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sábado, 12 de agosto de 2017

A bela humanidade

Francis Bacon - Cabeza III (1961)

António Guerreiro, no Público (vale a pena ler o artigo), cita um especialista americano no mundo digital que escrevia, há tempos, na revista The Atlantic o seguinte: "Quantos comentários devo eu ler, na Internet, para perder a fé na humanidade? Muitas vezes, a resposta é: um comentário". O interessante de tudo isto é que o universo digital é uma consequência do projecto da modernidade e, ao mesmo tempo, o exemplo da negatividade que habita esse projecto. O projecto da modernidade só foi possível pelo advento do humanismo, no Renascimento, e na substituição, no centro das atenções humanas, de Deus pelo Homem.

O incensar da humanidade não parou de crescer desde o XVII até hoje, apesar dos contínuos desmentidos trazido pelo Terror na Revolução Francesa, pelas condições de trabalho a que a Revolução Industrial sujeitou os trabalhadores, os campos de concentração nazis ou soviéticos. A Internet tem o condão de iluminar essa humanidade, de a mostrar sem edulcoração, a sua natureza . Hoje em dia já nem vale a pena ler os velhos reaccionários como Joseph de Maistre para perceber de que material é feito a humanidade. Basta olhar para as redes sociais e para as caixas de comentários dos jornais e revistas. O anonimato - e às vezes já nem isso é necessário - permite perceber o que está dentro dessa humanidade tão incensada ao longo dos último séculos.

A crueldade que vimos na acção do Estado Islâmico está ali ao virar da esquina, por agora na ponta dos dedos. Precisa apenas que se sinta à vontade para se mostrar na rua. Não é apenas o sonho de uma esfera pública civilizada (burguesa), de debate e de procura da verdade que se mostra uma ilusão. A democratização da palavra e a extensão das decisões democráticas para além da esfera estrita da representação, esses sonhos utópicos, mostram-se já como uma ameaça à vida civilizada. Durante anos, as críticas liberais a Platão, o pai de todos os totalitarismos, no dizer de muitos liberais, pareciam fazer sentido. Hoje, porém, vale a pena voltar a Platão e à sua crítica à democracia grega. Ele terá alguma coisa a dizer aos nossos dias.

sábado, 22 de julho de 2017

O velho Trabant

Thomas Hoepker - Damaged Trabant car and boy carting coal. Dresden, Saxony, RDA, 1990

Esta fotografia de 1990, o ano seguinte à queda do Muro de Berlim, é o sinal cruel da derrota do chamado socialismo real. Na verdade, as experiências socialistas iniciadas em 1917 - há um século atrás, portanto - falharam por todo o lado. Não conseguiram, enquanto vigoraram, fornecer aos cidadãos dos respectivos países dois bens essenciais segundo o credo do progresso que alimentou as crenças tanto de liberais como de marxistas. Nem a liberdade nem a prosperidade. Relativamente à liberdade, o sinal foi dado de imediato por Lenine em 1918, com a dissolução da Assembleia Constituinte democraticamente eleita e a imposição de uma ditadura, a qual se tornou o arquétipo para as outras experiências da gloriosa marcha em direcção ao homem novo e à sociedade comunista. Do ponto de vista da prosperidade, a economia planificada e estatizada foi completamente incapaz de concorrer com a economia de mercado ocidental assente na iniciativa privada e na liberdade de investimento, embora escorada, muitas vezes, num Estado social forte. O sonho de várias gerações de revolucionários adeptos do novo mundo, por muito que o neguem, acabou resumido a um velho Trabant, sem rodas, que ninguém quer ou sequer lamenta.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Da infância sem fim

Toni Schneiders - Fykesunds bru im Hardanger Fjord, 1959

A espécie humana é muito cansativa na sua previsibilidade. Basta dar um pouco de atenção a uma determinada personagem para que, sem grande surpresa, se consiga antecipar comportamentos. Fundamentalmente, os que são negativos. É preciso um certo refinamento para dissimular com eficiência o desejo de praticar o mal. E refinamento é coisa que está ao alcance de poucos. Para certas pessoas, a ânsia da maldade é tão grande que não conseguem deixar de semear sinais e pistas por todo o lado. E o mais interessante é que o fazem com uma infantilidade quase comovente. O que não é de todo um prejuízo para os outros. Seria bem mais grave que à propensão para o mal se aliasse a maturidade. Por norma, essas pequenas personagens maldosas que cirandam por aí são imaturas, uma espécie de crianças perdidas num mundo cheio de ameaças imaginárias, ameaças nascidas da sua incapacidade de crescer e tornar-se adulto. Ora a quantidade de adultos que, na verdade, nunca cresceram é desanimadoramente muito maior do que se pode pensar. A ideia kantiana de que o Iluminismo é a saída do Homem da menoridade choca com essa realidade. Nem as mais intensas luzes da razão têm o poder de fazer amadurecer parte significativa do género humano, de fazê-la atravessar a ponte que liga a infância ao estado adulto.

domingo, 9 de julho de 2017

Fantasmas

Nicanor Piñole - Escuchando la radio

O pintor post-impressionista asturiano Nicanor Piñole (1878-1978) fez uma série de desenhos sobre o fenómeno da escuta do rádio. O que me prendeu a atenção foi o sentido arqueológico destes desenhos. Mostram o momento em que as famílias passam de comunidades de indivíduos a locais de convívio de solidões. A comunhão de um destino começa a dar lugar ao ensimesmamento. Solicitados pela voz vinda de fora, as pessoas acabam por reforçar a sua singularidade num processo de contínua estranhamento relativamente aos que lhe são próximos. Como todos sabemos, o processo foi-se intensificando com a televisão e, hoje em dia, com a internet e as redes sociais. O discurso que vem de fora torna-se uma muralha que separa cada um do seu próximo. A destruição das relações de proximidade dentro da própria família foi um passo decisivo para que a ideia de próximo, tal como emergiu no discurso de Cristo, começasse a perder sentido. O que está próximo já não é um ser humano, mas o fantasma trazido pela mediação de um qualquer dispositivo tecnológico.

sábado, 8 de julho de 2017

A concubina infiel

Arkady Shaikhet - Express train, USSR (1939)

Para onde se dirige, tão soberbo e ufano, o comboio expresso soviético? A fotografia de Arkady Shaikhet é um hino à ideologia dominante na URSS de então. Quem conhece um pouco da história dos séculos XIX e XX é levado a pensar, num primeiro momento, que o expresso se dirige para o futuro. O comboio que vemos não é um comboio mas um deus, Hermes ou, na versão romana, Mercúrio, que corre para cumprir a sua missão de mensageiro e anunciar ao mundo e ao futuro o triunfo do progresso, que há-de chegar envolto em fumo e metalomecânica pesada. No entanto, se olharmos a data da fotografia percebemos de imediato que o comboio apenas se precipita em direcção à segunda guerra mundial e à morte. A história é uma concubina infiel que nunca deixa de trair aqueles que a amam.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O sem destino

Adelino Lyon de Castro - Sem destino, Portugal, 1980

Ao cruzarmos a fotografia, a data e o título que lhe foi dada pelo fotógrafo, podemos ser tentados a ver nela uma metáfora sobre o destino - ou a sua ausência - de Portugal na transição da década de setenta para a de oitenta do século XX. As tentações nem sempre são boas conselheiras. Aquilo que vemos - ou que nos é dado a ver, o que não é bem a mesma coisa - é o outro lado da realidade portuguesa, não de 1980, mas de Portugal ao longo da sua história. Uma parte do país parece, muitas vezes, brilhante, de aspecto triunfal, tendo um caminho e um destino, mas isso é só parte da realidade. Existe a outra parte, aquela que a fotografia retrata, que, nos momentos mais inesperados, se manifesta estrondosamente, para depois, se ocultar silenciosa, até que uma qualquer câmara escondida - isto é, uma tragédia, uma crise financeira, etc. - a torna a trazer para o primeiro plano. Se não nos deixarmos iludir pela exaltação da retórica política, talvez descubramos que este sem destino é ainda um momento constitutivo do nosso próprio destino. Aquilo que somos enquanto comunidade faz-se no convívio e no conflito com a ameaça perpétua de perder a nossa destinação. Se eliminássemos esta parte ameaçadora, sempre presente, o mais provável seria deixarmos de ser o que somos. O mais provável é que possamos ir transformando, lutando contra ela, essa ameaça arcaica que nos constitui, mas não esteja nas nossas possibilidades eliminá-la. Ela mostra-nos a efemeridade das coisas e a nossa fragilidade. Dá-nos, desse modo, um saber. E é este saber que nos tem ajudado a sobreviver enquanto comunidade, contra todas as probabilidades, há quase nove séculos.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Um Deus pessoal

Leonardo da Vinci - Vitruvian man

Há em todos nós – talvez esta generalização não seja precipitada – um persistente e melancólico desejo de que os outros sejam melhores. Mais civilizados, mais honestos, mais atenciosos, mais competentes. Nunca as qualidades e as virtudes dos outros, por maiores que sejam, são suficientes para fazer esquecer a sombra viciosa que os toca aos nossos olhos. Este desejo de perfeição do outro não hesita em tomar palavra e desdobrar-se em textos e proclamações orais. A contrapartida disto não é menos interessante. Olhamos para nós, quando o fazemos, e o desejo de perfeição cessa. Os nossos vícios são, aliás e sabiamente, virtudes. É uma dupla graça que recebemos de Deus. Não só nos dotou com um olhar agudo com que perscrutamos o vício alheio como, ao criar-nos à sua imagem e semelhança, não se esqueceu, ao contrário do que aconteceu com os outros, de derramar em nós a sua ilimitada perfeição. Não há nada como um Deus pessoal, pensamos gratos.

sábado, 24 de junho de 2017

A doença do optimismo

Pablo Picasso - Cabeza de hombre (1969)

Um dos argumentos que a direita, entre ela os liberais mas não só, com mais pertinência usou contra o marxismo e as suas pretensões foi o da risibilidade do optimismo antropológico inerente às crenças socialistas e comunistas. Crer que a maldade humana é o fruto de uma sociedade classista e com o fim desta - e da propriedade privada dos meios de produção - essa maldade desapareceria para dar lugar a uma espécie de paraíso na terra, no qual a própria política perderia sentido, é acreditar numa fantasia que nenhum facto corrobora ou sequer indicia.

O mais espantoso é que o cepticismo antropológico que a direita, com acuidade e justeza, dirigiu à utopia marxiana se transforma num complacente optimismo perante a iniciativa privada, o mundo dos negócios, a liberalização e desregulação de tudo e mais alguma coisa. Nem os mais patentes casos de polícia e as desgraças disseminadas que tomam o nome de crises são factualidade suficiente para que a direita se recorde do pessimismo antropológico com que enfrentou o marxismo.

Ora um pessimismo persistente sobre a natureza dos homens é a melhor maneira de tornar a vida civilizada. A civilidade não nasce porque acreditamos na bondade do homem, mas porque desconfiamos dele, das suas intenções e das consequências dos seus actos. Só um pessimismo antropológico persistente suporta, em todas as áreas, políticas prudenciais que limitam sonhos (isto é, desejos de triunfar sobre os outros) e utopias (e como se sabe há utopias comunitárias e utopias individuais). A prudência não resolve tudo, porque há coisas que ultrapassam a medida e o poder dos homens, mas pode impedir que certas catástrofes se tornem um drama sem fim.

Por detrás dos acontecimentos de Pedrógão Grande há um longo percurso fundado no optimismo antropológico, na crença na bondade dos interesses e desejos dos homens. O resultado foi um comportamento generalizado onde a prudência esteve longe, muito longe, de ser preocupação dos políticos (não apenas dos vários governos, mas de vários regimes), dos empresários que vivem da floresta, das instituições e das próprias pessoas. Por norma, estas coisas não se notam, mas há momentos, como o actual, em que tudo se conjuga para tornar patente que a nossa conduta é há muito, e também agora, errada e viciosa.

Aprendemos alguma coisa? Obviamente que não. Iremos passar o tempo a discutir questões técnicas e a tentar tirar proveito político. As facas estão já a ser afiadas e a natureza dos bandos, passado o pudor inicial, virá ao de cima. Não é porque 64 pessoas morreram e arderam uns milhares de hectares que o optimismo antropológico inerente às várias seitas e capelas em confronto irá ser abandonado. Claro que alguma coisa irá mudar, mas apenas para que, como ensinou Tomasi di Lampedusa, tudo continue na mesma. Amanhã outra coisa qualquer ocupará o lugar da indignação, que é a reacção sentimental e naïf pela falência da crença na bondade do homem, no optimismo antropológico.

domingo, 21 de maio de 2017

Um conflito inextinguível

Karola Pęcherskiego -  Warszawa, 1948

Ruínas como a da fotografia têm o condão de nos mostrar que, por vezes, o tempo - ou a nossa percepção do tempo fundada na mudança - acelera, destruindo um mundo e libertando outro que permanecia oculto, disfarçado pelo trabalho diário de recomposição dos efeitos da passagem do tempo. As catástrofes - produzidas pela natureza ou pelo homem - são dolorosos aceleradores temporais, reduzindo a escombros o que parecia, ao olhar incauto, eterno. Uma parte substancial da vida dos homens é gasta em operações plásticas do mundo em que vive, um disfarçar de rugas, tentativas desesperadas de manter aquilo que está condenado a perecer. O interessante nesse esforço não é o resultado mas o prazer com que é praticado. Esse prazer, nunca saciado, é, ao mesmo tempo, o efeito do fascínio da memória do passado sobre a vida do presente e resultado do desejo de eternidade com que a natureza dotou o coração da nossa espécie contra todas as evidências empíricas. É longo e inextinguível o conflito do Homem com o tempo.

sábado, 20 de maio de 2017

Silhuetas perdidas no cenário

Ara Güler - Edirne, Turkey, 1956

Não faço ideia o que está escrito na parede, portanto não foi a comunicação que me atraiu mal vi esta fotografia de Ara Güler. Poder-se-ia argumentar que o fascínio deriva de uma emoção estética originada numa certa combinação de linhas e formas, as quais casam com a ausência de cor. Será verdade, mas não toda a verdade. Há na foto uma revelação sobre a própria natureza humana. Educados para valorizar a humanidade e, nesta, a individualidade manifestada na singularidade dos rostos ou dos corpos, deparamo-nos com uma outra leitura tanto da humanidade como da individualidade. Não há rostos singulares nem, propriamente, seres humanos, apenas duas silhuetas perante um cenário esmagador. E esta revelação - a de que não passamos de silhuetas perdidas numa paisagem incomensurável - é causa suficiente para explicar o fascínio exercido pela foto de Ara Güler. Perante ela somos reconduzidos à nossa finitude e irrelevância, isto é, à nossa verdade.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Atracção pelo abismo

Paul Huet - Abismo; paisagem (1861)

São múltiplos os sinais de que vivemos num tempo perigoso. Talvez o sintoma mais preocupante seja a atracção pelo abismo que se insinua, entre muitos ocidentais, com cada vez mais força. Aquilo que ainda há alguns anos causaria repulsa generalizada é agora visto como uma possibilidade e uma possibilidade que, de forma mais ou menos velada, se deseja. É o crescimento desta atracção que marca a periculosidade dos nossos dias. Quando o sentimento deixa de querer evitar aventuras e situações extremadas para se abrir às propostas políticas que deveriam fazer corar de vergonha gente civilizada, então podemos estar a caminho, mesmo que ainda não seja perceptível, de uma desgraça.

O abismo sempre existiu e não pode ser eliminado da vida social e política. Pode, todavia, ser contido num limiar aceitável e que não ponha em causa uma vida social equilibrada. O problema surge quando aqueles que deveriam cuidar de manter o abismo afastado são os que, pelas opções políticas que tomam, acordam o monstro adormecido que existe no coração de cada ser humano. A destruição dos equilíbrios sociais, o espectáculo das desigualdades acima do limiar que a inveja permite tolerar, a sensação de que a situação só pode piorar, a aniquilação da esperança, tudo isto contribui para que a atracção pelo abismo cresça.

Embora nunca se saiba muito bem onde fica, há um limiar que se ultrapassado transforma a atracção numa queda inexorável. A Europa, no século passado, ultrapassou-o pelo menos duas vezes. O resultado, que se está a dissolver na consciência colectiva, não foi bonito de se ver. O que se passar em França na segunda volta das eleições pode-nos indicar se vivemos ainda um tempo de mera atracção pelo abismo ou se nos estamos já a precipitar nele. Mesmo que o pior seja evitado, estamos longe daquilo que é necessário para conter a crescente atracção pelo abismo, para delimitar este num nível aceitável. É preciso que os aprendizes de feiticeiros e os pirómanos sejam afastados do comando da política europeia. E nela não faltam nem uns nem outros.

sábado, 15 de abril de 2017

Atmosfera de leitura

Theodore Robinson - Young Woman Reading (1887)

Olhar um quadro como este de Theodore Robinson é um exercício de melancolia. Esta não nasce por ter deixado de haver leitores. Certamente, hoje em dia, haverá mais gente, muito mais do que há cem anos, a ler livros. A melancolia nasce do desaparecimento daquilo a que se poderia chamar a atmosfera da leitura. Em primeiro lugar, a leitura exige a suspensão do tempo da vida, exige uma predisposição para a inactividade, coisa que choca com os imperativos da vida contemporânea. Devemos estar sempre mobilizados, prontos para o movimento, abertos para a acção. Em qualquer lugar em que se esteja, o mundo da mobilização lembra-nos a imoralidade de sair dele para mergulhar na leitura. Em segundo lugar, os próprios leitores foram perdendo a capacidade de se fechar ao mundo, de mergulhar num universo de símbolos que suportam outros símbolos, os quais constituem desafio e mistério. O leitor não apenas está sempre a ser solicitado pelo mundo como foi educado para desejar essa solicitação, para fugir da vida solitária, para fugir inclusive do confronto consigo mesmo que toda a leitura, se não é puro entretenimento ou mera informação factual, implica. Desenha-se sempre uma secreta, ou nem tanto, má consciência pelo tempo concedido à leitura não utilitária. Quando se olha o quadro, a melancolia nasce da imediata compreensão de que a antiga atmosfera onde leitores e livros se encontravam foi levada pela voracidade da vida. Hoje somos todos, de uma ou de outra forma, leitores à deriva sem atmosfera que permita a lenta respiração que a verdadeira leitura impõe.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Um mundo velho

Leonard Misonne - Old people, old houses (1930s)

Um mundo de gente envelhecida só pode ser um mundo velho. Portugal, por exemplo, já é assim. O principal problema do país não é o défice, nem a dívida, tão pouco a economia ou a educação. É a demografia. Um mundo que teima em envelhecer, que resiste em renovar as gerações, é um mundo condenado à espera de ser substituído por outro que não negue a vida e a renovação desta. Os países e as comunidades também desistem de si.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O clube dos escritores traídos

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Há umas semanas noticiou-se que a editora de Agustina Bessa-Luís mandara retirar do mercado os livros desta autora. Parece que já não vendia o suficiente. Há claramente um conflito negocial, digamos assim, entre a editora e representantes da escritora. Não é esse assunto que me interessa, mas um que lhe está ligado. Agustina foi durante muitos anos, ao lado de José Saramago e de António Lobo Antunes, uma escritora com um amplo mercado. Como Saramago e Lobo Antunes, a escritora nortenha não escrevia literatura de entretenimento. Estávamos – e estamos, pois ainda é viva – perante uma autora brilhante, provocadora e, literariamente, exigente. Neste episódio, e independentemente da guerra negocial, há qualquer coisa que nos deveria fazer pensar.

Se olharmos para o século XX, há um conjunto de escritores bastante interessantes que entraram num limbo e que parecem estar a apagar-se da memória nacional. Sem ser exaustivo, recordo José Rodrigues Miguéis, Carlos de Oliveira, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Irene Lisboa, Fernanda de Castro, José Régio, Jorge de Sena, Vitorino Nemésio, Ruben A., Maria Judite Carvalho, Nuno Bragança e Fernanda Botelho. Haverá nesta lista esquecimentos imperdoáveis, mas isso é irrelevante. Outros ainda estão bem vivos nas escolhas dos leitores. Alguns dos autores referidos ainda terão o seu público, mas a sensação que se tem é que a memória das suas obras encolhe a cada dia que passa. É esta retracção da sua presença no espaço mental português que nos deveria preocupar.

O século XX foi ontem. E se a História é fundamental para o compreendermos, a literatura que nele se escreveu tem uma importância idêntica. Aquilo que somos – e o que somos é sempre múltiplo e diferenciado – repercute-se nas diferentes obras literárias. A complexidade e a riqueza do ser português do século XX estão plasmadas nessas obras. Ora se elas se forem apagando por falta de leitores, é uma parte – e das mais importantes – de nós que morre ao abandono. Não ler a literatura do século XX – e a dos anteriores, diga-se – significa que deixámos de nos interessar por quem somos. Ler as obras já de nada valerá a muitos dos autores do século XX, pois já morreram. No entanto, pode-nos valer a nós, ajudar-nos a saber quem somos e porque estamos onde estamos. Um povo que deixa – por desinteresse e ignorância galopante – apagar-se a memória da sua literatura é um povo que está doente, muito doente. Não façamos com os escritores do século XX um triste clube dos escritores traídos.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O perdão de Buda

Eddie Adams - Moment of execution, February 1, 1968

Consta que após disparar sobre o guerrilheiro Vietcong aprisionado, o general sul-vietnamita Nguyen Ngoc Loan, chefe da polícia nacional, se terá dirigido aos repórteres que assistiram à cena e dito: estes tipos matam muita gente do nosso lado, julgo que o Buda me há-de perdoar.  Não faço ideia se o Buda o terá ou não perdoado. Seja como for, a frase denota que havia uma clara consciência de que se estava a praticar algo de muito grave, cujo perdão estaria, se estivesse, a cargo do Buda. E é esta relação entre a prática do mal e a consciência dessa prática, presente em todos nós, que parece explicar a necessidade de mitos como o do pecado original e a consequente expulsão do paraíso. Esses mitos falam menos do hipotético paraíso e mais, muito mais, da realidade que é dada ao homem viver. Só uma desmesurada ilusão pôde fazer acreditar que era possível construir na terra um paraíso. Talvez um Buda possa perdoar as acções dos homens, mas é duvidoso que a eternidade chegue para perdoar tudo o que terá por perdoar.

quinta-feira, 30 de março de 2017

A virtude do equívoco

Jean Dubuffet - Banco de equívocos (1963)

Uma experiência corrente é compreender que uma certa certeza, que nos parece tão clara e distinta, não passa de um equívoco. Um efeito desta experiência pode ser conduzir a uma busca de certezas que resistam ao equívoco. A desmedida humana não tem limites. Outra possibilidade será moderar a exigência de certezas e olhar as nossas, por claras e distintas que sejam, como possíveis equívocos que o tempo acabará por revelar. Será frustrante para aqueles que, de uma forma ou de outra (e há formas tão rebuscadas), julgam possuir a verdade. Teria eventualmente a virtude de moderar a tendência humana para impor, quase sempre através de alguma forma de violência, a verdade, a sua verdade, aos pobres infiéis que ainda não foram por ela iluminada. Descobrir-se instalado num banco de equívocos não será assim tão dramático. Pelo contrário.

domingo, 26 de março de 2017

Domingos de chuva

Daniel González Ruiz - Paisaje de Montmartre con lluvia

Domingos como o de hoje – cinzentos, frios e com chuva – não deixam de ser luminosos. Se nos for permitido antropomorfizar o estado do tempo, dir-se-á que estes domingos são o exercício de um cepticismo moderado. Não entoam loas ao esplendor do sol, às grandes festividades do bom tempo, mas também não brandem, com mãos poderosas e razão céptica, um temporal negador de qualquer vontade de viver. Moderam os entusiasmos com o que tem demasiado brilho e espalham uma suave nostalgia não destituída de uma leve esperança. Trazem uma luz sobre a condição dos homens, uma luz não destituída de melancolia, que lhes permite perceber que o mundo não é o paraíso, mas também não tem de ser o inferno.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Lentidão

Giacomo Balla - Automóvil a la carrera (1913)

Não foi só o silêncio que as sociedades modernas aboliram. Foi também a lentidão. O mundo moderno assenta no triunfo da velocidade, no império rapidez, na tirania do dinamismo. Os vagarosos ritmos da natureza tornaram-se para os seres humanos anátema. A lentidão paga-se com o desterro para um mundo de párias. Os velhos filmes do Far-West, essa imagem de marca da indústria sediada em Hollywood, trazem na figura do duelo entre pistoleiros a metáfora da morte da lentidão. A vida depende da rapidez. Quanto mais rápido se for maior é a probabilidade de sobreviver. A metáfora, porém, não sublinha apenas a rapidez, ela mostra o objectivo: sobreviver. E sobreviver, a mera luta pela sobrevivência, é o que resta num mundo de onde, sem apelo, a lentidão foi proscrita.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Carnaval e Quaresma

Pieter Brueghel el Viejo - La riña entre el Carnaval y la Cuaresma (1559)

Brueghel o Velho pintou em 1559, retratando o espírito daquele tempo, uma luta entre o Carnaval e a Quaresma. Nos dias de hoje, a Quaresma perdeu o lugar central que possuiu em tempo na ordenação da vida social do Ocidente. Tornou-se uma reminiscência histórica e cultural que deixou de tocar nas consciências dos indivíduos. Não se pense, todavia, que essa guerra entre o espírito do Carnaval e o espírito da Quaresma foi ganha pelo primeiro. Não foi. Veja-se o Carnaval em Portugal. Por maior publicidade que se faça aos corsos entretanto instituídos, tradições abrasileiradas fabricadas anteontem para alívio de câmaras municipais, o Carnaval português é sempre tão melancólico e tão sombrio que parece que o país já se transferiu, apesar da aparente folia, para o espírito da Sexta-Feira de Paixão. Uma melancolia sem fim.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Camadas sedimentares

Mateo Vilagrasa - Libro III. Sedimentos (1993)

Ler os jornais, dar uma volta pelas redes sociais, ver e ouvir a informação. Tudo isso nos dá sempre a impressão de que cada coisa que acontece na vida social é de tal maneira importante que se estão a viver momentos que o tempo jamais apagará. Na verdade, tudo isto não resistirá à voragem dos dias. A maior parte dos acontecimentos que excitam as opiniões terão sido tragados dentro de semanas. O resto terá sido esquecido em breves meses. Estes acontecimentos que povoam os sonhos e os pesadelos da esfera pública dão materiais de tão má qualidade que a erosão os dissolverá rapidamente. Haverá, talvez no espaço de uma década, um ou outro evento que, apesar da erosão, restará como sedimento amalgamado numa camada que com o tempo será coberta e recoberta de outras camadas com outros sedimentos. Servirão essas camadas para quê? Servirão como chão que aqueles que virão muito depois de nós pisarão sem terem a menor ideia do que estão a pisar.