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domingo, 27 de outubro de 2013

A idade indecisa

Pablo Picasso - Anciano sentado (1971)

O actual modo de vida está tão carregado de contradições que, quando menos se esperar, o espectáculo da sua ruína não poupará a sensibilidade de ninguém. Não me refiro às velhas contradições que Marx viu no desenvolvimento do capitalismo. Refiro-me a outras mais radicais e que são fruto do desenvolvimento das sociedades modernas. Por exemplo, a questão da idade da reforma. Em Portugal vai aumentar para 66 anos. Percebe-se a intenção do governo. Protelar a hora em que alguém, deixando de trabalhar, vai viver dos sistemas de pensões, para os quais aliás contribuiu. Se o interesse do Estado, enquanto gestor desses sistemas, é obrigar a reformas cada vez mais tardias, o interesse da sociedade civil é o contrário. Por um lado, as empresas não podem ou não querem manter trabalhadores que, devido à idade, terão menos capacidades para se adaptarem a um ritmo ininterrupto de mudanças e inovações. Por outro, as novas gerações necessitam que as mais velhas se reformem para poderem ocupar os seus lugares. O que vai acontecer às pessoas com essa idade indecisa, cada vez um fatia mais substancial da sociedade, para as quais a sociedade civil já não encontra préstimo e o Estado impede de se reformarem? O suicídio tornar-se-á um dever moral?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Dadaístas do dinheiro

Kurt Schwitters - Blue Ribbon (1930)

Esta colagem sobre postal, de Kurt Schwitters, é um exemplo da arte Dadá. Não já do dadaísmo inicial, que teve os seus começos no Cabaret Voltaire, na Suíça, em plena primeira Grande Guerra, mas de um dadaísmo tardio. O dadaísmo, com o seu apelo ao aleatório e ao irracional, com a sua contestação da ordem artística normativa, bem como com a sua crítica ao artista burguês e convencional, acabou por persistir muito para além do próprio movimento. A irracionalidade e o desafio da convenção tornaram-se características centrais da persona do artista e das correntes artísticas do século XX.

Dadá é uma contra-arte e uma contínua provocação à ordem estabelecida. Podemos ser ingénuos e pensar que nos encontramos perante um desafio à ordem burguesa e ao sistema capitalista que conduziram o mundo para uma guerra cujas proporções nunca tinham sido vistas. Mas se queremos perceber muito do que se passa no mundo de hoje, a desordem que assola a vida dos homens, a irracionalidade de muito do que acontece, então teremos de olhar o dadaísmo não apenas como precursor de múltiplos movimentos artísticos, mas do próprio desenvolvimento da economia mundial.

Quem quiser compreender o desenvolvimento do capitalismo actual terá de esquecer aquela visão do burguês sério e preso à norma, esse burguês que procura ainda a sua legitimação social e política. Hoje os homens que gerem a economia financeira são uma espécie de artistas inconformados, que hostilizam a racionalidade e a norma. Na verdade, são dadaístas do dinheiro. A insipidez das classes médias, a sua prisão a normas e convenções, ou a necessidade de protecção colectiva das classes populares recebem o desprezo e o riso irónico desta gente.

Tudo se tornou jogo, ironia, riso sardónico. Se o comum dos mortais aspira à racionalidade da vida, os actuais senhores do mundo gostam do irracional, do imprevisível e do risco. O mundo dos nossos dias é aquele em que o burguês se tornou artista inconformado e caprichoso, e a plebe se rendeu à tranquilidade da vida normal e previsível. Muito do que se passa e que nos afecta tem a sua origem na atitude Dadá que tomou conta da finança mundial. A suprema ironia é que os agentes desta gente sejam pessoas tão insípidas como Passos Coelho, para dar um exemplo paroquial. Mas o humor foi coisa que os dadaístas sempre cultivaram.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Falhar uma grande carreira

Ernst Barlach - Prophet Writing (1919)

Por motivos que não vêm para o caso, fui aconselhado, e muito vivamente, a estudar economia. Eram bons aqueles tempos para quem se decidisse por tal caminho. Mas com o pouco sentido das coisas que me caracteriza, dispensei o conselho e, dando vazão aos meus instintos mais primitivos e contraditórios, decidi estudar filosofia, porque - veja-se a incoerência - me interessava a literatura (meu Deus, o que se pode esperar de alguém que se interessa por literatura e filosofia?). Quando vejo, porém, coisas como estas (o economistas-chefe da OCDE dizer que não é tempo de complacências) quase me arrependo por não seguido o vivo - e aliás desinteressado - conselho. Porque ser economista é muito mais do que ser economista. 

O economista é uma entidade metafísica (um espírito? um espectro? um fantasma?) que exerce, sem precisar de consentimento superior, a actividade profética. Profetiza números e taxas, caminhos a seguir e a evitar. Ora, se tivesse estudado economia, faria parte do coro dos profetas e arengaria por jornais e televisões. Nas minhas palavras haveria conselhos e ameaças, muita moral para que o futuro nos chegasse sorridente e para evitar castigos maiores pelas imoralidades presentes. E se as minhas profecias falhassem, como têm tendência a falhar as dos economistas? Não seria isso um verdadeiro descalabro para a hipotética reputação? Por Toutatis, não sou assim tão ingénuo. Como qualquer economista, falaria em linguagem cifrada e nunca esqueceria de referir o carácter conjectural da realidade. Pois quando as profecias de um economista falham, não é o profeta que se engana, mas a realidade que está errada. Acho que falhei uma grande carreira.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O riso do algoz

(Imagem do Público)

Parece que o FMI anda em cruzada de arrependimento. Chegou à conclusão de que muitas das suas políticas estavam erradas. Parece ser um louvável acto de contrição. Parece, mas não é. Em primeiro lugar porque houve muita gente - entre essa gente contavam-se economistas de primeira linha - que mostraram que as políticas estavam erradas e que teriam efeitos catastróficos. Os economistas do FMI foram avisados, mas, surdos e cegos pela ideologia, fizeram orelhas moucas e vista grossa. Isto, todavia, não é o mais grave. O mais grave está no lado das vítimas das políticas do FMI. Está nas pessoas que morreram, arruinaram a saúde, perderam o emprego, viram as suas empresas ir à falência, tiveram que emigrar, viram os filhos impedidos de estudar, etc., etc. etc., devido às políticas impostas pela organização. Ninguém responde por isso? Numa organização sempre tão disposta para a avaliação e aplicação de penas e castigos, não se aplica a ela e aos seus técnicos aquilo que se impõe aos outros? Este acto de contrição, visto do lado das vítimas, parece ser o eco do riso do algoz. 

terça-feira, 28 de maio de 2013

O custo dos baixos salários

Isidre Nonell Monturiol - Abatimento (1905)

Há dias, motivada por uma troca de palavras, num programa televisivo, entre um jovem empresário de 16 anos e uma conhecida historiadora, a nação inteira foi confrontada com o dilema se valeria mais ganhar o salário mínimo ou estar desempregado. Os blogues incendiaram-se, a direita liberal aproveitou a oportunidade para achincalhar a historiadora (na verdade, ela tinha feito uma coisa imperdoável para os liberais, tinha  mostrado que o Estado Social era pago pela massa salarial dos trabalhadores e não pelos impostos), teceram-se loas aos jovens empresários. Todos ficaram com a consciência tranquila perante a existência de salários miseráveis.

Contudo, estas coisas têm um preço. Na verdade, o preço é pago por todos. O ano passado mais de metade das famílias (56,42%) não tinha rendimentos suficientes para pagar IRS. Temos assim dois problemas. Por um lado, a maioria das famílias está à beira da indigência, devido aos salários baixos. Por outro, o esforço pedido aos outros cidadãos é maior do que deveria. A estratégia dos baixos salários, que tanto entusiasma os nossos liberais empreendedores (muitos deles funcionários do Estado), é, de facto, uma dupla injustiça. Injustiça para quem trabalha e não se vê condignamente compensado e injustiça para aqueles que pagam impostos, que pagam por si e por aqueles que não podem. Há qualquer coisa que não funciona neste país.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Papa e o capitalismo selvagem

Joaquín Mir - Pobres (1899)

O Papa Bergolio, Francisco, parece não ter vocação para eufemismos. O que tem a dizer não o disfarça e, de uma forma clara e distinta, sabe traçar aquela linha vermelha que separa o bem do mal. Hoje, numa visita a uma instituição de caridade da Igreja Católica, não se coibiu de afirmar que "um capitalismo selvagem ensinou a lógica do benefício a qualquer custo, de dar para receber, o lucro sem olhar para as pessoas... e os resultados vêem-se na crise que estamos a viver". De uma forma clara, a Igreja Católica, talvez pela primeira vez na sua história, toma a questão da pobreza do ponto de vista do sistema que a produz. Os pobres não são apenas aqueles que necessitam do amor caritativo - embora, também precisem -, são agora, na linguagem do Papa, as vítimas de um sistema económico injusto e moralmente ínvio. 

A Igreja Católica não é uma instituição política e, por isso, a sua acção não é, nem deve ser, política. A Igreja, todavia, tem uma dimensão espiritual e moral. É seu dever denunciar e deslegitimar o mal, mesmo quando este se apresenta como uma potência organizada e dominadora do mundo. E o mal está nesse capitalismo selvagem, síntese orgânica do egoísmo e da avidez dos homens. Do ponto de vista social e político, estas intervenções do Papa Bergolio não deixam de ser cruciais, pois contribuem para tornar manifesta a repelência moral do sistema económico mundial e da ideologia que o sustenta, uma teorização justificativa do pior que há em nós. Para que seja possível parar a barbárie crescente, é necessário que as pessoas percebam claramente a maldade moral que se esconde no sistema económico mundial e nas políticas que o sustentam. O contributo do Papa Bergolio não é, por certo, dos menores.

domingo, 12 de maio de 2013

A nossa tragédia

Jaime Colson - Modelo de catarsis (1932)

Há uma diferença essencial entre as tragédias clássicas gregas e a situação trágica em que vivemos. As primeiras, segundo Aristóteles, tinham como função purificar, nos espectadores, os sentimentos de terror e de piedade, um contributo para a vida cívica. No caso português, ou europeu, a tragédia não é qualquer coisa que o espectador observe sentado num anfiteatro, onde assiste à inevitável e pré-anunciada perda do herói trágico. O espectador ocupa agora o centro da acção trágica e vê-se a si-mesmo a perder-se nos meandros escabrosos que a hybris de politicos, banqueiros e economistas lançaram o país. Nesta tragédia, não há espectadores que possam purificar os sentimentos de terror e piedade. O que temos é uma multidão que se dirige para um destino fatal, uma multidão cada vez mais aterrorizada que, em murmúrios ou em altos brados, não tardará a clamar por piedade.

domingo, 24 de março de 2013

Brincar às destruições criativas

Henri Regnault - Execution Without Trial (1870)

O chefe de missão do FMI para Portugal é, como a generalidade dos técnicos da troika, um patusco. Ignorante da história do país, desconhecedor completo da realidade que vinha, sem processo de julgamento, sentenciar, acolitado por um governo nacional tão ignorante como ele, este senhor, depois de ter ajudado a dizimar centenas de milhares de empregos e de ter destruído milhares de empresas, vem dizer que a evolução do desemprego em Portugal é infeliz, que é mesmo muito pior que o esperado. Esqueceu-se de dizer que houve muita gente que avisou que as medidas adoptadas só poderiam levar onde têm levado.

O mais interessante, porém, é as suas lamentações perante o facto das telecomunicações e a energia não terem descido de preço. Vale a pena reproduzir as palavras do senhor Abebe Selassie: "Penso que o principal objectivo para os preços da electricidade, das telecomunicações e de outros sectores não transaccionáveis é se estão em linha ou começam a cair à medida que a concorrência aumenta ou a procura diminui. Até agora não o estamos a ver e isso é muito decepcionante. Se não responderem às condições económicas penso que definitivamente teremos de olhar para o que o se passa e revisitar as reformas".

Como é possível dizer coisas destas? Quem conhece minimamente a história de Portugal sabe perfeitamente que isto era o mais previsível. Sempre que se liberaliza qualquer coisa, sempre que o Estado deixa de intervir, os serviços pioram e os preços aumentam. Tanto na cabeça do governo português como na destes senhores a realidade - histórica e geográfica - não conta para nada. Pensam que o capitalismo se desenvolve em todos os lados da mesma maneira (deveriam ler o John Gray). Pensam que a história não interessa nada para compreender a economia, coisa que um conjunto de idiotas com lugar cativo na opinião não se cansa de proclamar. Depois têm surpresas.

Portugal está entregue a uma turba de técnicos ignorantes e de governantes sem o mínimo sentido da realidade. A dor inútil que essa gente espalhou é enorme. Como salientava o Expresso deste fim-de-semana, os 23,8 mil milhões popupados em medidas de austeridades apenas diminuíram pouco mais de 6 mil milhões no défice do Estado. As políticas do governo e da troika destruíram 17 mil milhões de euros. É o que se chama brincar às destruições criativas.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Brincar com o fogo

Paul Klee - Fire ande Death (1940)

A agência de rating Standard & Poor's alerta para o risco de implosão social na zona Euro devido ao elevado desemprego. Também há dias, depois de ter dito que os demónios da guerra na Europa continuam a existir, o primeiro-ministro luxemburguês e antigo chefe do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, alerta para o risco de revolta social na Europa. Em tudo isto há um mistério indecifrável.

Não têm sido as avaliações (e os fundamentos económicos que legitimam essas avaliações) das agências de rating, juntamente com as políticas europeias, mais a retórica anti-keynesiana (de que o nosso ministro das finanças tanto parece orgulhar-se) que nos conduziram ao lugar onde estamos? Muita gente andou a brincar com o fogo e agora admira-se que haja incêndio. 

Os europeus deveriam perguntar-se - e perguntar com ar severo e irritado às suas classes dirigentes - como foi possível passar de uma Europa ainda há pouco tempo orgulhosa da sua paz social e da bonomia dos seus costumes para uma Europa à beira do colapso e da morte.

domingo, 17 de março de 2013

Um assalto e uma traição

Jesús de Perceval - Ladrón (1930)

Enlouqueceram. A direcção política da Europa perdeu completamente a noção da realidade. O confisco de uma percentagem dos depósitos no Chipre não é uma má notícia. É uma prova clara de que a direcção política europeia perdeu qualquer sentido do que são as pessoas, os seus sentimentos e a sua forma de reagir. Nós, portugueses, já sabíamos que as incompetências dos governantes e as trapaças de alguns são pagas, através da confiscação política, pelos cidadãos. Mas isso tem sido feito de forma sorrateira. Aumento de impostos, diminuição de salários acordados, etc. Agora, porém, a confiscação das pessoas é feita de maneira que toda gente percebe que se está perante um roubo. Que elites políticas são as europeias que permitiram impunemnete os desvarios do mundo da finança e que, perante o descalabro a que isso conduziu, assaltam os seus próprios cidadãos? O comportamento das elites políticas europeias só tem um nome: traição aos povos que as elegeram.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Um circo de aldeia

Marc Chagall - Circus in Villlage (1969)

As eleições italianas vieram reforçar, através da distribuição de votos, a natureza irrelevante em que se está a tornar a democracia na Europa. Os eleitores não encontram alternativas em que confiem e votam nos animadores do grande circo mediático. Berlusconi, depois de todos os escândalos em que se viu envolvido, quase ganhou as eleições. Berlusconi, dono de quatro dos cinco canais de televisão italianos, e Beppe Grillo, um comediante convertido a político populista anti-sistema, somam mais de 50% dos votos. Na verdade, desde que o poder se transferiu do Estado para a economia, tudo se transformou num inenarrável circo de aldeia.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

A austeridade está a falhar?

Jackson Pollock - Alquimia (1947)

Na vida normal, um resultado como este (Krugman refere-se à situação na Europa) seria considerado uma confirmação esmagadora da proposição "a austeridade tem um grande impacto negativo". (...) Parece seguro dizer que temos aqui um caso no qual teorias rivais fazem predições diferentes, as predições de uma teoria provam ser completamente erradas enquanto as da outra são totalmente justificadas  mas os aderentes da teoria que falhou, por razões políticas e ideológicas, recusa aceitar os factos. (Paul Krugman)

Estarão os austeritários errados como defende o Nobel da Economia Paul Krugman? Contrariamente ao que afirma, eles não estão errados. Estariam errados se a agenda deles fosse o desenvolvimento da economia e uma maior distribuição da riqueza entre as pessoas. A agenda dos governos europeus e de todos os adeptos da austeridade não é essa, mas destruir a natureza providencial dos Estados, desarticular as classes médias, criar enormes exércitos de mão-de-obra disponível, fazer descer drasticamente os salários, transferir o dinheiro das classes médias e baixas para os muito ricos, aproximar o mercado de trabalho dos níveis desprotecção asiáticos.

A grande questão é que esta agenda nunca é assumida. Esta é a agenda do governo de Passos Coelho, mas não foi com ela que ele se apresentou ao eleitorado. Ninguém diz às pessoas que tem o programa de as tornar drasticamente mais pobres. Mas nota-se a clara satisfação que o empobrecimento das pessoas provoca nos governantes. Mais, é muito interessante que a avaliação das políticas governativas, por parte da troika, seja cada vez mais positiva, enquanto o país se afunda e as pessoas desesperam. A verdade é que o objectivo é esse mesmo.

Não é apenas por razões políticas e ideológicas que os adeptos da austeridade não aceitam que estejam a falhar. Eles não estão a falhar, apenas são moralmente perversos e usam a mentira para manipular as populações.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Mobilização e desenraizamento

Camilo Egas - Trabajadores sin hogar (1933)

Havia que atrair os homens às novas ocupações e, se eles se revelassem inicialmente imunes à atracção e sem vontade de abandonar o seu modo de vida tradicional, a tanto teriam de ser obrigados. (Eric Hobsbawm, A Era das Revoluções, p. 58)

Desde a sua origem, em Inglaterra na transição do século XVIII para o XIX e durante este, que o capitalismo possui duas características que chocam com a longa história da experiência humana. Por um lado, a mobilização; por outro, o desenraizamento. O capitalismo desenvolve-se assente em processos de mobilização totalizante. Mobilização de recursos financeiros, de matérias primas e de seres humanos. A esta conscrição fáctica corresponde um processo de desenraizamento das pessoas, de abandono das sociedades tradicionais e, nos dias de hoje, dos lugares em que nasceram e onde criaram raízes familiares e sociais.

Na história da humanidade foi longo o caminho percorrido para inventar sociedades sedentárias e criar o sentimento de lar e de pertença a um lugar. Mas a experiência deve ter sido de tal forma enriquecedora que, um a um e com raras excepções, os povos foram-se tornando sedentários e ao ganhar raízes num local chamaram-lhe pátria. Numa pátria pensa-se menos o aparelho polítco do que a ligação entre um povo e o território que é o seu. Subjacente à ideia de pátria está a ideia de enraizamento. Foi e é isto que as sociedade de mercado não podem tolerar. Os indivíduos devem estar mobilizados e, para que não se atenham a zonas de conforto, devem continuamente ser desenraizados.

Quando se estuda de perto a Revolução Industrial raramente se dá atenção à longa tragédia, quase sempre silenciosa, daquelas pessoas que foram obrigadas a deixar os campos e o mundo que era o delas para se tornarem operários. O brilho do néon que fulgura na epiderme das sociedades de mercado esconde uma tragédia de infinitos desenraizamentos, de perda de sentido, de redução da vida à servidão mais dura e menos esperançosa que poderia existir. Saliente-se, para os mais distraídos, que isso não é uma coisa do século XIX. É assim na China de hoje, é assim em muitos lados, e também é assim, cada vez mais assim, em Portugal do século XXI.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O bom caminho

Buenaventura Aumatell Tarradellas - Utopia de la libertad (1987)

O que deve ser feito em relação à economia mundial? A globalização contemporânea é inevitável? É desejável? Durará para sempre? Sabemos agora que a percepção que se tinha do capitalismo de 1900 era enganosa. À aparente estabilidade do início do século XX, seguiram-se décadas de conflitos e de grandes mudanças. Hoje, a ordem económica internacional também parece segura, mas dentro da perspectiva histórica isso pode significar apenas um breve interlúdio. (Jeffry Frieden, Capitalismo Global)

Uma das coisas que o livro citado de Friden ensina é a fragilidade daquilo que parece eterno e imutável. Na transição do século XIX para o XX, o capitalismo global parecia inamovível. Ganhara parate substancial da Europa, da América e, muitas vezes a tiro de canhão, abrira os mercados por esse mundo fora. O liberalismo só tinha um destino, tornar-se dominante no mundo. Mas catorze anos depois, com início da Grande Guerra de 1914-1918, vai-se assistir a uma poderosa reacção antiliberal na própria Europa. A vitória do comunismo na Rússia, a ascenção dos fascismos europeus e do nazismo, a crise de 1929, uma nova Grande Guerra, de 1939-1945, para não falar da Guerra Civil de Espanha e outros acontecimentos menos relevantes.

Quando a segunda Guerra Mundial termina, a Europa, ensinada pela experiência histórica, só de forma muito mitigada se liberaliza. É preciso chegar à decada de 90 do século passado para o liberalismo retomar o caminho que tinha sido interrompido em 1914. As almas cândidas - ou aquelas que acham que a história é uma irrelevância - podem julgar que, por fim, estamos de novo no bom caminho. Esquecem que esse bom caminho, no século XX, gerou duas guerras mundiais, o comunismo, o fascismo e o nazismo, tudo filhos bastardos do radicalismo liberal.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Errar as contas

Edgar Degas - Examen de danza (1874)

A senhora Lagarde do FMI brinca sorridente com a vida das pessoas. Descobriu que as previsões do FMI, seita que ela lidara com evidente prazer, estavam erradas e que as consequências das políticas impostas aos países têm efeitos muito mais negativos do que tinha sido dito. Errar as contas não é um mero problema que não se resolve num exame de uma cadeira de licenciatura. Errar as contas é condenar milhões de pessoas à miséria, ao desemprego e a uma morte mais precoce. Como é que toda esta gente é ininputável?

sábado, 18 de agosto de 2012

Um sistema sem saída

Salvador Dali - Explosión de la fe mística en el centro de una catedral (1960-1974)

O sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, neste artigo, coloca, perante a actual crise mundial, a seguinte questão: E se não houver saída nenhuma? A simples hipótese levantada é já um acontecimento  Por norma, discutem-se as saídas possíveis, partindo do pressuposto que, dentro daquilo que se conhece, estará disponível uma saída. É sobre isto que pretendo reflectir a partir de dois exemplos muito conhecidos. Antes disso, contudo, vale a pena ler um excerto do texto de Wallerstein: É um círculo vicioso e não há saída fácil aceitável. Pode significar que não há saída alguma. É algo que alguns de nós chamamos crise estrutural da economia-mundo capitalista. Produz flutuações caóticas (e selvagens) quando o sistema chega a encruzilhadas, sobre que sistema deveria substituir aquele sob o qual vivemos.

Em 1974, a questão da Guerra Colonial, nas ditas províncias ultramarinas portuguesas, não tinha em si-mesma qualquer saída. Nenhuma das partes - com excepção provável da Guiné Bissau - tinha capacidade para impor uma saída à outra. O horizonte conflitual era absolutamente indefinido. Ora a Guerra Colonial inscrevia-se dentro do sistema político português. Como este não tinha qualquer saída para o problema colonial acabou por implodir. O jogo de forças dava-se dentro de um mundo fechado, onde não havia escapatória para as tensões em presença. O 25 de Abril de 1974 é o resultado dessas tensões e, ao mesmo tempo, a explosão do sistema onde elas ocorriam.

No final da década de oitenta do século passado, os regimes comunistas do bloco de leste, com a União Soviética à cabeça, representavam um sistema absolutamente fechado. Um sistema muito maior que o português, mas tão ou mais fechado sobre si que o sistema político nacional. A economia planificada  e sem iniciativa privada mostrara-se um incomensurável flop, o qual, aliado a sistemas políticos rígidos e sem saídas, gerou tensões interiores tão grandes que o resultado foi o que se conhece: a implosão repentina de todo o bloco comunista. Pareciam castelos de areia a ruir.

Ao globalizar a economia, ao unificar todo o planeta ao nível económico e político, o sistema-mundo (para utilizar um conceito grato a Wallerstein) fechou-se sobre si mesmo. Este mundo, onde se dão as flutuações caóticas e selvagens assinaladas por Wallerstein, sofre, apesar da dimensão ser maior, do mesmo tipo de oclusão do que aqueles que atrás referimos. Por que razão deveria ter um destino diferente? As tensões que o percorrem são cada vez maiores. Tensões económicas, ambientais, sociais, políticas e religiosas. Sem saídas de emergência, o destino do sistema é de não ter saída alguma. Isto significará, a prazo, a implosão do sistema e um recomeço fora do sistema-mundo tal como foi pensado e construído até aqui.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Moedas locais

Hans Memling - O homem da moeda (1477-1479)

Desenvolve-se, um pouco por todo o mundo, a prática local de produzir moeda própria dentro de uma pequena ou média comunidade (ver aqui e aqui, e também aqui). São moedas complementares da moeda corrente e têm uma vigência comunitária. Se compreendermos o dinheiro à luz da linguagem, essas moedas podem ser consideradas como uma espécie de dialectos locais, com os quais os membros de uma comunidade se entendem. 

Estas moedas complementares são uma manifestação comunitarista (não confundir com comunista, pois há comunitaristas de direita e de esquerda), como bem se pode ver na reportagem sobre a de Bristol (Inglaterra). São estratégias, para as comunidades mais pobres, de entrada no mundo da troca económica, e para as mais ricas, formas de defesa da economia local contra a erosão imposta pelos mercados de uma economia globalizada. 

A economia globalizada, dirigida pelos imperativos da eficácia e da eficiência, sendo universal, acaba por não pertencer a lado algum, sendo-lhe completamente indiferente o rasto de destruição comunitário que pode deixar, e que deixa muitas vezes, atrás de si. Ora, estas moedas locais reforçam a protecção da economia local, dão-lhe um sopro de vida e podem representar um dique contra os interesses dos grandes grupos económicos.

Mas não haja ilusões. Não se trata de abrir um processo de substituição da moeda corrente por moedas locais, nem tão pouco do prelúdio de um retorno à Idade Média e a mercados puramente locais. Trata-se, antes, de complexificar o sistema e abrir novas oportunidades que o desenvolvimento da globalização tem fechado. Por outro lado, é preciso perceber que os imperativos de eficácia e de eficiência económicas continuam a ser válidos nessas comunidades. Não se trata de substituir o capitalismo eficiente pelo socialismo ou por um capitalismo ingénuo e ineficiente, mas de o democratizar, abrindo novas possibilidades de criação de classes médias e de criadores de bens e de emprego (aquilo que o nosso governo designa por empreendedores, embora não faça a mínima ideia como eles podem aparecer, mas isso é outra história). 

Depois da derrota do socialismo e da economia planificada, o papel da esquerda política não deverá ser o de pensar como se dá vida a um cadáver mas como democratizar o acesso das pessoas à economia de mercado. Acesso tanto como consumidores como quanto produtores (sejam proprietários ou assalariados). Os dados do jogo mudaram e os problemas também mudaram. Estas iniciativas locais são, apesar de serem ainda um fenómeno frágil, respostas interessantes e que merecem reflexão e ganhos de eficiência económica e social.

Um programa político de esquerda não pode, hoje em dia, querer substituir a iniciativa privada de alguns pela iniciativa do Estado, mas criar condições políticas para uma efectiva democratização da iniciativa dos indivíduos e das comunidades. Não deve, porém, esquecer que este localismo não tem sentido em si mesmo, mas apenas como estratégia de integração dos indivíduos e das comunidades na vida global da humanidade.