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domingo, 27 de janeiro de 2013

Meditações taoistas (12)

Não se exibindo então brilha
não se afirmando então figura
não se vangloriando então tem mérito
não se enaltecendo então perdura.
Lao Tse, Tao Te King, XXII

Escreveram que era o discípulo amado, mas não houve quem soubesse interpretar tal palavra. Pintores houve que o figuraram reclinado no peito do mestre, outros viram-no escrevendo laboriosamente no exílio a que a insensata política de Roma o condenara. Durante quatro anos exercitou-se duramente e aprendeu a domar o fogoso animal que habitava o seu coração. Sim, era um homem como os outros, um pobre pescador a que vida dera mais do que poderia esperar, mas precisava de aprender a lidar com esse excesso, a compreender de onde vinha e para onde se dirigia.

Foi uma longa aprendizagem que o levou ao desprendimento de si, um duro discipulado para que na escuridão do vazio, assim nascido, brilhasse a mais pura das luzes. Um dia descobriu que a exaltação que fervia em si, o secreto orgulho de ter convivido com o Mestre, não passava de uma triste e vergonhosa ilusão. Pediu ao Altíssimo que lhe fosse concedida a graça de se esquecer até do seu nome. Não, foi a resposta que escutou no fundo do peito. Tinha de enfrentar o dragão da vanglória e trespassá-lo com a espada da negação. Não a negação do nome, mas do desejo de se esquecer e de abandonar todos os desejos. Ser homem era a sua figuração e tinha de a aceitar.

Tremeu na hora em que descobriu o frágil e impotente homem que era, a pobre gota de água que a areia logo esconde e leva para a pátria da ausência. Estava, agora mais do que nunca, pronto para abandonar a ilha, e, desprendido de si, desprendido até do desprendimento, esperou pela hora propícia para retomar o mundo. Trazia uma estranha revelação. Não era um livro para entregar ao ócio dos intérpretes nem uma história do passado ou uma profecia inquietante e sombria do futuro. Era apenas a pura presença do vazio em que ele se tinha, no duro exílio, tornado, era o resultado da lenta aprendizagem do desprendimento. Não se esquecera de si. Sabia o seu nome e o dos pais, sabia da arte de lançar as redes ao mar e trazer peixes para a mesa dos homens. Sabia, inclusive, as horas que passara conversando com o Mestre e o que, com Ele, aprendera. Tudo isso, porém, deixara de ter importância. Desprendido de si, vazio de toda a glória, podia dizer, sem insensatez e sem vaidade, que nele estava a vida e a vida era luz dos homens.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Meditações taoistas (11)

No governo do homem, no serviço do céu,
nada como temperança.
Lao Tse, Tao Te King, LIX

Durante meses meditou, olhando a balança suspensa do tecto. Observava o mecanismo perfeito, a figura com que a exactidão se adornou, o sentido que nascia do equilíbrio dos pratos. Que mistério se esconderia naquele artefacto que os homens um dia, para regularem as suas trocas, teriam inventado? Por vezes, se a meditação se prolongava, caía num estado de sonolência e estranhas visões perpassavam por si. O céu e a terra abraçavam-se e, com um ardor desmedido, entregavam-se a singulares jogos de amor.

Foi assim que viu nascer Thémis, a deusa que, filha do céu e da terra, pertencia à estirpe titânica. Uma visão mostrou-lhe que da mãe, Geia, recebeu o corpo terrestre com que, na sua longa meditação, a tinha sonhado e do pai, Urano, sem que alguém compreenda o mistério da herança, veio-lhe um espírito de equilíbrio e de moderação. Quando, numa longa noite de insónia e recolhimento, a viu adulta e bela, descobriu-lhe na mão a balança que ele próprio contemplara durante meses. Sim, a balança que caía do tecto de sua casa abriu-lhe o espírito para essa outra balança que trazia a justiça aos homens.

Então decidiu contar a história dos deuses, deixar testemunho sobre a terra como os imortais vieram à existência e que tesouros escondiam as suas imagens. Nas praças, ele falava acima de tudo do equilíbrio da balança, de como o mais leve sopro enlouquecia os pratos e introduzia o caos na vida dos homens e das cidades, um caos sulfuroso que aquele belo mecanismo, na mão da deusa, media sem parar. O importante, dizia então, é descobrir o limite, saber com precisão o tamanho do passo a dar, a cor e a textura da palavra a dizer, a firmeza com que a mão fechada deve castigar o excesso e a arrogância.

Nos dias mais quentes, o poeta sentava-se, solitário, debaixo de um árvore e meditava longas horas sobre o poder do Sol e a força do calor. Depois, ao retornar ao contacto com os outros, dizia: um mundo vulcânico habita sob o império da harmonia e é preciso que, a cada instante, aquele que é sábio equilibre os pratos da balança para que a lava incandescente, que dorme no fundo do homem, não encontre uma porta de saída e destrua o mundo.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Meditações taoistas (10)

Quem conhece o outro é sábio,
quem conhece a si mesmo é iluminado.
Quem vence o outro tem força,
quem vence a si é forte.
Lao Tse, Tao Te King, XXXIII

Não foi quando, sobre o amor, escutou a lição de Diotima, nem quando o oráculo de Delfos o proclamou o mais sábio entre os homens, que a luz brilhou no coração de Sócrates e ele descobriu quanto era forte. Muitos foram os combates em que participou. Fez a guerra e afrontou a arrogância dos atenienses. Em cada batalha saiu vencedor, criando inimigos implacáveis e uma corte de jovens aduladores sedentos de o seguir. Ao envelhecer, começou a rir da sua sabedoria e achou caricata a força que dele fizera um combatente digno de louvor. Para que lhe serviu ser herói de guerra ou ter mostrado aos outros que os conhecia melhor do que eles a si mesmos se conheciam?

A família, a cidade de Atenas, a vaidade do mundo cansavam-no e nem o teatro de Eurípides o animava. Deixou então o espírito vogar no desconsolo da vida, escondeu de Platão o cepticismo que lhe corroía o coração, semeou aqui e ali um sinal do que lhe ia na alma, uma incongruência que o discípulo, inconsciente e fascinado pela aura do mestre, registará nos diálogos, e que a posteridade nunca saberá interpretar, seduzida pelo brilho da lógica, pela novidade da personagem. Nem quando, dirigindo-se a Críton, pediu que pagasse um galo em dívida a Asclépio compreenderam a dor que o tinha atormentado e da qual o deus o libertava.

O processo que lhe moveram foi a sua salvação. As intrigas da cidade e a inveja dos mortais levaram os atenienses a condená-lo à morte. Os motivos eram fúteis e a culpa inexistente. Nesse instante, porém, Sócrates respirou aliviado. Encontrara um caminho, o sentido definitivo. Uma coisa sabia agora. Pouco faltava para que o corpo pesado e incapaz se desligasse, pela vontade dos seus concidadãos, da alma. Esperou, firme e esperançado, que os peregrinos retornassem de Delos. Quando chegaram, conversou o dia inteiro com os amigos. Depois, à hora marcada, tomou banho, despediu-se de todos e olhou a morte, que entretanto chegara. Nos olhos desta, descobriu-se forte e sorriu. Pegou na taça e, como o determinado pelos arcontes, tomou o veneno. Enquanto a vida se ia retirando do corpo, uma luz cresceu na alma que, iluminada e silenciosa, entrou no além.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Meditações taoistas (9)

Por isso o homem santo
Conhece-se a si mesmo sem se exibir
Ama-se a si mesmo sem se dignificar…
Lao Tse, Tao Te King, LXXII

Abandonara o deserto havia três meses e caminhara por vias secundárias, parando apenas quando a noite se anunciava no horizonte, evitando outro transporte que não os próprios pés. Por vezes, se a natureza não lhe fornecia alimento, entrava numa aldeia ou numa vilória e comprava fruta e pão. Olhavam-no surpreendidos, mas ninguém lhe perguntava quem era, de onde vinha, para que sítio se dirigia. Era parco em palavras, mas olhava com bonomia as pessoas com que se cruzava e recebia em troca um sorriso e, surpreendentemente, olhares de aprovação.

Quando chegou à cidade, estremeceu. Desabituara-se daquele mundo e sentiu, nas primeiras horas, dificuldade em ajustar-se ao burburinho. O silêncio tinha sido a sua vida durante anos. Depressa, contudo, se habituou, como se o silêncio que aprendera tivesse tomado conta de si, se tornasse parte dele, uma sombra que o acompanhava para onde fosse. Conversou com homens e mulheres e logo percebeu que, passados alguns momentos, se abriam com ele, oferecendo-lhe o segredo das suas vidas, a dor que os aprisionava, a sombria tristeza em que definhavam, alguma breve alegria que a vida lhes dera. A eloquência que admiravam nele vinha do olhar e nunca as suas palavras eram excessivas. Uma metáfora, uma breve alegoria, nunca uma ironia, abriam nos outros uma alma agradecida.

Durante anos meditara olhando as areias do deserto. Abandonara a cidade cansado de si, exaurido por uma vida que crescia em insignificância, deixando tudo e todos para se entregar ao vazio que a monotonia do deserto lhe dava. Nos primeiros anos, um mundo de interrogações e incertezas assaltavam-no e cobriam de dúvidas o espírito ainda inquieto. Um dia, ao olhar um grão de areia, viu-se a si mesmo e descobriu a verdade que o habitava. Ele era aquele grão ínfimo de areia, que o sol iluminava e o vento arrastava a seu belo prazer. Pela primeira vez amou em si este ser marcado pela irrelevância e destituído de qualquer poder. Era um grão de areia perdido no universo e isso bastava-lhe. Ao chegar à cidade, foi esse grão de areia que ofereceu aos outros e a quem estes, sem saber a razão, ofereciam, reconciliados, o doloroso segredo das suas vidas.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Meditações taoistas (8)

Mistério que se renova no mistério
porta de todo o deslumbramento…

Lao Tse, Tao Te King, I


Um súbito rumor, a sombra que desliza, a tarde silenciosa debruçada para o mar. Caminho sobre a areia molhada e fria, caminho na solidão ferida pelas algas marítimas, caminho preso ao abismo. Sento-me sobre uma rocha e olho o mar, o vaivém das águas, o destino das gaivotas sobre o oceano. Contemplo a reverberação da luz solar, os infinitos raios que se desprendem da agitação marítima, formam figuras leves e aladas, que a atmosfera traga com um lampejo de cinza, deixando no ar uma promessa de saudade, o vazio daquilo que não mais voltará.

Levanto-me e os teus olhos esperam-me silenciosos, olhos que nunca vi e que abrem um sulco na minha alma, rasgam-me a carne até sentir o ventre pulsar e uma agonia obscura a dançar no centro do coração. Olho esses olhos e tudo se dissolve, a areia molhada, o vento marítimo, as ondas que desenham mapas no areal, o oceano desmemoriado e cruel como a vida. Cada instante, um prenúncio de eternidade, o desenho de um mistério que se esconde no mistério de um olhar, a vertigem que faz desabar o mundo para o reconstruir na palidez de uma face, na trama urdida de uma alma.

Sou agora uma estátua, carne petrificada e suspensa do lago infinito onde os meus olhos se perdem, mármore branco de onde toda a cor foi sugada para se perder no fundo que se oculta no fundo de ti. Perdi a memória e a noite escura que, mal os olhos se tocaram, caiu sobre mim é uma girândola de fogo, um vulcão em erupção, a luz de mil sóis que se abrem como uma porta para iluminar o mistério da noite. Trazes em ti a água de todos os oceanos, o perigo de cada ondulação, a dor de todos os naufrágios. Cego, deixo que a negra luz dos teus olhos ondule no sangue e desenhe um uivo selvagem no silêncio da voz. Deslumbrado, entro no mistério desse olhar e já não há noite nem dia, não há luz ou trevas, apenas o mistério de um rio que, silente e invisível, corre da tua para a minha solidão.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Meditações taoistas (7)

A rectidão suprema parece sinuosa.

A habilidade suprema parece desajeitada.

A eloquência suprema parece balbuciante.
Lao Tse, Tao Te King, XLV

Sentou-se no silêncio do deserto e esperou pela noite. A areia escaldante do meio-dia tornava-se, a cada hora, mais fria e o corpo esquecia o calor e mergulhava na recordação longínqua dos invernos tempestuosos da montanha onde nascera. Olhava as estrelas no firmamento e lembrava-se das velhas histórias de Zenão, o eleata. Nas primeiras horas, considerou a remota hipótese de um dia Aquiles ultrapassar a tartaruga e vencer essa eterna corrida. Meditou na linha recta e na sinuosidade da curva, mas em todas elas a tartaruga já abandonara o lugar onde Aquiles, lépido, poisava o alado pé.

Para vencer o sono que a noite trouxera, abandonou Aquiles e a tartaruga ao seu destino e contemplou a flecha que, voando, estava em repouso. Parece desajeitado o arqueiro que lança tal flecha, mas isso é apenas uma ilusão trazida pela precipitação dos frágeis e enganadores sentidos. Na verdade, não há mais perigoso guerreiro do que aquele que, pegando com suavidade no arco, lança a flecha que imóvel se move, nunca trocando o aqui por um ali. Assim, vê cair o inimigo abatido não pelo projéctil que lhe entra no corpo, mas pela infinita visão da imóvel flecha que o matará.

Quando a noite começou a entregar-se nos braços da aurora quis esquecer os paradoxos do eleata e deixou a consciência mover-se para o passado. Lentamente, recuou na sua vida. Em todas as etapas, porém, assaltavam-no visões de Aquiles e da tartaruga ou da flecha que voando repousava eternamente. Descobriu que, impulsionado por tais paradoxos, se entregara, nos dias de maturidade, à eloquência. Nos anfiteatros e nas praças, via-se a discorrer sobre o mundo e os seus negócios, por vezes sobre os seus segredos. Um rio de amargura atravessou-lhe o peito e, fugindo da dialéctica, entrou na pátria da infância. Chegou ao tempo das primeiras letras, depois aos despreocupados dias onde os deveres não lhe reclamavam a vida. De súbito, sentiu o instante onde as primeiras palavras lutavam contra a insensatez da língua e saíam, balbuciantes e incrédulas, para a rua. Nessa hora, um raio iluminou-o por dentro, ergueu-o, translúcido, sobre as areias do deserto, enquanto o Sol rasgou o horizonte e a luz anunciou o novo dia.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Meditações taoistas (6)

Quem procura modificar o mundo,
Vejo, não o conseguirá.
O mundo, como o espírito, não pode ser modificado.
Quem o modela, destruí-lo-á.
Quem o possui, perdê-lo-á.
Lao Tse, Tao Te King, XXIX

Também Orfeu, filho de Eagro e Calíope, julgou um dia poder arrebatar da morte Eurídice, a sua amada. Desceu aos infernos e, entre espectros e fantasmas, armado da lira e do canto quis sobre a morte fazer reinar as leis do amor. Rendeu-se ao seu canto Tântalo, o supliciado, rendeu-se Sísifo cansado de tanto rolar a enorme pedra montanha acima, renderam-se as Euménides, fúrias devastadoras em cujos olhos o canto de Orfeu fez crescer uma água sem fim, rendeu-se, por último, Perséfone, a rainha das trevas, administradora dos mortos, deusa severa de olhar frio como as noites de Janeiro.

Por um momento, no coração de Orfeu, na parca esperança dos homens, tudo foi possível: um mundo novo emergira no ânimo das gentes e era agora uma matéria plástica dada à ávida fabricação de cada um. Aquele queria um rio azul de águas claras, o outro, a neve branca como o sal, um outro aspirava a um reino onde a luz fosse eterna. Orfeu, porém, apenas desejava Eurídice, a ninfa de pele suave que um dia em suas mãos suspirara.

Perséfone, a voz da álgida necessidade, uma condição prescreveu para entregar à vida a mais bela sombra que habitava o reino da morte: "Eurídice será livre das cadeias mortais, se tu, Orfeu, enquanto atravessares o meu reino não virares a cabeça para trás em busca do olhar doce de Eurídice. Se o fizeres, ela perder-se-á para sempre." Animado de esperança, ele assentiu, e iniciou a longa jornada de regresso. Mas Orfeu já era apenas um mortal, uma sombra adiada.

Esquecera as águas de manchadas negro pelo homem que um dia desejou um rio azul de águas claras, esquecera o enxofre semeado por aquele outro que sonhara com a neve branca como o sal. Da sua memória desaparecera mesmo aquele homem que extinguiu na cidade, onde com tanta veemência proclamara um reino de luz eterna, o último raio de sol. No coração de Orfeu, inscreveu-se um aguilhão insuportável, um anseio sombrio de reter em suas as mãos de Eurídice. Nesse instante, a amada tornou-se, presa ao desejo daquele que a conduzia, na sombra de uma sombra, iluminada pela luz negra que do olhar de Orfeu se desprendia.

domingo, 25 de novembro de 2012

Meditações taoistas (5)

Retornar à raiz é instalar-se na quietude;
Instalar-se na quietude é reencontrar a ordem;
Reencontrar a ordem é conhecer o permanente;
Conhecer o permanente é a iluminação.
Lao Tse, Tao Te King, XVI

Onde a imensa árvore lançou raízes brotou um mundo ambarino de estrutura dócil e suave. Homens e mulheres tinham abandonado as florestas e entregavam-se naqueles dias a uma vida de devaneio. Uns buscavam um sítio onde recompor a alma, outros, uma esperança, uma ilusão, ténue que fosse, que os mantivesse à tona da existência. Era o reino da desordem, um caos amarelo violáceo, um lugar de dor e perdição: as mulheres não tinham filhos e os homens esqueciam os rituais de caça. Assolado por tempestades sem fim, o céu deixara de ser refúgio para aqueles que para o alto ainda olhavam.

Quando Dezembro chegou com os seus imperativos, um homem, que em tempos aspirara percorrer os mares, sentou-se debaixo de uma árvore. Veio o frio e a chuva, depois nevou. Ele todavia continuou no seu lugar. Um pássaro bravio poisou na sua cabeça e mais tarde aí nidificou. Enquanto o homem permanecia na sua quietude, uma ordem suave, feita de luz, construiu-se à sua volta. No inverno seguinte, as mulheres amamentaram os primeiros filhos, os homens reaprenderam as artes da caça e descobriram como cultivar os campos. Um rei justo governou sobre todos eles.

Debaixo da árvore, uma árvore com forma humana lançou profundas raízes. Em cada solstício de Inverno, iluminadas por gigantescas fogueiras, as mais belas raparigas do reino inundam com leite e mel, como se de um banquete nupcial se tratasse, aquele homem que um dia, por decisão inviolável, se tornou na terra a árvore do paraíso.

domingo, 18 de novembro de 2012

Meditações taoistas (4)

Produz sem se apropriar,
age sem nada esperar,
acabada a sua obra, a ela se não prende,
e porque a ela se não prende
a sua obra permanecerá.
Lao Tse, Tao Te King, II

Um dia, depois que a morte consumou as suas vidas, Heraclito, o efésio, e Parménides de Eleia sentaram-se a uma mesa circular. Não sorriram, tão pouco trocaram palavras. Apenas um breve olhar de desdém assomou na fronte dos dois contendores. Tinham esperado demasiado por aquele momento para que perdessem tempo com coisas inúteis a que só os vivos dão valor. As obras que escreveram há muito que haviam partido das suas mãos e, como fragmentos de tijolo presos à avidez dos arqueólogos, foram entregues à rapina sôfrega dos que vivem de cadáveres esquartejados. 

Chegara a hora da vingança. Impelidos por idêntico sentimento, cada um lançou sobre o tampo verde da mesa um belo dado de marfim. Vencerá a imobilidade de Parménides ou o perpétuo movimento de Heraclito? Das mãos de Parménides, solta-se o dado e, como que sustido por rede inviolável, imobiliza-se no ar retido pela necessidade de eternamente ser o que é. Quem, porém, viu o lance do efésio pensou descobrir no ondular de seus braços o fluxo eterno da água que passa: o dado caiu sobre a mesa e rola ainda hoje, num caminhar sem fim, sobre o verde tampo que o suporta. Presos nas obras que um dia fizeram, os corações daqueles homens tornaram-se uma paisagem sombria, um lugar de azedume e incerteza. Enquanto assim for, os maléficos sonhos por eles, na aurora do mundo, sonhados não deixarão de aterrorizar as noites e os dias que, na sua sombra, viveremos.

domingo, 11 de novembro de 2012

Meditações taoistas (3)



O ensino sem palavras
A eficácia do não-agir
Nada poderá igualar-se-lhes.
Lao Tse, Tao Te King, XLIII

De súbito as palavras secaram na boca, quebraram-se em sílabas que se desfizeram letra a letra. Na areia da língua, no pó vocálico que então se desprendeu, cresceu uma radiação infinita. Não foi um milagre, nem os deuses desceram sobre a terra. Apenas um silêncio fulgurou iluminando as folhas do castanheiro, as ervas bravias que, como dedos de cimento, cresciam pelas bordas dos caminhos. Vinda pela estrada, a mulher estancou, aspirou com suavidade o ar da manhã e desfez-se lentamente das roupas que a cobriam. Era um corpo silente que se desnudava, que se abria ao pó da terra, ao afago do vento marítimo. Naquele instante, o mundo recomeçava a sua caminhada e tudo era, aos olhos incendiados de Eva, novo e sem finalidade.

Sentado no centro do universo, Adão olhava os seios de Eva, o corpo suave que a eternidade agora lhe restituía. Não esboçou um gesto, nem uma palavra cintilou na sua boca. Uma aragem fresca tocou ao de leve o corpo da mulher, eriçou por breves instantes os pêlos do púbis e perdeu-se na planície sem fim. Frente a frente, homem e mulher fitavam-se e, em alguns momentos, lágrimas afloraram-lhes aos olhos. Adão aprendera a inutilidade de todo o gesto e Eva, tranquila, abraçava-o. No quieto silêncio que os habitava, deixaram que as bocas se tocassem. Abriram-se então as portas do Jardim do Éden e Deus, mudo e plácido na sua sabedoria, sorriu quando o silencioso corpo de Eva pela quietude de Adão foi tomado.

domingo, 4 de novembro de 2012

Meditações taoistas (2)

                    Assim o santo deseja o sem-desejo.
                    Não aprecia os tesouros cobiçados.
                    Aprende a desaprender.
                    Lao Tse, Tao Te King, LXIV

Quando da noite apenas a sombra se alcança e um rumor de afilados dedos estala sobre a pele, o corpo, a rasgada parede sobre o abismo, abre-se à sua lenta extinção. As células entregam-se à voracidade do fogo, ardem como querubins azuis em noites de estio. Vacilantes, jogam-se umas contra às outras, restolho esquecido pelos campos de trigo, erva outrora verde e agora penugem amarela por pássaros esquivos ponteada.

Ter corpo é não ser anjo, nem deus, nem luz, nem sopro. Ter corpo é apenas ter corpo, os ossos presos na sua solidez, a pele equívoca onde o olhar se vela, músculos flutuando ao sabor das mãos. Aí, onde a carne é tão tocável, germina uma ânsia, um pudor demasiado frágil para que a inquieta respiração não o dissolva, o quebre e o deixe suspenso na fria memória. Depois, como uma voragem, o desassossego de aprender instala-se no coração, envenena o olhar, destila um álcool inebriado pelas faces até que a voz, inóspita e branca, ressoe no deserto. Quem escutará?

Se um dia uma árvore disser "eu sou uma árvore" e um cão latir o seu nome, o que ficará por saber? Nem a luz, nem a noite, nem a sombra. Restará apenas ao cansado viandante desfazer as malas que o atam à viagem e deixar que a luz, e a noite, e a sombra se extingam. No incolor de todas as cores, no insonoro de todos os sons, navegam barcos informes. Neles, ardem marinheiros bravios que, como dedos perdidos em corpo de mulher, só a desaprender aprendem.

domingo, 28 de outubro de 2012

Meditações taoistas (1)


Aquele que possui em si a plenitude da virtude
é como uma criança recém-nascida:
os insectos peçonhentos não o picam,
os animais selvagens não o esfacelam,
as aves de rapina não o arrebatam.
Lao Tse, Tao Te King, LV

Ao abandonar a casa paterna, Jeremias vogou pelo mundo, teve ambições e desejos, amou, perdido no restolho das searas desfeitas, mulheres extraviadas, enlouquecidas pelo setentrião. Assim se fez homem. Da casa do pai, sentiu, nos dadivosos dias de inverno, uma lembrança fugaz quando um raio de sol lhe tocou os cabelos. Caminhou como um homem caminha, os pés assentes na terra, os olhos presos a uma ilusão. Noites houve em que parecia sucumbir, mas a alvorada vinha de imediato iluminá-lo com a promessa de novas esperanças e ilusões.

Passaram dias e anos. O medo da dor e da morte cravou-se-lhe como um espinho no coração. Agarrava-se, por essas alturas, à pele frágil que o amor das mulheres lhe enviava, aos lugares do mundo onde o reconheciam. Descobria sempre a solidez do homem maduro que a vida dele fizera. Quando, em chuvosa noite de Outono, a serpente lhe armadilhou o caminho, nada do que tinha aprendido lhe serviu para coisa alguma. A morte visitava-o e, encurralado, entregou-se ao jogo da seu próprio fim. Como uma criança gritou: "uma serpente não pode deixar de ser uma serpente. Cumpre a tua função!" Uma súbita luz tomou conta de Jeremias e ele sentiu os primeiros afagos da sua mãe. Era agora um menino frágil e indefeso, aberto aos perigos que a morte à vida trazia. A serpente, porém, enrolou-se sobre si e um silvo lamentoso ouviu-se por todo o oceano.

Jeremias voltou então ao lugarejo onde nascera. Por vezes, descia à cidade e como uma criança sonâmbula olhava os abutres e as hienas que por lá vogavam. Siderado, sorria e na inocência redescoberta pensava: "a hiena não pode deixar de ser uma hiena e o abutre deve procurar cadáveres. É a sua natureza!" Protegido por essa sabedoria, voltava à casa que o vira nascer.

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Descobri uma série de textos, exactamente seis, escritos no ano de 1999, designados meditações taoístas. Constam de uma epígrafe retirada do Tao Te King, de Lao Tse, e um texto da minha autoria que pretendia ser uma glosa feita a partir do ponto de vista das tradições ocidentais. Há duas coisas que não consigo recordar. Não sei se estes textos foram publicados, na época, no Jornal Torrejano. Também não me recordo por que não passei de seis, pois encontrei o início do sétimo. Verei, no decurso da sua publicação aqui, se continuarei, passados treze anos, a série ou não.