Estamos a uma semana das eleições europeias. Os portugueses passam
por elas como se não existissem. É possível que a abstenção no próximo domingo
ainda seja maior que em 2014 (66,2%). Não é que a União Europeia seja vista
negativamente pelos portugueses. Ainda não surgiu por cá nenhum movimento
eurocéptico. Os eurocépticos portugueses residem, fundamentalmente, no PCP e,
como se tem visto nestes últimos quatro anos, convivem pacífica e ordeiramente,
senão com secreta e inconfessada aprovação, com a União Europeia e com o
próprio Euro. No entanto, a política europeia – com o impacto que tem sobre o
país – deixa os portugueses indiferentes. Esqueceram-se uns, e não sabem
outros, o que era Portugal antes de ter entrado para a CEE, hoje União Europeia.
Se tivessem um vislumbre do que era o país na altura – ou o que virá a ser se a
União acabar – iriam em massa votar.
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domingo, 19 de maio de 2019
domingo, 12 de maio de 2019
Crise, Professores, Brexit e Venezuela
1. CRISE POLÍTICA.
A questão da contagem do tempo de serviço congelado dos professores foi uma
bênção caída do céu para os socialistas. Deu-lhes oportunidade de se mostrarem
responsáveis, e mostrou uma oposição de direita desorientada, perdida entre o
eleitoralismo puro e duro e, quando confrontada com a reacção de António Costa,
em recuo humilhante perante a opinião pública. Com as tomadas de posição
conhecidas do CDS, PSD, PCP e BE parece que a crise está resolvida. O governo
consegue infligir uma derrota total às pretensões dos professores. Isso dará,
caso o governo não cometa erros graves, muitos votos ao Partido Socialista.
2. A POSIÇÃO DOS
PROFESSORES. Entre a imagem que os professores têm de si e da sua profissão
e aquela que os outros têm vai uma grande distância. As elites (políticas,
económicas, universitárias e sociais) desprezam os professores do ensino não
superior. A plebe democrática varia entre o ódio ostensivo e o ressentimento
surdo. Basta visitar as redes sociais. A longa conflitualidade em que os
professores estão envolvidos não ajuda a sua imagem. No entanto, o problema
está noutro lado. Para as elites, a grande maioria dos alunos que frequentam o
ensino público é descartável e a sua educação demasiado cara. Precisam que eles
estejam na escola entretidos na socialização, mas para isso não é necessário
pagar o que se paga a técnicos especializados (professores) no saber
disciplinar. Quem não acreditar vá estudar as reformas educativas do actual governo.
3. BREXIT. A
saída do Reino Unido da União Europeia está uma salganhada tal que já se fala,
com alguma viabilidade, de um segundo referendo. Por norma, vitupera-se a
irresponsabilidade de David Cameron, a impotência de Teresa May, a duplicidade
de Jeremy Corbyn ou a malvadez dos brexiteers.
Talvez, também aqui, o problema esteja noutro lado, esteja no instituto do
referendo. Como é que uma matéria tão complexa se pode resolver com uma
pergunta com apenas duas respostas? Uma coisa pode-se aprender com o que se
passa no Reino Unido: há que moderar o entusiasmo com os referendos.
4. O AZAR VENEZUELANO.
O azar da Venezuela é ter petróleo. Isso incendeia a imaginação dos
reformadores sociais e abre o apetite às potências deste mundo. O chavismo não passou de um delírio ateado
pelo petróleo. Hoje está na mão dos interesses russos e, possivelmente,
chineses. A oposição, por seu lado, não é melhor. Dividida e dobrada aos
interesses norte-americanos, cujo embargo está a deixar o país na miséria, tem
muito menos apoio popular do que as televisões querem fazer crer. Ter petróleo,
um azar dos diabos.
[A minha crónica no Jornal Torrejano]
sexta-feira, 10 de maio de 2019
A vitória de António Costa
Carlos de Haes, Paisaje con ruinas, 1871
Deu-se hoje o desenlace do drama da recuperação do tempo de
serviços dos professores. António Costa e o governo saem completamente
vitoriosos. Destroçaram a oposição de direita, obrigaram os seus aliados
parlamentares a ajoelhar e recolheram uma enorme propaganda nacional e
internacional. Pelo chão deixaram, para gáudio da plebe que agora vitoria os
vencedores, um corpo docente moribundo, ajoujado a uma derrota humilhante, massacrado pela opinião publicada e afrontado pela opinião pública.
António Costa não agiu por ódio aos professores, como muitos
destes pensam, e não agiu apenas por questões orçamentais e cálculo
político, embora também o tivesse feito. Agiu de acordo com a convicção que
existe nos partidos do arco da governação sobre o papel da educação pública nas
sociedades actuais. Os alunos que existem na escola pública contam pouco e não
se justifica aquilo que custam em ordenados dos professores. O ataque não foi
contra os professores, como estes pensam. Foi contra os alunos que precisam do
ensino público. Se os professores não acreditam, então estudem os célebres
decretos-lei 54 e 55, ambos de 2018. A ideia de uma educação pública de grande qualidade não passa de uma velha ruína.
sábado, 4 de maio de 2019
Um dramma giocoso
Imagem de Il mercato di Malmantile (1758), de Carlo Goldoni
No fundo, esta maneira latina de fazer política não passa de
uma ópera bufa. O pior é que os espectadores também são latinos e, apesar de
dizerem mal dos artistas, o que faz parte do espectáculo, não deixam de gostar
de um dramma giocoso. Tem que se
passar o tempo de alguma maneira.
sexta-feira, 3 de maio de 2019
A democracia cansa
Parece haver uma sombra saudosista da ditadura. Por
enquanto, esse saudosismo é limitado, embora activo nas redes sociais, onde
constrói narrativas delirantes sobre a bondade daqueles tempos. O traço mais
marcante da ditadura de Salazar e Caetano é a consideração que o regime fazia
dos portugueses. Nas perseguições políticas, na censura, na eliminação da
liberdade, mas também nas políticas sociais e económicas, em tudo isso havia um
traço comum humilhante. Esse traço é o paternalismo.
As pessoas não eram consideradas como capazes de dirigirem a
sua vida sem a tutela paternal da ditadura, dos seus chefes e guardas zelosos.
Para além da inegável violência do regime, os portugueses eram tidos e tratados
como crianças sem capacidade de discernir e tomar decisões. Dito de outro modo,
a ditadura tratava as pessoas como menores, incapazes de usar a sua razão sem a
direcção de um tutor, para empregar uma expressão de Kant. Este traço do regime
seria aquele que deveria causar maior indignação e repulsa entre as pessoas.
Quem, sendo adulto, gosta de ser visto e tratado como um menor? No entanto, o
amor à menoridade é um dos trunfos principais com que o saudosismo pode contar.
Viver em democracia é ter de tomar decisões. Viver em
democracia é saber-se responsável pela qualidade dos políticos que se escolhe e
pelas políticas que existem. Viver em democracia é saber que as nossas escolhas
podem sair derrotadas. Viver em democracia é saber lidar com a frustração e ter
claro que mesmo quando as nossas ideias saem vitoriosas isso não significa
esmagar ou perseguir os que pensam de maneira diferente. Viver em democracia
exige que sejamos adultos, responsáveis pela nossa vida e responsáveis pela
comunidade de que fazemos parte. Viver em democracia é muito mais trabalhoso de
que viver sob a alçada de ditadores paternalistas.
A democracia é um exercício cansativo. Exige de nós
responsabilidade e coloca-nos perante a qualidade das nossas escolhas. Não é
por acaso que o saudosismo da ditadura se manifeste em gerações muito novas,
pouco habituadas a viver fora da dependência dos pais. O cansaço com a
democracia toma, muitas vezes, a máscara da repulsa pelas elites políticas.
Isso, porém, é uma forma já de menoridade, de não assumir que se as elites
políticas têm comportamentos pouco aceitáveis isso se deve ao facto de nos
termos desresponsabilizado pela sua escolha e pelo controlo dos seus actos. O
maior perigo para a democracia em Portugal vem do desejo de muitos em
continuarem a ser menores, mesmo quando adultos.
[A minha crónica em A Barca]
terça-feira, 23 de abril de 2019
Sondagens, Marcelo, Anos Sessenta e Notre-Dame
AS SONDAGENS E AS
FAMÍLIAS. As sondagens reflectem já o desgaste que os socialistas estão a sofrer
devido à trapalhada em que se meteram com as ligações familiares na governação.
Pode-se pensar que se nos tempos de Cavaco as coisas chegaram onde chegaram
(num dos governos foram nomeadas para cargos mulheres de onze ministros, para
além de outras ligações familiares), hoje em dia uma situação mais benigna
também não teria consequências políticas. Os tempos, porém, mudaram. A
indisposição dos portugueses com os políticos, as redes sociais e o facto do
governo ser de esquerda. Os socialistas são exímios em fornecerem casos a uma
direita destituída de causas e de políticas. As sondagens são o espelho dessa
generosidade.
A INICIATIVA DE
MARCELO. A iniciativa do Presidente da República ao propor uma lei sobre as
incompatibilidades do Presidente – na sequência das relações familiares no
governo – torna claro que o actual PR tem interesses políticos muito para além dos
afectos e das selfies. Ultrapassando
os limites que a Constituição impõe, Marcelo tenta condicionar a opinião
pública relativamente ao governo e à maioria de esquerda. O PR, no âmbito da
Constituição Portuguesa, não é um juiz, mas um actor político e Rebelo de
Sousa, desde o primeiro momento, assumiu essa sua condição. Parece não lhe
faltar vontade nem criatividade para dar um cunho presidencialista a um regime semipresidencial.
RATZINGER E OS ANOS
SESSENTA. Na recente intervenção de Bento XVI sobre os problemas da
pedofilia que assombram a Igreja Católica, o Papa emérito referiu a cultura
desenvolvida nos anos 60 como culpada pelo afrouxamento dos padrões morais. Isso
teria conduzido à autêntica pandemia de abusos sexuais que têm vindo a ser
descobertos. As reacções de indignação não se fizeram esperar contra a abusiva
ligação entre os dois fenómenos. O que me interessa salientar, porém, é outra
coisa: a incapacidade existente, entre detractores e defensores, para avaliar
as consequências morais da revolução dos costumes dos anos 60, que começaram com
a autorização do uso da pílula e acabaram com as revoltas estudantis de 68 e o
Festival de Woodstock, de 1969.
NOTRE-DAME DE PARIS.
Escrevo enquanto arde a catedral de Notre-Dame de Paris. Num momento como este
torna-se claro que há qualquer coisa que une os europeus. Antes da política e
das peripécias por que passa a União Europeia, e apesar das rivalidades que sempre existiram
entre eles, há um substrato cultural e civilizacional em que todos se reconhecem.
Está a arder perante os nossos olhos uma parte da alma europeia.
quarta-feira, 17 de abril de 2019
Em processo de liquefacção
Gustave le Gray, Bateaux quittant le port, Le Havre, France, 1856
A metáfora da liquidez - a modernidade líquida - usada por Zygmunt Bauman para caracterizar as instituições sociais contemporâneas encontrou um novo exemplo na actual greve dos motoristas de matérias perigosas. Como no caso dos enfermeiros, um sindicato recente mobiliza a classe e coloca o o governo à beira de um ataque de nervos e o país da paralisia. Estamos a assistir à liquefacção das velhas estruturas sindicais com os seus compromissos políticos e estratégias partidárias. Não é claro, porém, que este tipo de liquefacção, mesmo que tenha resultados no curto prazo, não seja, tendo em conta o futuro, uma vitória de Pirro.
domingo, 7 de abril de 2019
Legislativas, Rui Rio, Refundações e Turquia
ELEIÇÕES
LEGISLATIVAS. Ainda há que passar pelas eleições para o Parlamento Europeu,
mas o acto político decisivo só chega com as legislativas. Aquilo que até aqui
parecia inevitável, uma vitória com maioria relativa do PS e uma derrota da
direita, não estará completamente seguro. Os casos da multiplicação de relações
familiares na esfera do governo têm um poder de desgaste maior do que parecia à
partida. E esse desgaste já não se apaga na opinião pública, por mais eficaz
que politicamente possa ser a medida dos passes sociais. Um outro factor
importante é o Verão. Qualquer tragédia na área dos fogos poderá ter
implicações eleitorais desagradáveis para os socialistas. As eleições ainda
estão em aberto.
OS OBJECTIVOS DE RUI
RIO. Parte substancial da direita não gosta de Rui Rio. Não será um condottiero exaltante que galvanize o
povo e dirija uma fronda contra o governo. Também não se apresenta, como
acontecia com Passos Coelho, com o pathos
do ressentimento por ter sido arredado do poder por uma coligação inédita das
esquerdas. Parece ter objectivos mínimos quando diz que o fundamental é afastar
o PCP e o BE da área da governação, para lançar um projecto de desenvolvimento
do país. No entanto, a sua maneira discreta de fazer política levou-o a
presidente da câmara do Porto contra todas as expectativas. Um bom resultado do
PSD nas euwopeiase alguma sorte podem lançar Rio para voos que não se
imaginavam.
REFUNDAÇÕES DA
DIREITA. O deputado do PSD Miguel Morgado criou o Movimento 5.7 para unir a
direita e libertar o país daquilo que ele chama o longo inverno socialista.
Presumo que nessa longa invernia se incluam os governos onde o seu partido – só
ou na companhia do CDS-PP – governaram o país. Esta exaltação liberal tem razão
numa coisa. Do CDS ao PCP, estamos perante variações discretas da
social-democracia. Não ocorre aos refundadores que isso acontece porque a
generalidade das pessoas são demasiado pobres para que se lhes ofereça um
liberalismo puro e duro.
AS ELEIÇÕES TURCAS.
Escrevo quando ainda não são conhecidos completamente os resultados das
eleições na Turquia, mas independentemente dos resultados, parece haver um
forte crescimento da oposição secular a Erdogan e ao seu Partido da Justiça e
Desenvolvimento. Isto sublinha que a questão religiosa foi fundamental na
Turquia enquanto a economia turca estava de boa saúde. Agora que uma grave
crise económica atinge o país, o poder de Erdogan começa a abanar. Os regimes
de pendor religioso suportam as crises económicas desde que a democracia esteja
completamente suprimida. Caso contrário, os eleitores acabam por encontrar
novos caminhos.
[A minha crónica no Jornal Torrejano]
quinta-feira, 4 de abril de 2019
Questões de família
Matias Quetglas, Conversación amorosa II, 1985
Todas estas histórias familiares que assombram o governo são o sinal de que as elites políticas se julgam impunes e acima da opinião da plebe democrática. O problema, claro, não está apenas nos socialistas. Basta recordar o que se passou no tempo de Cavaco Silva para se perceber que o problema é mesmo do arco da governação. No entanto, os socialistas deveriam ter em consideração três coisas básicas. A primeira diz respeito à história do próprio partido na governação e das suspeitas que recaem sobre um antigo primeiro-ministro socialista. Isso indispõe à partida muitos eleitores com qualquer coisa que não seja a dura virtude moral. Em segundo lugar, a direita não tendo causas políticas para fazer oposição, pois a esquerda ficou-lhe com elas, vive de casos e estes casos dão-lhe combustível e votos. Em terceiro lugar, as redes sociais não dão apenas voz à indignação popular. Elas ampliam-na até a tornar ensurdecedora. E não se trata de encontrar um critério claro e uniforme sobre a limitação dos direitos dos familiares de políticos (que bela linguagem), como afirma António Costa, nem de fazer uma lei mais exigente, como pensa Marcelo Rebelo de Sousa. Trata-se de mudar radicalmente de atitude relativamente ao nepotismo generalizado que parece haver no corpo político da nação. Trata-se de perceber que o nepotismo e o amiguismo devem ser banidos da vida política, pois destroem a confiança dos cidadãos nas instituições e destroem o edifício democrático. Governos e autarquias não são sítios para encontros de amigos, passeios de família ou matrimónios felizes. E se acham que não é assim, não se admirem que aparece um dia destes um condottiero que arraste a plebe sedenta de justiça e de vingança.
segunda-feira, 1 de abril de 2019
Fascínio e cegueira
Um dos principais problemas que se levanta a quem quer
conhecer a realidade para lidar com ela é o fascínio exercido pelas palavras. Esse
fascínio logo se transforma em cegueira. É o que se passa no mundo da política.
Veja-se o caso português. A retórica política usada pelos partidos de poder,
mas mais claramente nos de direita, encostava tanto o BE como o PCP à
extrema-esquerda. Como partidos extremistas, não poderiam nunca chegar ao poder
ou sustentar um governo moderado no parlamento. A verdade, porém, é que há
muito as soluções políticas propostas tanto pelo PCP como BE têm um cariz
social-democrata e reformista. A designação de extrema-esquerda cegou a direita
portuguesa e não a deixou perceber a realidade. Foi isso que tornou penoso o
comportamento de Passos Coelho quando a geringonça tomou conta da governação do
país. Ele não compreendia o que se passava porque estava cego pela retórica que
usava.
Esta cegueira não existe apenas em Portugal. Europa fora, a
retórica política está fascinada com a extrema-direita. O rótulo, espera-se,
deverá ser suficiente para afastar o eleitorado desses partidos que estão a
emergir por todo o lado. Pensa-se que basta fazer uma ligação memorial ao
fascismo e ao nazismo para que os cidadãos corram a abrigar-se nos braços dos
partidos tradicionais. Enquanto isso, enquanto se usam rótulos e se apela a
memórias que já são de muito poucos, fica-se cego para o que está a deslocar
largas massas de eleitores para as soluções políticas adversas ao mainstream que tem governado o Ocidente
nas últimas décadas. Ainda há dias as eleições regionais holandesas foram
ganhas pelo Fórum para a Democracia,
um partido recente e, também ele, qualificado como de extrema-direita.
Essas soluções políticas estão a crescer em votos e isso tem
um significado que não se quer ver. Os eleitorados estão cansados e agastados
com o que os partidos tradicionais têm para lhes propor. E isto, hoje em dia,
não diz apenas respeito às questões económicas, embora estas sejam importantes,
mas também às questões culturais e civilizacionais. O conjunto de alterações
provenientes da globalização e as rupturas culturais (as causas fracturantes, por
exemplo) estão a deixar os eleitores inseguros. Os partidos políticos
tradicionais não perceberam que estavam a ir longe de mais, que os cidadãos não
os acompanhavam. Cegos pelo fascínio que a designação extrema-direita exerce,
não viram os eleitores a afastarem-se e a acolher-se nos braços dos que deveriam
não ter votos só porque, num acto mágico, se lhes cola um rótulo e se utiliza
esse rótulo como um mantra.
[A minha crónica em A Barca de Abril]
sábado, 30 de março de 2019
Contributo
Mordecai Ardon, Clown, 1958
Portugal tem resistido até ao momento ao aparecimento em
força de grupos políticos ditos populistas. No entanto, parece que no bloco
central – PS e PSD – se sente uma grande dor pela inexistência de organizações
como o Vox espanhol, o partido da senhora Le Pen, em França, e os múltiplos congéneres
que há por essa Europa fora. Doridos e desejosos do aparecimento da
extrema-direita em Portugal, PS e PSD vão dando os passos necessários para que,
mais dia menos dia, ela apareça. Veja-se esta
história dos deputados-advogados. Aquilo que era um projecto para tornar a
vida do parlamento mais transparente, criando incompatibilidades entre a função
de deputado – fazedor de lei – e advogado ao serviço de interesses privados,
acabou sem honra nem vergonha com a sujeição do parlamento aos interesses dos
negócios. Isto não cria o lugar para a extrema-direita aparecer em Portugal,
mas é mais um pequeno contributo do estimável bloco central. Depois, admirem-se que os descamisados se revoltem contra as elites.
terça-feira, 26 de março de 2019
A família socialista, a democracia comunista, a transferência centrista e o terrorismo
A FAMÍLIA SOCIALISTA. O governo parece um lugar de convívio
de famílias amigas. Não bastava já haver um casal de ministros e um ministro
pai e uma ministra filha desse pai, agora a mulher de um outro ministro foi
nomeada chefe de gabinete do Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos
Parlamentares, cargo ocupado anteriormente pelo marido. É evidente que nada
disto é ilegal nem sequer configura, como já por aí vi escrito, um exemplo de
patrimonialismo weberiano. Trata-se apenas de falta de sensatez e de um
exercício de arrogância política de quem acha que as aparências não são
importantes. Os socialistas não têm emenda.
A DEMOCRACIA SEGUNDO
JERÓNIMO DE SOUSA. A entrevista de Jerónimo de Sousa ao Polígrafo chega a ser confrangedora. Não
apenas se refere a Maduro desvalorizando as acusações de fraude eleitoral, como,
quando lhe perguntam “Porque é que tem tanta dificuldade em admitir que não há
uma democracia na Coreia do Norte?”, responde: “O problema não é esse. O que é
a democracia? Primeiro tínhamos de discutir o que é a democracia”. Será preciso
discutir o que é a democracia para descobrir que a Coreia do Norte é uma
ditadura? Também os comunistas não têm emenda.
A TRANSFERÊNCIA DE
MESQUITA NUNES. Adolfo Mesquita Nunes era visto como uma das principais
promessas políticas não apenas do CDS como do arco da direita e centro-direita
e mesmo do país. Poderia vir a ser, quando o CDS se cansasse de Assunção
Cristas, um sucessor desta na liderança do partido. Inteligente, sensato e de
espírito liberal consolidado. A sua transferência para o mundo empresarial
aniquila-o, na prática, para encabeçar no futuro um projecto político em
Portugal. Não há no acto, claro, qualquer ilegalidade. Mesquita Nunes fez o que
a generalidade dos portugueses fazem. Foi tratar da vida.
TERRORISMO.
Escrevo poucas horas depois do ataque a um eléctrico na Holanda e ainda não há
confirmação oficial de que tenha sido um ataque terrorista, mas tudo leva a
crer que sim. Depois do ataque em duas mesquitas na Nova Zelândia, agora parece
ser a vez da retaliação contra eventuais cristãos. Uma coisa une supremacistas
brancos e fundamentalistas religiosos (sejam muçulmanos, cristãos ou hindus): o
prazer no terror e o ódio à convivência política pacífica entre pessoas com
crenças diferentes. Une-os também as respectivas utopias e a crença de que
podem chegar ao poder através do exercício da violência e do medo. Não vão
parar por aqui.
[A minha crónica no Jornal Torrejano]
sábado, 16 de março de 2019
Um território sombrio
Mari Puri Herrero, El miedo, 1985
Os movimentos supremacistas brancos, com a sua retórica de suposta salvação do Ocidente e do homem branco, são tão repugnantes quanto o fundamentalismo islâmico. O crime perpetrado ontem na Nova Zelândia contra muçulmanos na hora da oração é tão grave quanto os crimes que têm ocorrido na Europa e de iniciativa de radicais islâmicos. Se nos deve preocupar o radicalismo islâmico, talvez ainda nos deva preocupar mais a crescente influência na política ocidental de ideias que raiam perigosamente a defesa da supremacia branca, seja lá isso o que for. Mesmo os brancos ocidentais precisam de comportamentos políticos racionais, defesa da liberdade e do Estado de direito. Neste momento, não há maior causa política do que a defesa do Estado de direito, da democracia liberal e de comportamentos políticos fundados na razão. Fora disso, apenas há um território sombrio onde impera o medo perante o crescimento do terror.
sábado, 9 de março de 2019
Brasil, China, Entre-os-Rios e Novo Banco
1. A doença do Brasil.
Apesar de sermos latinos e de permitirmos coisas inaceitáveis nos países do
centro e do norte da Europa, ainda é difícil para os portugueses compreender a
doença que ataca com virulência inusitada o Brasil. Essa doença tonou-se, mais
uma vez, visível com a morte do neto do ex-presidente Lula da Silva, uma
criança de sete. O ódio e a falta de humanidade que perpassou pelas redes
sociais ultrapassa aquilo que é compreensível na Europa. E, sejamos claros,
nada disso tem a ver com Lula da Silva ter sido, eventualmente, corrupto. Esses
mesmos brasileiros convivem muito bem com políticos mais claramente corruptos e
sobre os quais não recai o ódio que é endossado a Lula da Silva. Uma doença.
2. António Costa e a
China. O primeiro-ministro português está preocupado com uma eventual onda
europeia proteccionista relativamente à China. Argumenta que Portugal tem tido
uma boa experiência com o investimento chinês. Ora é o investimento chinês que
preocupa alguns governos europeus. O assunto é particularmente sensível.
Trata-se de conjugar dois tipos de intencionalidades. Por um lado, a União
Europeia tem advogado o comércio livre. Por outro, os líderes europeus começam
a preocupar-se com a desnacionalização da economia e a perda de controlo
nacional de sectores chaves. Afinal, parece haver um limite, até na União
Europeia, para a sobreposição da economia à política. Até porque isso não
existe na China, onde o investimento no estrangeiro é um acto geopolítico do
Estado chinês e do Partido Comunista, mesmo que António Costa, como aconteceu
com Passos Coelho, finja não perceber.
3. Os dezoito anos da
queda da ponte de Entre-os-Rios. Passados dezoito anos da tragédia de
Entre-os-Rios, onde morreram 59 pessoas, terá o país aprendido alguma coisa?
Certamente que houve incremento nas vistorias. Também é verdade que nenhum país
é capaz de garantir uma vida absolutamente segura aos seus cidadãos. Dito isto,
os casos dos incêndios do ano de 2017 e a derrocada de uma pedreira na estrada
de Borba – Vila Viçosa, em 2018, parecem indiciar que a atitude que conduziu ao
acidente de Entre-os-Rios continua disseminada país fora. Não é apenas uma
questão política, mas também o é.
4. Novo Banco.
Começa a ser cansativo. Depois da Caixa, é agora o Novo Banco a pedir dinheiro
ao Estado. O desenvolvimento do país foi sequestrado pela banca nacional. Esta
que deveria fornecer recursos financeiros ao desenvolvimento da economia, e com
isso ganhar dinheiro, parece ter por finalidade viver à conta de contribuintes
generosos e pacíficos.
[A minha crónica no Jornal Torrejano]
sábado, 2 de março de 2019
O fastio à esquerda
Os parceiros da maioria parlamentar parecem enfastiados uns
dos outros. Poder-se-ia pensar que esse fastio mútuo que os partidos de
esquerda nutrem entre si se deve ao clima político em que vivemos, à
necessidade que cada um sente em marcar terreno e ocupar o maior espaço
eleitoral possível. É verdade, mas não é a verdade toda nem tão pouco a mais
importante. O que se passa é que a esquerda não teve o talento nem o interesse
para produzir uma política partilhada pelas três forças partidárias que a
constituem. O que marcou estes tempos de acordo parlamentar de esquerda foi,
por um lado, uma coligação negativa contra a direita e, por outro, um cálculo
constante de como ganhar votos à conta da distribuição do orçamento de Estado,
jogo que as partes têm denominado como reposição de rendimentos. Como política,
o único adjectivo que me ocorre é miserável.
Com o descalabro a que experiência socrática conduziu o
país, este teve duas oportunidades para olhar a realidade em que vive,
repensar-se e tomar decisões que permitissem enfrentar um mundo instável e
ameaçador. Passos Coelho, enredado num devaneio ideológico liberalizante, optou,
com a ajuda de Paulo Portas, por uma agenda política de perseguição às classes
médias e aos trabalhadores, sem que se percebesse a utilidade, tanto política
como económica, do exercício. António Costa, menos ideológico, viveu sempre na
expectativa de fazer do actual governo a rampa de lançamento de uma futura
maioria absoluta. À sua esquerda a motivação, para além do sarro ideológico,
foi evitar essa hipotética futura maioria dos socialistas. Com tudo isto, o
país perdeu oito anos. Resolveu, temporariamente, o défice, mas fora isso
degradou-se.
Para os eleitores de esquerda esta experiência, se olhada
com frieza racional, tem um sabor meio amargo. Podem ficar agradados por se terem
libertado das idiossincrasias de Passos Coelho, dos seus devaneios ideológicos
e da perseguição às classes médias e populares, mas fizeram a prova da impotência
dos partidos de esquerda para abandonarem as suas crenças mais dogmáticos e
disporem-se a um programa comum que enfrentasse os problemas do país (e não
apenas desta ou daquela classe social) no âmbito dos compromisso em que nos
movemos. Esta é a causa do fastio que tomou conta da esquerda portuguesa, o que
é reforçado pela sensação de que uma repetição desta solução política não
apenas é difícil como é inútil. A esquerda teve uma oportunidade que se apresta,
por falta talento político e de respeito pelos seus eleitores, para deitar para
o lixo.
[A minha crónica em A Barca]
sexta-feira, 1 de março de 2019
O país biface
Pablo Picasso, Minotauro y caballo, 1935
Por vezes, ainda há alguma esperança para este país. É
reconfortante ver que um empresário português, Gonçalo Quadros da Critical Software,
afirmar que o salário
mínimo de 635 € - e este é apenas na função pública – é uma indignidade,
tão miserável ele é. E não é apenas esta afirmação que dá esperança, é a sua
visão do mundo e da vida empresarial. Essa esperança, contudo, diminui de
imediato perante mais uma história bancária. O Novo Banco precisa de uma
injecção de 1,15
mil milhões de euros. O mundo empresarial e financeiro que desde os tempos
de Cavaco Silva foi incensado, agraciado e condecorado deixou o país à porta da
miséria e os efeitos estão longe de serem coisas do passado. O conflito mais
importante que se trava neste momento em Portugal não é entre a direita e a
esquerda, entre patrões e trabalhadores. É entre empresário como Gonçalo
Quadros e aqueles que representam tudo o que está por detrás das agruras por
que passa a banca portuguesa.
domingo, 24 de fevereiro de 2019
Remodelação, Bloco, Greves e Exames
1. REMODELAÇÃO DO
GOVERNO. A importância da remodelação do governo ocorrida no início da
semana é, do ponto de vista da orientação política, tendencialmente nula. No
entanto, ela é da máxima importância para o futuro do Partido Socialista. Dela
ressaltam três nomes que merecem atenção e que, por certo, irão desempenhar um
importante papel na vida política portuguesa. Pedro Marques que deixa de ser
ministro e é o candidato dos socialistas ao parlamento Europeu. Pedro Nuno
Santos e Mariana Vieira da Silva que sobem de secretários de Estado a
ministros. Todos eles com excelente preparação e não menor ambição política.
2. BLOCO DE ESQUERDA.
A dissidência de vinte e seis militantes do BE e a respectiva justificação
vieram confirmar aquilo que toda a gente sabia. O Bloco não é, apesar de alguma
retórica, um partido revolucionário. Desde o início do projecto que ele
representa a social-democratização de antigos trotskistas, estalinistas e
maoistas, uma forma da sua integração no sistema político nacional. E isto não é
tanto uma traição aos velhos ideais, mas a confissão de que eles não fazem
sentido nos dias de hoje. O Bloco de Esquerda representa o triunfo do princípio
de realidade sobre o princípio do prazer (esse grande orgasmo que se espera que
a revolução seja). E foi em nome da recusa da realidade que os militantes
dissidentes bateram com a porta.
3. GREVES NA FUNÇÃO
PÚBLICA. Em ano eleitoral o governo enfrenta uma terrível onda de greves. A
ideia dos grupos grevistas parece ser dobrar o governo às suas reivindicações
para evitar o desgaste político que essas greves implicam. O governo tem
resistido e os grevistas têm replicado com furor. Quem tem razão? Ambos. O
governo tem razão pois o Estado não tem dinheiro para responder às
reivindicações dos seus funcionários. Os funcionários têm razão porque é
inexplicável a imoralidade do poço por onde corre o dinheiro público, desde as
PPP aos sucessivos e intermináveis resgates à banca. As greves actuais da
função pública são também o retrato do desastre da gestão da República nas
últimas décadas.
4. EXAMES E RANKINGS.
Saíram os rankings dos exames nacionais, o que por norma é motivo de grandes
equívocos e de enorme excitação. O Público
foi uma imagem de tudo isso, mas uma imagem cruel. Enquanto havia artigos onde
as escolas com melhores resultados se mostravam ufanas, um estudo muito
consistente de duas universitárias do Porto mostrava uma coisa terrível. Os
alunos que pertencem às escolas – privadas mas também públicas – com melhores
resultados nos exames têm piores desempenhos na Universidade. Sim leitor, leu
bem: piores resultados. O mundo é cruel.
[A minha crónica no Jornal Torrejano]
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
Arnaldo Matos
Morreu Arnaldo Matos. O fundador do MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado) foi uma personagem destacada nos anos conturbados de 1974 e 1975. Não que o seu partido - uma organização maoista construída a partir de estudantes universitários - tenha alguma vez tido qualquer peso eleitoral. No entanto, a sua retórica radical e tonitruante, aliada à origem social dos seus militantes, acabou por ter acolhimento nos mass media da época e faz plenamente parte do folclore que envolveu a intensa luta política que se travou no país. Arnaldo Matos, um advogado madeirense radicado em Lisboa, foi responsável por muita dessa retórica, que enfeitou com uma tropologia rica, fundada num imaginário proveniente da mitologia comunista de inspiração leninista, estalinista e maoista, a qual nunca deixou de enfurecer os seus adversários - a começar pelos social-fascistas (MRPP, dixit) de vários matizes, isto é, o PCP e todos os grupos de extrema-esquerda que não o próprio MRPP - e fez sorrir os que, à direita dos comunistas, acabavam por acolher aquele palavreado trovejante com bonomia, sabendo que dali não vinha mal ao mundo. Com a morte do grande dirigente e educador do proletariado português - era assim que o partido o apresentava - desaparece mais um protagonista daqueles anos quentes. É o fim simbólico de algo que já acabou há muito, aquele tipo de retórica política com a sua grandiloquência, e que muita gente nunca conheceu ou não tem idade para se lembrar.
domingo, 17 de fevereiro de 2019
Ensino privado? Bons resultados em exame?
Voul Papaioannou, Boys playing in the schoolyard, Pireus, c.1945
Este estudo
do Público sobre o desempenho dos
alunos nos exames nacionais e o posterior desempenho na primeiro ano da
universidade, efectuado por uma professora da Católica Porto Business School e
outra da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, pode passar despercebido
devido à agitação que os rankings dos
exames nacionais introduzem entre as pessoas que se interessam pela educação em
Portugal. Os resultados do estudo não são propriamente uma novidade e reforçam
estudos anteriores da Universidade do Porto.
Fica patente que as classificações obtidas em exame
não correspondem ao desempenho posterior dos alunos nas universidades. Duas
ideias parecem claras nos estudos estatísticos efectuados. Os alunos do ensino
privado têm melhores resultados em exame, mas são os que vêm do ensino público
que obtém mais sucesso no primeiro ano da faculdade. O segundo efeito
surpreendente mostra que os alunos que vêm de escolas secundárias –
privadas ou públicas, embora com maior relevância nas privadas – com maiores
médias nos exames nacionais têm desempenhos inferiores aos alunos que vêm de
escolas secundárias com médias de exame mais baixas.
Se noutras universidades os dados forem idênticos, então duas
crenças que têm animado o debate na educação nas últimas décadas estão erradas.
A primeira crença é a da superioridade do ensino privado sobre o ensino
público, tal como é atestado pelos rankings.
O desempenho dos alunos no ensino superior desmente essa superioridade. A
segunda crença é a do papel do exame nacional do ensino secundário no
reconhecimento do mérito dos alunos e da consequente justiça na selecção para
entrada nas universidades. Os resultados parecem apontar para um efeito de
protecção, através dos exames, das elites sociais em detrimento do mérito real
dos alunos.
Caso estes estudos recebam novas corroborações, repito, os exames,
que não são capazes de prever de forma claramente positiva o desempenho dos
alunos na universidade, estão a servir para proteger alunos, por norma provenientes
do ensino privado ou de escolas públicas frequentadas pela elite social, que
são inferiores aos alunos de escolas secundárias com resultados inferiores nos
exames nacionais. Este trabalho das Professoras Conceição Silva e Ana Camanho,
pela importância dos resultados a que chegou, precisa de ser ampliado e
replicado noutras universidades, para se compreender a profundidade do problema
e corroborar ou não as conclusões que mostram que o país está a seleccionar mal
os seus recursos para a frequência do ensino superior e, assim, a cometer
graves injustiças na distribuição de um bem raro.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Cristas, uma ajuda a António Costa
Francis Bacon, Head of a Woman, 1960
Dentro da direita trava-se uma luta pouco surda. Não me refiro ao
aparecimento do Aliança, do inevitável Santana Lopes, nem de outras agremiações
que tentam encontrar um nicho de mercado eleitoral com a ajuda dos ventos que
nos chegam de Espanha. Refiro-me à moção de censura ao governo apresentada pelo
CDS. A única finalidade é obrigar Rui Rio a tomar uma posição. Sabe-se que
o actual presidente do PSD é avesso a este tipo de espectáculo e que duvida, com razão, da sua eficácia. O CDS,
porém, pretende crescer à custa do PSD e não se importa de dar uma mãozinha a
António Costa.
O primeiro-ministro tem tudo a ganhar com a moção de
Assunção Cristas. Se por acaso o BE e o PC, em coligação com a direita,
fizessem cair o actual governo, o PS caminharia para a maioria absoluta sobre o
cadáver do BE e ainda com ajuda de muitos eleitores do PC. Como não é provável
que isso suceda, a moção de censura serve para António Costa mostrar que não
está tão abandonado quanto parece neste momento, em que o governo está a
enfrentar uma onda enorme de contestação social. A moção do CDS é o tónico que o governo do PS estava mesmo a precisar, no momento de maior desconforto e
de ausência de discernimento político.
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