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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Transparência e terror

Raoul Hausmann, Corbeilles de lumière, 1931

A caminho da completa transparência. "Pensamentos" transformados em palavras através de um dispositivo com inteligência artificial. Esta notícia deveria alarmar-nos, mas não alarma. Pelo contrário, é observada com boa disposição. No entanto, transformar o nosso diálogo interno em sons é abrir as portas para o inferno. O inferno é a transparência absoluta. Até hoje, a vida interior estava resguardada pelo silêncio. Há coisas que pensamos e que não queremos que ninguém saiba. Há coisas em nós que nós próprios não sabemos e não queremos saber. Fazem parte do fundo sombrio que todos os seres humanos trazem em si e que, por norma, aprendem a domar ou a recalcar. A vida de cada um de nós é, e deve ser, translúcida. Nem completamente opaca, nem completamente transparente. Esta descoberta inscreve-se no caminho para a total transparência. A transparência total é a destruição da privacidade e, em última análise, a destruição da pessoa, com a possibilidade da sua total exposição pública. Não se trata já de se saber tudo o que fazemos e tudo o que dizemos, mas também de tudo o que pensamos e, mais grave ainda, aquilo que se pensa em nós, apesar da censura que lhe fazemos. Estamos alegremente a criar os dispositivos para um terror absoluto.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Uma ameaça



O caso da resistência à vacinação, que pode estar na origem dos actuais surtos de sarampo e no reaparecimento de certos doenças que se pensavam erradicadas, é apenas um exemplo de um problema mais fundamental. As sociedades modernas atingiram um elevado nível de vida pela conjugação do desenvolvimento do conhecimento científico e da produção tecnológica dele derivada. Nesse elevado nível de vida, encontra-se a comodidade da existência e o prolongamento da esperança de vida.

A resistência ao conhecimento científico não é coisa de agora. Por vezes, torna-se virulenta e tem um poder destruidor do conhecimento e do progresso científico e tecnológico. O que estamos a assistir, em várias frentes onde se inclui a da saúde, é a um ataque de vários tipos de fundamentalismos – uns mais de cariz religioso, outros de natureza mais social – ao pensamento crítico que fundamenta o trabalho científico e tecnológico. O uso da razão crítica por parte dos homens não tem por objectivo criar verdades dogmáticas e resolver problemas com uma varinha mágica. A ciência é um projecto de aproximação progressiva à verdade. Também a tecnologia, por desenvolvida que seja, tem os seus limites de intervenção no mundo.

Assistimos, aproveitando o carácter limitado e aproximativo da ciência e da tecnologia, à pretensão de formas de acção e pensamento mágicos as substituírem. Reivindicam um pensamento e um tipo de acção alternativos. Efectivamente, o que se passa é que esse tipo de pensamento dito alternativo não se confronta com o rigor da testagem científica. É constituído por um conjunto de crenças que ou não podem ser testadas ou que, caso o fossem, não resistiriam aos testes empíricos. Se há crenças que, apesar da sua limitação sempre reconhecida, são submetidas às mais duras testagens para determinar a sua verosimilhança, essas são as crenças científicas, das quais depende a tecnologia que usamos e o nosso modo de existência.

Se por uma infelicidade, as nossas sociedades valorizarem do mesmo modo o pseudo-conhecimento dos saberes ditos alternativos e o conhecimento científico, então estaremos a dar passos para uma regressão civilizacional a todos os níveis. O que está em jogo não é apenas a saúde das pessoas e o seu bem-estar, mas o próprio pensamento crítico. Se este for equiparado ao dogma de uma qualquer crendice, temos razões para temer que, num surto de um súbito fundamentalismo, o seu exercício se torne impossível. O que se está a passar é um sintoma preocupante para o uso saudável da razão crítica, na verdade uma ameaça real ao nosso modo de vida.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Um sítio mal frequentado


Este artigo de Rui Tavares põe correctamente o dedo na ferida. O que se passa no futebol não é já uma questão de futebol mas de desagregação dos valores fundamentais de um Estado democrático. Se houve um tempo em que esse desporto poderia ser visto como um jogo de cavalheiros, no qual o fair-play tinha um lugar central, isso acabou há muito. As paixões clubistas tornaram o fair play uma miragem e não há campeonato em que o vencedor não esteja sob suspeita de favorecimento e parcialidade dos árbitros. Os dirigentes desportivos, muitas vezes, dão a impressão de serem condottieri de bandos de gente fora de lei, incendiando paixões e acicatando o ódio das seitas adversárias. A isto há que juntar o clima que os programas de comentário futebolístico criam, nos quais as regras da educação, do respeito mútuo e da conduta sensata são vilipendiadas. O futebol de alta competição tornou-se assim um sítio mal frequentado e com muitos poucas possibilidades de remissão.

O futebol, nos dias de hoje, é, por outro lado, uma actividade económica, onde se movem muitos milhões de euros, mesmo num país como o nosso. O cruzamento da actividade económica com a paixão clubista não gera uma mera indústria de entretenimento como o é o cinema. O carácter competitivo dá a essa junção entre economia e paixão irracional uma tonalidade que aproxima o futebol de um clima de quase pré-guerra civil. Não por acaso, as instituições sentem grande dificuldade em lidar com esse mundo, onde o mercado das emoções parece completamente desregulado e os confrontos entre adeptos recordam o estado de natureza hobbesiano. E o pior é que o futebol pode ser visto já como a expressão daquilo que rumina surdamente numa sociedade. A ligação entre paixão clubista e irracionalidade sempre existiu. Contudo, é possível que tenha mudado de natureza. Anteriormente, a paixão clubista era um escape, uma sublimação dos sentimentos e emoções negativos que há em todos nós. Hoje em dia pode ser bem mais do que isso. Pode ser a expressão do desejo de trazer para o espaço público a vontade do conflito e a necessidade de aniquilar o inimigo. Uma sociedade que permite um futebol como o nosso - que não será diferente do de outros países - não é, por certo, uma sociedade saudável. Pelo contrário, está doente, muito doente.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Êxodos e errâncias

Marc Chagall, Êxodo, 1952-66

Mais de 350 anos da chamada Paz de Vestefália tornaram, para nós Europeus, a territorialidade e a soberania, a que posteriormente se adicionou o jogo da cidadania com as suas regras de inclusão e de exclusão, como o modo natural do existir humano. A cada grupo o seu território e as suas leis. E esse longo hábito social e político tornou-nos cegos para a realidade da espécie humana. A errância pelo mundo e o êxodo contínuo de povos e grupos alargados de indivíduos são pulsões tão fortes que não reconhecem os diques que a ordem jurídica trazida à Europa, e através dela ao mundo, pela Paz de Vestefália quer impor à realidade.

Aquilo que assistimos na Europa com a chegada contínua de imigrantes e a eleição, em diversos países europeus, de governantes com programas para liquidar a chegada de migrantes e, se possível, expulsar os que já lá estão é apenas a manifestação do conflito entre a pulsão natural da espécie humana para o êxodo e a artificialidade cultural e jurídica da territorialização das soberanias. No mundo ideal nascido com a Paz de Vestefália, nós teríamos o nosso território e as nossas regras e vós, os outros, o vosso território e as vossas regras. A realidade, porém, é que as fronteiras jurídicas são construções frágeis perante o apelo constante ao êxodo que anima a espécie humana, como se o nosso lugar fosse sempre um outro no qual não estamos.

sábado, 11 de novembro de 2017

Progresso moral da humanidade

Marc Chagall - Abraham and the Three Angels (1958-60)

O psicólogo Steven Pinker tem uma agenda de investigação cujos resultados tendem a contrariar as nossas percepções. Talvez tenha sido sempre assim, talvez a humanidade julgue que o presente é sempre pior e mais problemático que o passado. O presente nunca deixa de servivido sob o signo do apocalipse. Mesmo que isso não seja verdade para todas as épocas, parece ser uma evidência para aqueles que estão vivos hoje e que ainda viveram largo tempo no século passado. O século XX, com o seu cortejo de horrores, tem funcionado como o sinal de que a ideia de um progresso moral da humanidade é coisa destituída de sentido e já lançada para o lixo. No século XX aprendeu-se a dissociar, de forma sistemática, o progresso técnico-científico do progresso moral. O primeiro seria inegável, enquanto o segundo estava num fase de retrocesso. Os campos de concentração nazis e o gulag soviético surgiam como provas irrefutáveis desse retrocesso moral da humanidade. Um cepticismo antropológico tomou corpo e inundou as crenças de muitos, entre os quais me encontro. 

Mas mais importante do que ver as nossas crenças corroboradas é, segundo a lição de Karl Popper, vê-las destruídas. É isso que faz Steven Pinker (ver aqui). Contra as nossas intuições sobre o Zeitgeist, ele afirma que o mundo não se está a desmoronar. Pelo contrário. Nunca o mundo foi tão pacífico como o é hoje. Nunca os homens se mataram menos do que hoje em dia. A análise empírica que Pinker faz em Os Anjos Bons da Nossa Natureza torna patente, ao longo da História, um declínio contínuo da violência. Este declínio contínuo da violência pode não ser uma prova evidente da existência de um progresso moral da humanidade, para falar à maneira de Kant, mas é um sintoma forte desse progresso. Por falar em Kant, o mais importante filósofo do Iluminismo, Steven Pinker prepara-se para lançar um novo livro, em cujo título, Enlightment Now: The Case for Reason, Humanism and Progress, ressoa, quase palavra a palavra, a voz do filósofo de Königsberg. Talvez o cepticismo antropológico esteja errado e as esperanças do século das Luzes não tenham sido em vão. Esperemos.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O que está em jogo

A minha crónica em A Barca.

Um ano terrível de incêndios. E sempre que uma coisa terrível se manifesta, há uma luz que desce sobre a realidade e torna visível aquilo que era invisível, aquilo que ninguém queria ver. Não falo da desorganização dos serviços, não falo da desordem que campeia na floresta. Falo de um país que, apesar de ocupar parte muito significativa do território, deixou de se ver. Ali tudo parece mais arcaico. Em muitos lugares, é a ruína que cresce desmedida. Noutros, a ruína ainda não chegou por completo, mas são habitados por solidões sem fim. Olhamos o país e parece que uma parte desatou a correr por aí fora e foi deixando a outra para trás, até que se esqueceu dela por completo. Os incêndios, para lá das mortes, mostraram um país – isto é, uma parte da população – que foi abandonada à sua sorte, ou antes, à sua má sorte.

Talvez tudo tenha começado pelos anos sessenta do século passado com as grandes vagas de imigração. O país, atolado na guerra e na ditadura, não teve o talento e a capacidade para fomentar pólos de geração de riqueza distribuídos pelo vasto interior. A transição à democracia acabou por fomentar um modo de vida urbano que acentuou a tendência para o despovoamento. Depois veio a grande época dos fogos de artifício, a entrada na CEE. O dinheiro jorrou país fora, mas o resultado foi cavar mais o fosso entre o interior e o litoral, entre as zonas deserdadas e as zonas ricas. Com a crise do défice, os meios que poderiam existir para continuar a disfarçar a realidade desapareceram. Bastou um ano como este e tudo veio ao de cima, com mais de cem mortos pelo caminho e perdas incalculáveis. Os incêndios deste Verão mostraram que, tirada a maquilhagem trazida pelo dinheiro europeu, a face do país não é lá muito bonita de se ver.

Será que o país, todos nós, aprendemos alguma coisa? Será que, depois das emoções esfriarem, ainda nos lembraremos desse país que agora descobrimos? Será que a nossa memória do acontecido persistirá apenas até à próxima desgraça ou até ao próximo derby e ao escândalo de um penalty roubado? Temo que, com as primeiras grandes chuvas, a vidinha tome conta das instituições e dos cidadãos e tudo fique como está. É verdade que se estão a tomar medidas interessantes. O problema, porém, é se essas medidas são uma mudança para que tudo fique na mesma. O que está em jogo não é só como evitar e combater os incêndios. Não é só ordenar a floresta e discutir a vexata quaestio do eucalipto. O que está em jogo é o que vamos fazer com o nosso interior. O que está em jogo é se vamos continuar a abandonar as pessoas desse interior.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A vida normal

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Há alturas em que o jeito de ser português mostra os seus limites. O ano de 2017 é uma dessas alturas. Não chega a nossa cultura do desenrascanço (palavra horrível com que embrulhamos a incompetência na esperteza saloia). Não chega este ir fazendo que faz mas não faz. Não chega o modo de ser português que alguns cantaram perante os rigores do norte. Não chega esse riso manhoso de quem coça a cabeça e diz: deixa-os poisar! Todos conhecem, ó ironia das ironias, essa expressão, tão ao gosto popular, que resume, melhor que todas as outras, o modo de ser português: deixa arder que o meu pai é bombeiro.

Este ano de 2017 é o resultado de anos, décadas, talvez séculos, de deixa-os poisar e deixa arder que o meu pai é bombeiro. Só que já não há sítio onde poisar e bombeiros que cheguem para tanto incêndio. Eu sei, nós somos boas pessoas, e as boas pessoas odeiam o rigor. Nós somos criativos (deixem-me rir), e os criativos abominam a organização. Nós somos simpáticos, e as pessoas simpáticas detestam a disciplina. Nós gostamos de coisas fáceis. Nada de exigências, vamos lá devagar que é assim que se chega ao longe. Esta atitude de autocomplacência corrói os indivíduos, as famílias, as instituições. Corrói, acima de tudo, o Estado.

Este ano está a ser anormal? Está, mas é nas anormalidades que se vê como a nossa normalidade é doentia, malsã, absolutamente perigosa. A nossa vida normal não passa de uma brincadeira pouco séria. A nossa vida normal entregou o Estado e as instituições ao compadrio, à corrupção, à preguiça, ao branqueamento de comportamentos. As seitas confrontam-se na praça pública, movidas pelo seu desejo de ocupar o poder, e nós, cidadãos, em vez de sermos rigorosos, organizados, disciplinados e exigentes connosco e com quem está no poder, aceitamos tudo desde que venha dos nossos. A nossa vida normal é viver à beira do abismo. Quando há uma anormalidade, como este ano, damos um passo em frente.

Eu gostava que esta hora difícil fosse a hora de um recomeço, um tempo em que tomássemos consciência de que a nossa vida normal é perigosa, muito perigosa e começássemos a ser mais exigentes e rigorosos com as instituições, com os poderes, mas, em primeiro lugar, connosco. Podemos acusar, para salvar a boa consciência, os políticos e as instituições, mas isso seria esquecer que fomos nós que os elegemos (aos actuais e aos anteriores) e que não lhes exigimos nada. A nossa vida normal é passar cheques em branco e depois queixarmo-nos que nos levaram o pecúlio. Será desta que iremos acabar com a nossa vida normal? Ou continuaremos a dizer: deixa arder que o meu pai é bombeiro?

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Mobilidade social

A minha crónica em A Barca.

Todas as comunidades possuem os seus mitos, a partir dos quais constroem uma cultura, fundamento da vida social e da vida política. Poderíamos pensar que as sociedades modernas, seculares e racionalizantes, em que vivemos fossem destituídas dessas mitologias encantadas que encontramos nas sociedades tradicionais. Não é verdade. As nossas sociedades têm uma forte estrutura mitológica cuja função é idêntica à das arcaicas. Um dos mitos mais persistentes das nossas sociedades é composto por uma espécie de triângulo em que num dos vértices se encontra a igualdade, noutro o mérito e, no terceiro, a mobilidade social. O mito diz que numa sociedade em que todos são iguais perante a lei, o mérito dos indivíduos – a sua iniciativa, talento e esforço – será um factor de mobilidade social.

O economista escocês Gregory Clark dedicou-se a estudar milhões de apelidos em várias parte do mundo e a sua evolução social (por vezes, o período estudado chega a ser de 500 anos) e descobriu que a mobilidade social é um processo muitíssimo lento. Em entrevista ao Público, o autor afirma que “as pessoas podem passar centenas de anos até que as famílias que vêm de estratos mais baixos consigam ter a mesma probabilidade das outras em ascender a posições sociais de maior importância. E isto aplica-se a todos os períodos estudados”. Toda a mitologia do mérito, da glorificação da iniciativa e dos esforços individuais, parece cair por terra perante os factos. O estudo de Clark, The Son Also Rises: Surnames and the History of Social Mobility, também mostra que a educação – uma das medicações sociais mais utilizadas para fomentar a mobilidade social – tem um efeito muito residual.

Poder-se-á pensar que grandes e dramáticos acontecimentos políticos, como as revoluções, sejam mais eficazes na produção da mobilidade social. Novo equívoco. Mesmo a Revolução soviética de 1917 foi incapaz de elevar as classes mais baixas a um estatuto social diferente daquele que tinham no tempo do czarismo. Na entrevista ao Público, Gregory Clark sublinha, como hipótese, dois factores que estarão na base do status social: a herança genética do talento e, aliada a ela, uma certa cultura ou tradição familiar. Se as evidências encontradas por Gregory Clark continuarem, em futuras investigações, a ser corroboradas, então um dos principais mitos das nossas sociedades – o da mobilidade social devido ao mérito – cai por terra. Nessa queda, será arrastada a forma como nos últimos dois séculos temos concebido a função e a forma de fazer política. Não sei se é moralmente bom aquilo que iremos encontrar.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O drama da igualdade de género

Pablo Picasso - El diván (1899)

Tinha pensado em não escrever sobre o drama, pois na verdade é um drama assente na dissonância cognitiva, que envolve dois blocos de exercícios da Porto Editora, um dirigido às meninas e outro aos meninos da Educação Pré-escolar. No cerne do drama está uma recomendação da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG). Recomendação essa que induziu a editora a retirar do mercado os dois blocos de exercícios. Isso tem gerado um sem número de protestos, mais ou menos ingénuos, nas redes sociais e artigos – provenientes da ala conservadora da sociedade portuguesa – que denunciam a profunda ditadura e o estado de guerra em que vivemos, ao mesmo tempo que profetizam o fim da civilização (veja-se, a mero título de exemplo, embora não refira directamente o incidente, o texto delirante, mas por isso mesmo representativo, de Maria João Avillez no Observador.)

Vale a pena olhar para a recomendação da CIG (consultar aqui). Desta, convém dar atenção ao seu núcleo de pressupostos, o qual é constituído por três conceitos: conceito de sexo (a dimensão biológica determinada pelos genitais), o conceito de género (a dimensão cultural de construção de significados sociais em função da pertença a um determinado sexo) e o conceito de estereótipos de género. Este, tendo em conta a distinção entre sexo e género, é o elemento central que vai conduzir à célebre recomendação, a qual decorre logicamente desse conceito. Vale a pena transcrever a sua definição:

os estereótipos constituem conjuntos bem organizados de crenças acerca das características das pessoas que pertencem a um grupo particular. Os estereótipos de género (mais do que qualquer outro tipo de estereótipos) apresentam um forte poder normativo, na medida em que (…) consubstanciam uma visão prescritiva, dos comportamentos (papéis de género) que ambos os sexos deverão exibir.

A primeira questão que se coloca é sobre a possibilidade de qualquer sociedade funcionar sem estereótipos. A segunda questão relaciona-se com o conflito em torno dos estereótipos de género e o lugar de onde brota esse conflito.

Os estereótipos, enquanto conjuntos bem organizados de crenças, são centrais para a vida em sociedade. Agilizam as práticas sociais, fluidificam-nas ao fornecer, pronto a usar, um conjunto de significações que as estruturam, evitando a perda de tempo de uma definição contínua dos papéis e das interacções entre estes. Sem eles, incluindo os estereótipos de género, uma sociedade torna-se disfuncional.

É evidente que a partir do Iluminismo o estereótipo adquiriu má fama sob a designação de preconceito. Na verdade, os estereótipos são preconceitos, isto é, crenças que não passaram pelo crivo da razão. E, como dizia o projecto iluminista do XVIII, tudo deve passar pelo crivo da razão. O problema é que nenhuma sociedade sobrevive se submeter a cada instante o conjunto das suas crenças a esse crivo para determinar a sua razoabilidade. Poderíamos dizer que as sociedades, mesmo as modernas, vivem de uma conjugação difusa entre crenças criticadas e crenças estereotipadas ou preconceitos.

Assim, o estereótipo – ou o preconceito – não é apenas a ganga perversa da dominação. É também uma forma económica que as sociedades utilizam para sobreviver e para prosperar. Isto não significa, contudo, que os estereótipos – ou preconceitos – se devam manter intocados. Pelo contrário. Essa intocabilidade é uma ilusão proveniente das sociedades tradicionais, onde a mudança é muito lenta. Nas sociedades modernas, pelo contrário, a crítica e destruição de estereótipos é uma necessidade central da modernização e a modernização nunca está concluída. É sempre um projecto em aberto. Isto significa que há, nas nossas sociedades, uma necessidade contínua, impulsionada pelo mundo da economia de mercado, de criticar e destruir estereótipos. De substituir os desadequados por outros mais funcionais e adaptados às exigências dos mercados.

É no âmbito desta exigência das sociedades liberais que deve ser lida a malfadada recomendação da CIG. Ela não é um devaneio de esquerdistas prontos a destruir a civilização ocidental, mas uma exigência da própria civilização ocidental, desde que fez da modernização contínua da economia e da sociedade o motor da sua existência.

Assim, melhor do que perguntar se os estereótipos de género – agora atacados pela CIG, e os que se revêem na sua recomendação, e defendidos pela ala conservadora da sociedade – são bons ou maus, será tentar perceber por que razão estão a ser desafiados. Podemos, na sequência de posições como as de Maria João Avillez, que tem o mérito da candura inerente à falta de competência teórica, proclamar a existência de uma conspiração para derrubar a nossa civilização. Conspiração de quem? Evidentemente do marxismo cultural, da Escola de Frankfurt, do desconstrutivismo francês, das perversões biopolíticas de Foucault e descendentes, da esquerda radical, no caso português do Bloco de Esquerda, etc. Isto é para os conservadores-liberais muito confortável e poupa-os à dor de reconheceram a dissonância cognitiva em que vivem.

Se os estereótipos tradicionais estão a ser abalados e desafiados, certamente que o motor desse abalo não é, apesar das aparências, nem o mundo universitário nem tão pouco os grupos da chamada esquerda radical, os quais, com uma ou outra excepção, são de pequena dimensão. O grande motor dessas transformações é a economia liberal e as desregulações que ela traz consigo. Estas desregulações introduzidas pelo chamado neoliberalismo não são apenas desregulações do mercado de trabalho. São desregulações sociais globais e que têm impacto inclusive nos papéis que homens e mulheres desempenham na sociedade. Essas desregulações vêm exigir que homens e mulheres assumam papéis diferentes daqueles que a tradição lhes fornecia. Toda a retórica da CIG, com os seus conceitos de sexo, género e estereótipo de género, se inscreve na tradição liberal. A ideologia da recomendação feita pela CIG não é diferente daquela que os liberais usam para as relações económicas. É complementar e serve-lhe de suporte. A flexibilização dos papéis que lhe está inerente é uma exigência da economia liberal e não uma conspiração de mercenários a soldo sabe-se lá de quem.

E o pior da dissonância cognitiva da ala conservadora-liberal não está aqui. Quando vocifera contra certo mundo académico permeado pelo marxismo cultural, pelas teorias da escola de Frankfurt, pelo desconstrutivismo, pelas teorias de género, etc., etc., ou contra a esquerda radical (tipo BE, Podemos ou Syriza), está a negar que todos esses movimentos são emanações do próprio liberalismo e do mundo económico que os produziu com a finalidade de o defender e desenvolver. Muitas vezes – como está a acontecer na Grécia ou em Portugal, mas não só – esses movimentos culturais e políticos ditos radicais representam o mundo da economia liberal com muito mais eficácia do que os políticos conservadores, enrolados em escândalos e presos a fórmulas sociais já desadequadas às exigências desse tipo de economia.

Parece que toda esta gente que à direita vocifera ainda não percebeu uma coisa simples. A Queda do Muro de Berlim significa que deixou de haver dois sistemas alternativos. Apenas existe um sistema e que todas as partes – direita e esquerda – fazem parte dele e, por muito estranho que isso possa parecer, trabalham para o seu desenvolvimento e melhoria. Porquê? Pela simples questão de que não há um fora do sistema para onde conduzir as sociedades. Basta olhar para a conversão do Syriza – mesmo a retórica académica de Varoufakis não pretendia outra coisa que a melhoria do capitalismo – ou para a realidade portuguesa. Há muito que a esquerda dita radical percebeu que não há um fora do sistema. Ela, onde se incluiu o PCP, hoje em dia, faz parte do sistema liberal e opera para a sua melhoria, muitas vezes tendo o papel de destruir estereótipos e preconceitos que são adversos à sociedade liberal.

Se nós olharmos com atenção ao conceito de estereótipo de género, presente na recomendação da CIG, percebemos muito bem o que está em causa. O que ele, na verdade, nos diz é que os estereótipos de género existentes estão desadequados às exigências da economia de mercado e à sociedade liberal em que se pretende viver. Precisam de ser substituídos por outros, por certo mais fluidos, como o é a economia e como os grandes beneficiários do actual sistema económico pretendem que sejam os novos estereótipos.

Todos os inimigos imaginários dos nossos admiradores do liberalismo – do marxismo cultural ao radicalismo de esquerda, passando pelo feminismo e pelas múltiplas idiossincrasias estapafúrdias do mundo académico – são fruto dessa economia desregulada, que esses admiradores tanto cultuam. Gostariam de chuva no nabal e sol na eira para tranquilizar as suas consciências pecadoras. Se querem, porém, uma economia liberal, então têm de levar com toda esta parafernália ideológica que tanto os assusta, mas que está em relação profunda com o desenvolvimento do sistema económico liberalizado, que a exige, a fomenta e a faz florescer.

A flexibilização dos papéis socias de homens e mulheres (que assusta os nosso conservadores) é concomitante à flexibilização do mercado de trabalho (sempre tão desejada e incensada pelos mesmos conservadores) e decorre dela. Maria João Avillez e todos os que se revêem no seu texto, uns com mais fundamento teórico, outros com mais ingenuidade, têm razão. Há uma guerra (embora esta guerra seja já muito antiga e tenha começado pela destruição das aristocracias e das sociedades de castas ou de estamentos, que eram o fundo de onde ainda brotam certas concepções, agora atacadas, dos papéis dos homens e das mulheres), mas quem a está promover essa guerra são aqueles que, socialmente, estão próximos dela e dos liberais-conservadores lacrimejantes ou vociferantes que pululam por aí. O resto é dissonância cognitiva.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O especialista absoluto

Arpad Szenes - Niño con cometa (1935)

Devo a Carles Álvarez Garriga, no seu Prólogo a Classes de Literatura, de Julio Cortázar, o conhecimento da fórmula do especialista absoluto, cuja autoria pertence a Alfonso Reyes. Na verdade, é uma bela fórmula. Refiro-me à sua aparência estética. Ei-la: ∞/0. Ela dá-nos a ideia reguladora – ou o ideal, se preferirem – do especialista. O processo de especialização, um imperativo da busca da eficácia do conhecimento, intensifica-se em todas as áreas, incluindo as da Filosofia e da Literatura. Refiro-me às praxis universitárias, mas não só. Os especialistas sabem cada vez mais de cada vez menos. Se universitários, produzem uma montanha de informação sobre o mais ínfimo grão de areia.

O que significa então, neste contexto, a fórmula? Ela diz-nos que o ideal que regula toda a actividade de conhecimento é a de um saber infinito sobre absolutamente nada. Estamos longe do lamento husserliano sobre a crise do fundamento das ciências. Estamos perante a consumação, na área do saber, do niilismo anunciado por Nietzsche. O ideal que regula, hoje em dia, a actividade universitária aproxima-se de um saber infinito sobre coisa nenhuma. Se isso é pouco visível nas áreas das ciências da natureza, devido às aplicações técnicas que o conhecimento especializado proporciona, parece evidente nas áreas das humanidades, onde a Universidade é um dispositivo de produção de lixo cognitivo, lixo esse que exige uma grande dedicação, perseverança e capacidade de trabalho, diga-se.

A ironia  de ∞/0 visa tornar patente um problema que assombra a orientação do saber na modernidade. Esse problema é o da ruptura entre saber e sabedoria. O saber sobre um dado objecto de estudo acaba por afunilar a compreensão que se tem do mundo e do homem. Hoje em dia, possuir um conhecimento sólido, na ambiência universitária ou em qualquer outra, nada nos diz sobre a capacidade de compreender a realidade em que se vive ou quem se é. O homem moderno desenvolveu essa profunda capacidade de ter muito conhecimento sem, na verdade, deixar de ser uma espécie de adolescente retardado, sem ter qualquer sabedoria. Talvez fosse esse o destino do homem ocidental, descendente dos gregos, como não deixou de o registar Platão na palavra do sacerdote egípcio (Timeu, 22b): “Ó Sólon, Sólon, vós, Gregos, sois todos umas crianças; não há um grego que seja velho”.

sábado, 12 de agosto de 2017

A bela humanidade

Francis Bacon - Cabeza III (1961)

António Guerreiro, no Público (vale a pena ler o artigo), cita um especialista americano no mundo digital que escrevia, há tempos, na revista The Atlantic o seguinte: "Quantos comentários devo eu ler, na Internet, para perder a fé na humanidade? Muitas vezes, a resposta é: um comentário". O interessante de tudo isto é que o universo digital é uma consequência do projecto da modernidade e, ao mesmo tempo, o exemplo da negatividade que habita esse projecto. O projecto da modernidade só foi possível pelo advento do humanismo, no Renascimento, e na substituição, no centro das atenções humanas, de Deus pelo Homem.

O incensar da humanidade não parou de crescer desde o XVII até hoje, apesar dos contínuos desmentidos trazido pelo Terror na Revolução Francesa, pelas condições de trabalho a que a Revolução Industrial sujeitou os trabalhadores, os campos de concentração nazis ou soviéticos. A Internet tem o condão de iluminar essa humanidade, de a mostrar sem edulcoração, a sua natureza . Hoje em dia já nem vale a pena ler os velhos reaccionários como Joseph de Maistre para perceber de que material é feito a humanidade. Basta olhar para as redes sociais e para as caixas de comentários dos jornais e revistas. O anonimato - e às vezes já nem isso é necessário - permite perceber o que está dentro dessa humanidade tão incensada ao longo dos último séculos.

A crueldade que vimos na acção do Estado Islâmico está ali ao virar da esquina, por agora na ponta dos dedos. Precisa apenas que se sinta à vontade para se mostrar na rua. Não é apenas o sonho de uma esfera pública civilizada (burguesa), de debate e de procura da verdade que se mostra uma ilusão. A democratização da palavra e a extensão das decisões democráticas para além da esfera estrita da representação, esses sonhos utópicos, mostram-se já como uma ameaça à vida civilizada. Durante anos, as críticas liberais a Platão, o pai de todos os totalitarismos, no dizer de muitos liberais, pareciam fazer sentido. Hoje, porém, vale a pena voltar a Platão e à sua crítica à democracia grega. Ele terá alguma coisa a dizer aos nossos dias.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O tribalismo do futebol

A minha crónica em A Barca.

Desde há muito que, no continente europeu, o futebol tem um papel central na formatação das subjectividades de acordo com as exigências de uma sociedade concorrencial. A competição futebolística espelha a luta das empresas no mercado, a disputa dos jogadores por um lugar na equipa é uma lição para o trabalhador por conta de outrem, os mecanismos do mérito, centrais no mundo do futebol, são um exemplo para quem exerce as suas funções numa empresa. O futebol, ao longo do século XX, foi, na Europa, um dos elementos mais importantes, ao nível ideológico, na consolidação das revoluções industriais.

Desde muito cedo, o futebol esteve associado a um certo tribalismo clubista. No entanto, esse tribalismo não apenas se dissolvia no tribalismo maior do nacionalismo, como tinha uma função de integração das pessoas que, em massa, foram deixando os campos em direcção às cidades. Fornecia-lhes uma identidade e com ela a pertença a uma certa comunidade. Funcionava como uma compensação de uma perda. Poder-se-ia falar de um tribalismo soft e compensatório, que, muitas vezes, era caminho para um convívio pacífico com membros de outras tribos.

Nas últimas décadas, porém, tem-se assistido a uma metamorfose do clubismo. Estamos cada vez mais perante um tribalismo hard e agressivo, onde o convívio pacífico está a ser substituído por doses crescentes de agressividade e de conflito inter-tribal, por vezes com mortes. A emergência das claques organizadas é um momento importante nessa alteração qualitativa. No entanto, não será o elemento central. Olhemos para o caso português. De imediato se percebe que a comunicação social, com a televisão em destaque, têm um papel essencial na consolidação e disseminação do fenómeno.

Os programas com os representantes dos grandes clubes transformaram-se num foco da doença. Como tem acontecido com outro tipo de programação televisiva, as audiências crescem com a degradação da linguagem, da etiqueta social e com o aumento da agressividade entre os representantes das três principais tribos. A comunicação social, mesmo quando moraliza sobre a violência no futebol, precisa desta nova modalidade de tribalização. É ela que lhe dá audiências e rentabilidade. A consequência disto é que, através do futebol e tomando-o como modelo, se está a impor uma nova forma de vida social, uma vida tribalizada e estruturada no conflito, o qual terá de escalar continuamente para que o espectáculo da informação continue.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O sem destino

Adelino Lyon de Castro - Sem destino, Portugal, 1980

Ao cruzarmos a fotografia, a data e o título que lhe foi dada pelo fotógrafo, podemos ser tentados a ver nela uma metáfora sobre o destino - ou a sua ausência - de Portugal na transição da década de setenta para a de oitenta do século XX. As tentações nem sempre são boas conselheiras. Aquilo que vemos - ou que nos é dado a ver, o que não é bem a mesma coisa - é o outro lado da realidade portuguesa, não de 1980, mas de Portugal ao longo da sua história. Uma parte do país parece, muitas vezes, brilhante, de aspecto triunfal, tendo um caminho e um destino, mas isso é só parte da realidade. Existe a outra parte, aquela que a fotografia retrata, que, nos momentos mais inesperados, se manifesta estrondosamente, para depois, se ocultar silenciosa, até que uma qualquer câmara escondida - isto é, uma tragédia, uma crise financeira, etc. - a torna a trazer para o primeiro plano. Se não nos deixarmos iludir pela exaltação da retórica política, talvez descubramos que este sem destino é ainda um momento constitutivo do nosso próprio destino. Aquilo que somos enquanto comunidade faz-se no convívio e no conflito com a ameaça perpétua de perder a nossa destinação. Se eliminássemos esta parte ameaçadora, sempre presente, o mais provável seria deixarmos de ser o que somos. O mais provável é que possamos ir transformando, lutando contra ela, essa ameaça arcaica que nos constitui, mas não esteja nas nossas possibilidades eliminá-la. Ela mostra-nos a efemeridade das coisas e a nossa fragilidade. Dá-nos, desse modo, um saber. E é este saber que nos tem ajudado a sobreviver enquanto comunidade, contra todas as probabilidades, há quase nove séculos.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Um deserto gelado

Ralph Steiner - Sapling in the Snow, 1977

Uma doença. Não é de bom tom criticar o Islão. Desencadeia-se, mesmo entre muitos ateus, uma súbita paixão pela religião e os dedos acusadores escrevem de imediato a etiqueta islamófobo. E no entanto o Islão - e não apenas as suas versões terroristas - é um problema, criado de forma consciente por muitos dos seus seguidores, para o nosso modo de vida. Veja-se como em aspectos absolutamente impensáveis e ridículos a intolerância da cosmovisão islâmica se manifesta. Um clérigo islâmico saudita pediu, através do Twitter, à FIFA para criar uma lei que proíba os festejos cristãos (por exemplo, jogadores que se benzem) após a marcação de golos. É evidente que a FIFA não vai abrir a boca sobre o assunto, mas ele foi lançado, veremos quanto tempo vai demorar a que manifestações religiosas sejam interditas nos estádios de futebol. Pessoalmente, nada tenho contra Islão, desde que respeite os direitos humanos, entre eles a liberdade dos indivíduos, a possibilidade de cada um seguir a sua própria consciência. O Ocidente tem um problema enorme entre mãos e não sabe como lidar com ele. Em 1781, em nota de rodapé ao Prefácio da primeira edição da Crítica da Razão Pura, Kant escrevia: "A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que submeter-se. A religião, pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtrair-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame". A única forma de nós, ocidentais, mostrarmos respeito pelo Islão é submetê-lo, como o fizemos ao Cristianismo, à severa crítica da razão. Isto para que a nossa paisagem não se transforme, mais cedo ou mais tarde, num enorme deserto gelado. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

A questão religiosa

A minha crónica em A Barca.

O Iluminismo assentou a sua avaliação – claramente, negativa – da religião revelada em três pilares críticos: a crítica do preconceito, da superstição e da autoridade que não advenha da razão. Segundo os iluministas, a religião revelada manteria uma atitude anti-racional fundada em preconceitos e superstições, na ordem do conhecimento, e na autoridade, no que diz respeito a matérias morais e à própria crença dogmática. Esta crítica racionalista tornou-se no Ocidente culto o padrão com que se julga ainda hoje a religião. O que levanta, pelo menos, dois problemas.

Em primeiro lugar, a religião tem dimensões que estão muito para além daquilo que é consignado num sistema de crenças explicativas do mundo ou num código moral. A vida religiosa assenta na relação do indivíduo consigo mesmo e com a transcendência. O essencial de uma religião é a vida espiritual que proporciona. É desta vida espiritual que, no decurso da história da humanidade, se soltaram os elementos que forneceram as primeiras explicações racionalizantes do mundo (os mitos que compõem todas as religiões) e as normas de conduta que regeram – e regem em muitas culturas – a vida das comunidades. Estes últimos elementos são aqueles que, pela sua natureza acidental e histórica, se transformam em preconceitos e superstições. No entanto, eles não fazem parte daquilo que é fundamental numa religião, apesar de serem, muitas vezes, o seu aspecto mais visível e também o mais polémico. Dito de outra maneira, a crítica do Iluminismo à religião deteve-se no acidental e não compreendeu o essencial.

Em segundo lugar, a dissolução crítico-racionalista da religião, o subestimar da sua importância na vida das comunidades, está a tornar o Ocidente incapaz de perceber os problemas que o mundo islâmico lhe coloca, tanto fora de fronteiras (o último caso é o da Turquia e da sua deriva anti-secular) como dentro (o terrorismo ou a não aceitação do modo de vida ocidental por imigrantes muçulmanos). Diversos sectores islâmicos vêem no abandono do cristianismo por parte dos ocidentais uma janela de oportunidade para expandir o Islão. Não tendo passado pelo Iluminismo crítico, estão convencidos de que o actual vazio religioso não poderá perdurar, o que abrirá ao Islão um futuro risonho na Europa. É por estes motivos que a religião não pode continuar a ser considerada pelos europeus uma superstição ou uma irrelevância. E é por eles também que se deve ter muito cuidado em deitar fora o cristianismo, pois corremos o risco de despejar o bebé com a água do banho.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

1.º de Maio

Manifestação em Haymarket, Chicago, Maio de 1886

Os acontecimentos (ver aqui e aqui) que conduziram à celebração do 1.º de Maio possuem no seu cerne uma reivindicação que, apesar de continuamente referida, acaba por se ocultar no acto da referência e na forma como esta é lida. A exigência da jornada de trabalho de oito horas é muito menos um problema laboral e muito mais uma questão civilizacional. O que está em jogo é o tempo, a matéria efectiva da vida, e a possibilidade de cada um fazer com o tempo aquilo que entender, para além de responder às necessidades que a condição humana impõe. Para lá das leituras políticas que se fazem do 1.º de Maio, sejam revolucionárias ou reformistas, há algo muito mais importante: a necessidade dos homens se libertarem do trabalho, da submissão à pura necessidade, de poderem gerir o tempo que lhes foi concedido. É nesta afirmação da libertação da submissão à necessidade representada pelo trabalho que o 1.º de Maio encontra um significado universal que vai muito para lá da questão de classe e da luta de classe. Faz parte do processo civilizacional que visa libertar os seres humanos, todos eles, da submissão à natureza, à sua própria natureza.

domingo, 30 de abril de 2017

Autismo social

Pére Ysern Alié - Regata en Mallorca (1915-17)

A história é particularmente sugestiva, pois integra arte moderna, administração, trabalhadores, veleiros e, o mais extraordinário, um apelo à caridade. Em resumo, a Tate Modern e a Tate Britain pediram aos seus trabalhadores para que contribuíssem com o quisessem para se comprar um veleiro a oferecer a Nicholas Serota, o homem que criou a Tate (aqui) e que a vai abandonar no próximo mês de Maio. A reacção dos trabalhadores não se fez esperar. O interessante da história não está no facto de ser mais um episódio da luta de classes, digamos assim, mas de tornar evidente que as elites se acham credoras de tudo e mais alguma coisa por parte da plebe, não recusando inclusive ao apelo caridoso. A cândida atitude da administração da Tate e o seu espanto perante a reacção dos trabalhadores é o dado mais interessante de toda esta história. Assinala, com precisão, o grau de autismo social em que se caiu. Estas coisas começam a fazer lembrar a situação que conduziu, segundo uma história possivelmente apócrifa, uma rainha em desespero de causa a dizer se não têm pão, que comam brioches.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O desprezo pela ciência

Bill Jacklin - The Benches, Towards the Rape of Reason (1992)

O problema social colocado pelo surto de sarampo e a manifestação de uma contra-cultura de saúde baseada na recusa da medicina científica e da vacinação como profilaxia da doença é a face, agora mais visível, de uma crescente desvalorização do papel da razão na vida dos homens. Se há um sector que tem sido extraordinariamente enriquecido e protegido pelo avanço da razão científica é o da saúde e da esperança de vida das pessoas. Quanto mais as práticas médicas assentam as suas raízes na ciência moderna maior é a eficácia na luta contra a doença. Curiosamente, o espectacular êxito da medicina científica tem tido a capacidade de suscitar estranhas oposições baseadas em crenças sem qualquer fundamento ou controlo racional.

Isto não significa dizer que a medicina seja infalível, que a ciência possua a verdade ou que a razão não tenha os seus limites. Os médicos e a medicina são falíveis, os conhecimentos científicos, em busca da verdade, vão sendo revistos, reformados ou abandonados e substituídos por outros mais de acordo com a realidade, a razão humana tem os limites inerentes à própria humanidade. Dito isto, convém sublinhar o seguinte: a ciência – e a filosofia numa outra perspectiva – é o campo de produção de crenças mais fiável, mais controlado e mais avaliado criticamente.

Os conhecimentos e práticas derivados da ciência são falíveis, mas o seu grau de fiabilidade é desmedidamente superior às crenças que contestam a pertinência da vacinação ou que põem em causa a medicina científica ou a própria ciência. A medicina científica – por vezes, designada com intenção pejorativa como medicina ocidental – é muito mais segura e capaz de enfrentar a doença do que as putativas medicinas não científicas e as crenças obscuras de uma opinião sem qualquer fundamento, que as redes sociais – esse território onde todos os devaneios pretendem aparentar-se à verdade – têm ajudado a espalhar.

Esta situação – que do ponto de vista da saúde, está ainda longe de ser catastrófica – torna patente que alguma coisa não está a funcionar nos sistemas de educação pública. Não se trata de uma falência do ensino das ciências. Elas estão bem representadas no currículo nacional e a sua aprendizagem tem registado claras melhorias. O problema é outro. Pode ser formulado da seguinte maneira: o facto de se ensinar, cada vez melhor, os saberes científicos não assegura uma educação racional e o desenvolvimento de atitudes críticas perante a realidade e as crenças do senso comum. Há uma dificuldade de transitar da transmissão de conhecimentos para o desenvolvimento de uma capacidade crítica e racional.

Todas estas crenças new age que proliferam um pouco por todo o lado são fruto de uma atitude que é incapaz de avaliar criticamente a razoabilidade das crenças. Os sistemas de ensino modernos e democráticos foram erigidos em nome da razão, transmitem crenças racionais e razoáveis, estruturadas nos currículos nacionais, mas têm tido pouca capacidade de fomentar nos indivíduos uma atitude e comportamento razoáveis. Daí que qualquer disparate, sem fundamento, propagado pelas redes sociais encontrar um sem número de adeptos que o põem em prática, muitas vezes com resultados trágicos. A racionalidade crítica tem limites, mas está longe de poder ser dispensada. Pelo contrário, é necessário que ela seja cultivada e transformada em atitude avaliadora das opções existenciais. Só ela, apesar da sua fragilidade, pode evitar tragédias que a opinião acrítica tem a capacidade de atear. O desprezo pela ciência só nos pode conduzir a lugares inabitáveis pelo homem.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Meras coisas

Apav.pt

A violência doméstica não se resume às patifarias que se fazem às mulheres. Os filhos, por exemplo, são vítimas contumazes. No entanto, em torno dos maus tratos infligidos às mulheres joga-se qualquer coisa de essencial à vida civilizada. A situação deplorável da mulher no Islão - ou em parte apreciável da cultura islâmica - era já um sinal muito preocupante da resistência que os homens opõem à consideração da mulher como um igual. Agora foi a Rússia (onde 36 mil mulheres são agredidas diariamente, ler aqui) a dar mais um golpe na ideia de igualdade de género, ao descriminalizar a violência doméstica, exercida fundamentalmente sobre as mulheres. E se isto é mau, pode não ser o pior. No próprio Ocidente, esse lugar onde os direitos das mulheres e a ideia de igualdade de géneros foi mais longe, sob a capa de se ser politicamente incorrecto, manifestam-se já atitudes e opiniões que mostram bem a ânsia de reverter a situação. O que está em jogo não é pouca coisa. Não é apenas o sofrimento físico e moral das vítimas. É a ideia de que a mulher não é uma coisa da qual se disponha a belo prazer. Quando se permite que alguém possa violentar fisicamente outra pessoa, a vítima perde a condição de pessoa e passa a ter o estatuto de coisa. E as coisas não têm vontade própria, nem liberdade. As coisas são mera propriedade. E parece que é para aqui que se caminha, mesmo em lugares insuspeitos, ainda que isso não seja visível aos olhos da maioria. Uma ameaça à vida civilizada.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Os banqueiros excepcionais

Gustavo - Banquero abanderado, bailando con una serpiente africana (1986)

A telenovela da entrega da declaração de rendimentos e património (ver aqui), por parte dos administradores da Caixa Geral de Depósitos, no Tribunal Constitucional, tal como é exigida pela lei, está a ultrapassar todos os limites da sensatez. Não faço ideia se os actuais administradores foram convidados com a promessa que não teriam de o fazer. Tudo é possível num país como Portugal, e o Partido Socialista, por vezes, tem uma visão muito própria da realidade e da legalidade. Confrontados, porém, com o dever de o fazer, parece-me inaceitável o jogo a que se dedicam. 

Esse jogo não apenas representa um desgaste político para o governo que os convidou, embora isso seja irrelevante (e talvez o governo o mereça por ter convidado esta gente), como lança um véu de incerteza sobre a própria instituição, afectando não só o accionista, o Estado Português, como os próprios clientes que vêem o banco em que confiaram a ser envolvido num braço de ferro entre os putativos génios financeiros descobertos pelo governo e as leis da República. 

Em tudo isto há duas coisas que me fazem muita impressão. Em primeiro lugar, se os senhores administradores não querem depositar no Tribunal Constitucional, segundo as regras em vigor, as suas declarações de rendimentos e património, então demitam-se e vão à sua vida (ou estão à espera de ser demitidos?). Em segundo lugar, parece-me extraordinário que estas pessoas vejam a sua situação como uma excepção e, excepcionais que são, julguem que a lei comum não se lhes aplica. Frequentar as conselhos de administração da banca será por certo muito proveitoso, mas parece não ajudar nada a ter uma visão clara sobre a realidade, como se tem visto nos últimos anos pelo mundo fora.