticano II e a acção do actual Papa são tentativas de lidar com este problema. Os ventos vindos do concílio nunca agradaram aos sectores conservadores da Igreja. Pior ainda é a acção de Francisco, a qual gera verdadeiros ataques de fúria e de desobediência por parte desses sectores. Há uma coisa, contudo, que os sectores conservadores têm razão. O aggiornamento proposto por João XXIII, Paulo VI e Francisco não tem conseguido travar o declínio do catolicismo nas sociedades modernas. Os conservadores equivocam-se, porém, quando pensam que uma Igreja reactiva para com a modernidade, fundada no espírito do concílio de Trento, seria capaz de evitar o declínio. Provavelmente, o declínio seria mais rápido.

Há um problema que me parece central neste conflito entre católicos conservadores e católicos actualizadores. É o da discussão se centrar em questões morais. Isto é um problema porque ambos diminuem, na prática, o âmbito do catolicismo. Surpreendentemente, tanto conservadores como actualizadores estão a transformar o cristianismo, tal como o fizeram os protestantes, numa mera moralidade. Ora o cristianismo é mais, muito mais do que uma doutrina moral, farisaica ou misericordiosa. É uma aventura espiritual.

A Igreja Católica possui uma herança espiritual, fundada na mística, que poderia ser uma chave para entrar em contacto com o mundo moderno. Essa espiritualidade tem recursos suficientes não apenas para lidar com pessoas livres mas também para libertar as pessoas. É essa ânsia de liberdade e de libertação que levou muitos ocidentais a interessarem-se pelas práticas espirituais do Oriente, do Tantra ao Yoga ou ao Zen. A Igreja Católica em vez de fazer uso, no mundo moderno, da sua riquíssima tradição espiritual, esconde-a e passa o tempo, literalmente, a discutir o sexo e a moral sexual, como se a vida espiritual dos homens se reduzisse ao coito, interrompido ou não.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Eugénio de Andrade


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Nos tempos que vivemos, quase ninguém lê poesia. Os poetas correm o risco de escrever uns para os outros, diz-se. Este estreitamento do público dever-se-á, é também o que se diz, à obscuridade crescente das linguagens poéticas, tendo-se cortado o fio que ligava a poesia àquilo que o homem esperava e espera da linguagem. É possível que assim seja. Por isso, neste texto trago uma espécie de contra-exemplo. A linguagem do poeta é de uma grande claridade, apesar do rigor com que cada palavra é colocada nos versos. Falo de Eugénio de Andrade.

O primeiro livro de poesia que comprei foi dele. Juntava, numa bela edição da Editorial Inova, os livros As Mãos e os Frutos, de 1948, e Os Amantes sem Dinheiro, de 1950. Não sei quantas vezes li aqueles poemas. Talvez tenha sido esse livro que me inclinou para as minhas pobres tentativas poéticas, talvez. “Nos teus dedos nasceram horizontes / e aves verdes vieram desvairadas / beber neles julgando serem fontes.” Como é que uma imaginação imatura, como era a minha naqueles anos longínquos, não haveria de ficar deslumbrada com versos como estes?

Dos poemas reunidos nessa edição, aquele que nesses verdes anos mais me marcou foi o poema Adeus. Para o leitor que não o conhece deixo a primeira estrofe: “Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, / e o que ficou não chega / para afastar o frio de quatro paredes. / Gastámos tudo menos o silêncio. / Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, / gastámos as mãos à força de as apertarmos, / gastámos o relógio e as pedras das esquinas / em esperas inúteis.” O que me atraiu no poema foi a combinação da musicalidade das palavras com a ideia de finitude. O amor também ele tem um fim e há uma música própria onde esse fim pode ser dito, um requiem que acaba por prolongar e sublimar aquilo que já morreu.

Toda a o poesia de Eugénio de Andrade é marcada por esta claridade aparente. Ela dialoga e interpela o leitor, atrai-o para o colocar, com ostinato rigore, perante o que é obscuro e enigmático. A claridade da linguagem é uma porta para o mistério do corpo, da natureza, do homem e do mundo que rumoreja em cada uma das suas palavras. Ler poesia não é o mesmo que ler o jornal. Ela exige atenção e cuidado ao leitor. Este, porém, se não tiver pressa e se deixar envolver pela música das palavras, vai descobrir alguma coisa de si mesmo e do mundo, para além do puro prazer do jogo poético. Iniciar-se na poesia com Eugénio de Andrade é entrar pela porta grande. “Assim eu queria o poema: / fremente de luz, áspero de terra, / rumoroso de águas e de vento.” Assim.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Passos Coelho

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Agora que Rui Rio tomou conta do PSD, falemos de quem sai. Passos Coelho recebeu o país das mãos de Sócrates numa situação terrível e com um programa de resgate de dureza desnecessária imposto pela troika. E aqui começa o equívoco de Passos Coelho. Não apenas deixou transparecer que aquele programa da troika, apesar de negociado com Sócrates, era o programa de governação do PSD, como fez saber que pretendia ir além da troika, ser mais castigador dos portugueses do que os representantes dos credores. Num país frágil como Portugal, isto soou a muitos sectores sociais como pura provocação e mesmo uma espécie de revanchismo contra alguma igualdade social que o pós 25 de Abril e a adesão à CEE – agora União Europeia – trouxeram.

Aliado a isto veio toda uma retórica putativamente neoliberal, sustentada pela comunicação e redes sociais, blogosfera e grupos de jovens de aparência liberal e alma autoritária. Toda esta parafernália verbal assentava no puro desconhecimento do país, em leituras apressadas e num desejo indisfarçado das novas gerações da elite encontrarem pontos que lhes permitissem, como vingança social, fazer crescer as desigualdades. E contra tudo o que a prudência aconselhava, Passos Coelho deixou-se envolver neste lixo ideológico, o qual transpareceu muitas vezes nas suas palavras, criando ressentimento em grande parte população.

Passos Coelho perdeu uma grande oportunidade, talvez a maior desde o 25 de Abril, de reformar o país. O choque da governação Sócrates abriu-lhe uma porta para alterar a relação dos portugueses com o Estado e de criar relações sociais mais livres, onde autonomia e iniciativa individuais fossem decisivas. Ora, em vez de um discurso unificador dos portugueses perante a catástrofe (Sócrates e a troika) e a necessidade de um outro caminho, Passos Coelho preferiu um discurso ideológico agressivo, criador de divisões e de louvor à troika. Decidiu fechar a porta que lhe tinha sido aberta.

Isto não significa que o governo de Passos Coelho se pudesse eximir a cumprir o acordo de resgate com a troika. Nenhum governo o podia fazer. O cumprimento do memorando é um mérito que recai em Passos Coelho. Além disso, porém, deveria ter feito outras coisas. Por um lado, ter-se mostrado mais preocupado com o destino dos portugueses e, por outro, ter aproveitado a situação para arrumar o Estado e as relações entre este e a sociedade civil. Não fez uma coisa nem outra. Passos Coelho enredou-se em equívocos ideológicos que o conduziram para fora da governação e, agora, da liderança do PSD. Nem um grande estadista nem um terrível demónio social, apenas um fruto equivocado da ideologia.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Um sidonismo suave

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Apesar da situação actual ser radicalmente diferente daquela que, durante a I República, conduziu Sidónio Pais ao poder, o país caiu, sem dar por isso, num novo sidonismo. Sidónio, de forma turbulenta, tal como eram os tempos de então, liquidou o parlamentarismo republicano e instaurou um regime presidencialista. Marcelo Rebelo de Sousa, sem questionar a constituição, está, pelo seu talento pessoal e pela inabilidade dos partidos políticos e do governo, a construir um presidencialismo não de direito mas de facto. À primeira vista tudo se mantém igual ao que sempre foi. O primeiro-ministro é o responsável pela governação,  a Assembleia pelo processo legislativo e o Presidente da República continua com os mesmos poderes limitados dos seus antecessores. Aparentemente.

Percebe-se, desde muito cedo, que Marcelo Rebelo de Sousa tem como projecto determinar a governação do país. Fá-lo não pela subversão do regime, mas dentro do quadro constitucional, tirando partido da ambivalência do semipresidencialismo. A relação directa com os cidadãos, o clima de cumplicidade e de tutoria do povo que ele, mal eleito, começou a construir dão-lhe legitimidade suficiente para aniquilar qualquer desafio que um qualquer governo lhe lance. O momento decisivo em que o regime se torna efectivamente presidencial é o da tragédia dos incêndios. Se até aí o governo já tinha pouca margem de manobra, a partir da segunda vaga de incêndios deixou de ter qualquer independência relativamente aos desejos políticos de Marcelo Rebelo de Sousa. O governo começou por ser uma iniciativa da esquerda maioritária no parlamento. Hoje, ao perder a autonomia face a Belém, é o governo do Presidente da República.


Presidencialismo e uma relação directa com o povo foram características centrais do sidonismo. Também a actual relação da população com os partidos políticos é semelhante à existente no tempo de Sidónio. Perante as inabilidade e maquinações dos partidos e a cada vez menor consideração que a população lhes vota, o Presidente, pai e pastor do povo, trata-os de forma professoral e condescendente, exercendo um nunca confessado poder executivo real. Sem sujar as mãos, Marcelo Rebelo de Sousa realiza o seu velho sonho de governar, embora por interposta pessoa. As próximas eleições legislativas não têm já a ver com quem os portugueses escolherão para governar. Elas vão decidir através de quem, pessoas e partidos, Marcelo Rebelo de Sousa irá continuar a governar o país. Um novo sidonismo. Suave, cheio de afectos e de paternalismo.