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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VII

Eugene Louis Boudin - A praia de Trouville (1864)

Aviso: Caro leitor, tenha a bondade de reparar que o texto é de 2007 e que, portanto, não está a ter nenhum pesadelo com o retorno do engenheiro Sócrates como chefe do governo. Nem tudo é assim tão mau na vida.

Apesar da temperatura por aqui ter subido, continua a nortada. Olho a praia sentado numa esplanada, vejo veraneantes infelizes a segurar chapéus, a correr atrás disto e daquilo, a areia a borbulhar. O vento a tudo empurra, isto para escapar ao inevitável o vento tudo levou. As águas ainda estão bravias, a bandeira mais encarnada que a camisola do glorioso, imagino que saiba a quem me estou a referir. Mais um dia de glória, mais um dia sem pôr pé na areia. Como mortal, este triste banhista submete-se aos imperativos do corpo. Há que satisfazer os impulsos homeostáticos. Triste sorte a dos humanos. E lá me desloco ao hipermercado, que não é assim tão hiper, mas enfim, se temos de comer…

Foi assim que me vi mergulhado num mar de pessoas, a ulular em torno de prateleiras e bancas, os olhos vorazes e as mãos como garras a encher cestos e carros, numa orgia de sacos de plástico, dinheiro de plástico, chinelos de plástico, com sonhos de comida de plástico. Alumiou-se então o cérebro e percebi, nesse instante, o sorriso de plástico do nosso primeiro-ministro, o venerando e atlético Eng.º Sócrates. Numa democracia de sacos de plástico, num povo cada vez mais plastificado, quem melhor, para dirigir a plastificação geral, do que um engenheiro de plástico?

Vem uma pessoa a banhos para descansar das fadigas do ano e, sem qualquer meditação filosófica, acaba por descobrir, só por olhar, a essência da nação. Portugal é um país de plástico. O plástico é aquilo que faz com a pátria seja aquilo que ela é. Espero que tenham compreendido. Um dia até a água e a areia serão de plástico. É o plano tecnológico, cheio de inovações e projectos para desenvolver a paróquia. Haja engenheiros, pensei, enquanto passava o cartão de plástico no terminal da caixa. Recolho ao lar, extasiado pela descoberta, e oiço, ao fundo, o bater das ondas e o sopro do vento. Éolo continua indisposto, Posídon não está melhor. Não há plástico que sempre dure, penso comigo, mas sem grandes certezas. É duro ser um banhista numa pátria de marinheiros. Melhores dias virão. (averomundo, 2007/08/07)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VI

Georges Lemmen - Beach at Heist (1891-92)

Frívolo banhista, quem te manda a ti tentar os deuses? Mal sabes tu que eles concedem aos mortais aquilo que estes mendigam. Então, não foste tu que ontem falaste em tempo cinzento, aragens frescas, ventos a cortar a face? Então, toma, aí o tens. Hoje levantei-me decidido a cumprir o meu estatuto de banhista, homem que corta as ondas, lobo-do-mar. Feitas as abluções matinais, tomado o pequeno-almoço, logo exclamei: para a praia. Olharam-me com comiseração. Vi estampado nas faces um juízo irónico sobre a minha sanidade mental, mas ninguém disse o que quer que fosse. Se é para ir à praia, então toca a andar. E lá se foi…

O pior foi sair do carro. Uma nortada das antigas. Não cortava a face, não. Cortava o corpo todo, varria os banhistas da praia, levantava ondas de areia, acastelava as águas, semeava um reboliço que mais parecia um terreiro de feira corrido a varapau. Agora, vamos, sussurraram-me. Gaguejo, conto aquela história do anúncio da Sagres – ao mar, ao mar, ao mar; ao bar, ao bar, ao bar – mas ninguém acha graça. Para a praia, para a praia, exclamam, isto não é o Moledo, sugerem-me. A humanidade tem destas coisas.

Como quem paga uma promessa, ou como se fôssemos um cortejo de penitentes, lá marchámos em direcção ao santuário. Bandeira encarnada, alguns surfistas e uma solidão maior que o mundo. Está frio, comento. Olham-me com desprezo. Acrescento: ao menos vamos a casa vestir umas calças e uns corta-ventos. Sorriem. Qual o quê? Toca a marchar e lá me levam a dar uma volta pela ventania, até que alguém exclama: já chega. Chegou. Sinto risos nas minhas costas, olhares malévolos, desconfio de um pacto com Éolo. Gosto de vento, mas o vento norte podia ser menos frio e cortante, concedo. Amanhã, a saga do banhista continua, se tiver mesmo de ser… Que os deuses me protejam. (averomundo, 2007/08/06)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Diário de um banhista - V

George Seurat - Bathers, Asnières (1883-4)

Domingo. Hoje não há saga do pobre banhista. Os banhos de mar, quer dizer, as visitas à praia, estão, cá por casa, proscritos nos dias que outrora eram os do Senhor e, hoje em dia, não se sabe bem de quem são. É questão de sanidade mental, oiço dizer. Concordo. Mas uma regra não é uma lei, e há que desconfiar: quando chegará o dia em que a regra dá lugar à malfadada excepção?

Curiosamente, hoje que me levantei tarde, deu-me um súbito desejo de ir à praia e fazer jus à minha condição de banhista ou de pré-banhista. Tempo cinzento, uma aragem fresca, ameaça de chuviscos. É em dias assim que o corpo me puxa para o mar. Sonho com praias vazias, o vento a bater as águas, a cortar a face, o sol oculto por nuvens escuras e o extenso areal libertado da presença humana. Mesmo para os humanos a humanidade começa por ser um cansaço e acaba por se tornar um problema, um problema que tem todas as condições de ser irresolúvel. Hoje, domingo e tempo incerto, será possível que vá à praia?

Comprar os jornais, tomar café, dar um giro e ver as praias desertas. Ingenuidade minha, a humanidade oferece-me o esplendor dos seus corpos sobre as areias, dentro de água, corpos que se agitam como se temessem a imobilidade eterna. Há dias que odeio Heraclito. Resigno-me à derrota de Parménides e, melancólico, penso que ainda não será hoje que a excepção toma o lugar da regra. Vou fotografar naturezas mortas, materiais inúteis, lixos, a sombra projectada pela humanidade, a sombra de uma natureza morta que julga estar viva. Olha-se para uma praia e vê-se logo que, apesar das aparências, não está. A humanidade morreu, penso, mas é demasiado dramático para servir de proclamação.

Balanço: oitavo dia junto ao mar, idas à praia = 1 (uma), banhos de mar = 0 (zero). Não há razão para queixas. Nada melhor que os tempos de praia. (averomundo, 2007/08/05)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Diário de um banhista - IV

Maurice Prendergast - Bathing, Marblehead

É dura a vida de um banhista. Estava ontem muito descansado quando um telefonema lançou o pânico. Para amanhã, a visita de uma amiga. O mundo turva-se, isto de mulheres e praia conjuga-se com tal perfeição que já estava a ver-me arrastado, em pleno sábado, imagine-se, para um areal pejado de corpos espojados pelo chão e alegres trinados das criancinhas. Sim, sim, dessas mesmas que o divino Mestre dizia para deixarem ir até Ele, mas Ele, sábio que era, não ia à praia. Mesmo aquilo no Jordão não foi um banho, mas um baptizado, leram bem, um baptizado, e esse só acontece uma vez na vida, pois uma pessoa não anda sempre a mergulhar nas águas para lavar pecados. Não haveria João Baptista que chegasse, e se querem lavar a alma que vão ao confessionário, não à praia. Estava a ver-me arrastado, dizia, para o espectáculo dos portugueses em roupa interior, há quem lhe chame fatos de banho, portugueses exuberantes, desejosos de mostrar o viço e a peitaça e o coxame e a celulite e o pneu. Era este programa audiovisual que já se desenhava no horizonte da pobre imaginação que me coube em sorte. A coisa foi de tal maneira impressiva que passei a noite a sonhar com praias cobertas de portugueses e eu entre eles a caminhar, como sonâmbulo, a exibir a tristeza da minha figura, metido nuns boxers vermelhos a que toda a gente teimava chamar calções de banho.

Quando me levantei, bem cedo e mal dormido, a coisa piorou. Estava um céu azul e um sol esplendoroso. Ergui as mãos ao alto e disse: Senhor tem piedade das pobres florestas, olha as ignições, ajuda este país malquisto, apieda-te da lavoura, das plantas e dos animais, manda nuvens e chuva e tempo fresco. Nada. Eis o verdadeiro sentido da derrelicção. Senti-me abandonado, desprezado, humilhado. É por estas e por outras que as pessoas deixam a Igreja, esquecem as missas, mandam ao diabo – salvo seja, t’arrenego, ó belzebu – os mandamentos. A manhã caminha por aí fora, toma-se café, compram-se os jornais, e uma voz insidiosa diz ó tanto calor, está mesmo bom para ir à praia, respondo ó tanto calor, está mesmo bom para ficar em casa. E ali se fica naquela indecisão, vai não vai, vais tu, fico eu, e eis que aquela amiga, a que haveria de vir, liga a dizer que sim, que vem, mas não está disposta para a praia. Respiro fundo, agradeço ao Senhor, sinto-me comovido. Talvez sejam incompreensíveis os caminhos do Altíssimo. Salvo in extremis. É dura a vida de um banhista. (averomundo, 2007/08/04)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Diário de um banhista - III

Paul Cézanne - Las grandes bañistas (1900-05)

Que venham as burkasburkas afegãs, daquelas que vão da cabeça aos pés. Não, não me converti ao Islão, mas começo a compreendê-los. Hoje, ó dia nefasto, quando me levantei, tudo estava ensolarado, fazia calor, e lá me arrastaram do café em direcção à praia, não sem antes, ainda em casa, note-se, me besuntarem de cremes por causa dos ultravioletas. Ele são cremes para a cara, cremes para o corpo, protector 30 e 40, numa conversa cabalística que mais parecia as deambulações esotéricas do Fernando Pessoa. O creme cai, olho-me ao espelho, apetece-me ulular e fazer a dança da chuva. Sinto-me um pele-vermelha. Contenho-me, haja decoro.

Lá vou, cantando e rindo, levado, levado, sim... Quando chego, piso a areia, os pés formigam. Anoto – mentalmente, não vá alguém pensar que levo o portátil ou aquele caderninho de capas pretas onde registo os ditos infelizes que me ocorrem – anoto, dizia, bandeira verde, maré baixa, pouca gente. A coisa não está completamente insalubre. Não sou banhista de barraca e lá se pousa o saco e toca a caminhar à beira-mar. Parece que faz bem aos músculos das pernas e da barriga e também à circulação. Melhor que os rebuçados do Dr. Bayard para a rouquidão. Uma pessoa caminha, caminha, os pés dentro de água, a areia molhada e dura, a água que vai e vem, como se não fosse esse o seu destino, e lá vou eu olhando os circunstantes, homens, mulheres, crianças, o sol bate-me no pescoço, nas costas não, pois o pólo é coisa que não dispo – há que poupar a humanidade à minha miséria – e continuo a anotar tudo, mentalmente, e sinto-me inclinado, cada vez com mais intensidade, para o Islão. Que venham as burkas, para homens, mulheres e crianças, que escondam os tristes espectáculos que ali se me apresentam. Desespero da humanidade.

Ao menos, penso contristado, fosse obrigatório o uso de fatos de banho do princípio do século passado, elegantes e frívolos, mas a esconder o excesso de humanidade que há em todos nós, mais nuns de que em outros. É isto que este pobre banhista pensa enquanto anda, anda, para fazer bem aos músculos e à circulação e à rouquidão. Paro, melhor, paramos. Vão ao banho e eu fico a ver, a olhar gaivotas, a contar barcos, a sonhar com sereias e a descobrir baleias. É nesse momento que alcanço a utilidade universal da burka, esse achado maior da humanidade, supremo conceito onde a igualdade se realiza e nos torna a todos menos infelizes.

Que coisa mais adorável é a praia. (averomundo, 2007/08/03)

sábado, 30 de julho de 2016

Diário de um banhista - II

Cecilio Pla Gallardo - Bañistas

Continua a minha aventura no reino de Posídon. Hoje levantei-me cedo, olhei para o céu, um sol esplendoroso, fiquei em pânico. Será hoje? Uma volta por aqui e por ali, visita ao blogue, o post do dia. Propícios, os deuses cobrem o céu de nuvens. Respiro mais facilmente. O tempo melhora a olhos vistos, penso. Pego nas Metamorfoses, de Ovídio, acabadas de sair, na excelente colecção da Cotovia, em tradução de Paulo Farmhouse Alberto. Perco-me nas transformações. Ingénuo, ingénuo que sou. Os deuses são caprichosos, mas enviam-nos sinais. Metamorfoses não de humanos em aves ou vacas, mas transformações do tempo. O que tinha amanhecido ensolarado metamorfoseara-se em nuvens escuras e densas, mas nada neste mundo mutável é seguro. As nuvens dissiparam-se e lá veio o sol. Não tardou muito para me perguntarem, insidiosamente, se não ia à praia, a emoção tomou conta de mim. Fiz-me despercebido. Prefiro o Ovídio, mas calei-me. Lá foram pisar a areia e tomar banhos de sol e mar. Fiquei nas Metamorfoses e na música de Giovanni Pierluigi da Palestrina. Lá fora o silêncio deixa vir até mim o marulhar do mar. Adoro a praia. (averomundo, 2007/08/02)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Diário de um banhista - I

Paul Cézanne - The Bather (1855-57)

Início hoje a republicação dos treze (um número cabalístico, por certo) pequenos episódios do Diário de um banhista, escrito em 2007 e postado no meu antigo blogue averomundo, que já entregou, há muito, a alma ao criador. Confirmo que o meu espírito de banhista não se alterou, talvez algumas facetas se tenham acentuado, só isso. Comecemos então.

Adoro a praia. É um amor enternecido e respeitoso, um amor feito de longas distâncias e cortesias reverentes. Estou a banhos desde domingo passado e, felizmente, ainda não pisei areia. Não se deve pisar aquilo que amamos. Há movimento cá por casa, gente que vai até à beira-mar, volta crestada pelo sol, enfarinhada de areia. Comenta-se a excelência do tempo, do sol, da temperatura, da água… Eu acredito, acredito em tudo piamente, mas a minha devoção a tanta praia impede-me estes excessos. Sacrifico-me por amor e fico em casa. É duro, mas o amor a tudo justifica. (averomundo, 2007/08/01)

terça-feira, 12 de julho de 2016

A sede que se deseja


Este belíssimo anúncio à cerveja Sagres, retirado com a devida vénia do Rua Dos Dias Que Voam, um blogue cheio de coisas destas e a visitar com regularidade, evoca em mim a primeira experiência com a cerveja (bebida da qual não sou particular adepto). Não me refiro à experiência de beber cerveja, mas de admirar a própria garrafa. Uma garrafa castanha com os símbolos e o lettring pintados a creme. Julgo que a tampa, carica, era cinzenta ou prateada com Sagres escrito a vermelho e naquelas belas letras cursivas que se vêem na imagem. Há toda uma elegância, fundada num quase despojamento de elementos icónicos, que contrasta com o ruído visual que foi crescendo ao longo dos tempos. Nas raras ocasiões que se me coloca a questão de beber uma cerveja, nunca me passa pela cabeça preterir a Sagres pela concorrência. Isso deve-se, porém, à peça de arqueologia aqui representada, a velha garrafa da Sagres. É o que faz ter espessura temporal. O slogan também é perfeito, a sede que se deseja. Há imagens que são verdadeiros arquétipos. (averomundo, 2010/01/07)

domingo, 19 de junho de 2016

Da eterna imaturidade

Mary Cassatt - Two Children at the Seashore (1884)

Sólon, Sólon, vós, os Gregos, sois sempre crianças; um Grego não pode ser velho. (Platão, 22 b)

A espécie humana tem o condão de nunca deixar de me surpreender. A fonte da surpresa nem sequer é a maldade. A origem reside na tendência de muitos adultos – adultos biológicos – se manterem numa fase de imaturidade que os assemelha a crianças na primeira infância. Tudo gira em torno das suas pessoas. Sonham com malfeitorias e desconsiderações que os outros tecem no recôndito da alma ou em obscuros lugares de poder. Tudo para as afectar, claro. São vítimas de uma conspiração, ora universal, ora particular. Então, uns propõem-se fazer umas maldades ou dizer umas maledicências pelas costas, outros prendem o burro, arrastando um doloroso amuo pela face mundo.

Este problema, para além de diminuir a qualidade da vida comunitária, é um indicador seguro de que os processos de maturação consolidados são muito mais raros na espécie humana. O sacerdote egípcio, no Timeu, dirigia-se a Sólon para acusar os gregos de serem eternas crianças. Evitou generalizar, mas se o fizesse não cairia, por certo, numa generalização precipitada. De facto, a pobreza da vida espiritual dos homens, a crença no ego e na importância deste, o centramento em si, tudo isto contribui para que muitos adultos, muitas vezes de provecta idade, se comportem perante o mundo e os outros como crianças. A maturidade nasce de uma capacidade que tem poucos cultores. Saber rir-se de si, saber quão risível se é e estar disponível para ser aquilo que se é, isto é, nada. A imaturidade, a eterna imaturidade, nasce da crença de que se é alguém, quando na verdade somos, como diz o Romeiro no Frei Luís de Sousa, ninguém.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Hipérboles e caricaturas

Alfonso Daniel Rodríguez Castelao - Álbum de caricaturas (1900-03)

O homem é um animal hiperbólico. Na figura do exagero, ele pensa as suas virtudes e os defeitos do próximo. Mais do que uma desmedida, encontramos neste comportamento da nossa espécie a incapacidade para a medida. Medir é confrontar uma certa realidade com um padrão definido a priori. É este padrão, aquele que permitiria a justa medida, que faz falta aos homens. Na ausência desse critério, o que poderá ajudar-nos a refrear o nosso prazer na hipérbole? Uma outra hipérbole, a caricatura. Olharmo-nos na nossa dimensão caricatural, e todos nós somos sumamente caricaturáveis, ajuda-nos a refrear o gosto pelo exagero de si mesmo e o apoucamento dos outros. A caricatura, olhamo-nos no ridículo que a caricatura nos devolve, é a terapia adequada à patologia hiperbólica que nos acomete. Não é pouco.

domingo, 5 de junho de 2016

Policiais, frustrações e actos falhados

Capa de Luís Alegre

Dois acontecimentos desligados entre si conduziram-me, hoje, à literatura policial. A notícia do Público, onde é referido o retorno, depois de ter acabado em 2008, da antiga colecção Vampiro. O outro evento é a leitura de A Mentalidade Anticapitalista, de Ludwig von Mises, uma das figuras de referência do pensamento liberal, tomado na sua forma mais radicalizada, digamos assim. Quando era novo, lia histórias policiais, as quais me davam bastante prazer. Não comecei pela colecção Vampiro, mas pela leitura das aventuras de Sherlock Holmes, de Conan Doyle. Depois, fui descobrindo Agatha Christie, Erle Stanley Gardner e Georges Simenon, talvez aquele de que mais gosto. Um pouco mais tarde li Dashiel Hammett e Raymond Chandler. Para além do prazer da leitura, havia uma coisa que me fascinava, as capas da colecção Vampiro. Vale a pena clicar no link do Público e ver algumas dessas capas.

Comecei a ler livros policiais muito antes de ter qualquer inclinação política e, por acaso, quem me abriu o caminho para esse tipo de literatura foi alguém que nunca foi de esquerda. Pelo contrário. Ao ler, agora, Ludwig von Mises descubro que afinal este meu gosto era o prenúncio do meu falhanço como capitalista. Veja-se a fina - finíssima, diga-se - análise de Mises sobre o leitor de romances policiais: "Ora, esse leitor é o homem frustrado que não atingiu a posição para a qual sua ambição o impelia. Como já dissemos, para consolar-se ele culpa a injustiça do sistema capitalista." Os romances policiais seriam, na opinião de Mises, um ajuste de contas contra os capitalistas vitoriosos, contra os grandes vencedores do mercado. Portanto, a leitura deste tipo de romances é uma forma compensatória dos frustrados contra os melhores, aqueles que o mercado consagra como os melhores. A indigência chega aqui. Mises não se interroga, por exemplo, sobre o prazer que o leitor pode ter na descoberta de quem, por egoísmo, infringe os direitos básicos dos outros e põe em causa o sistema de valores morais em que a sociedade assenta. Isso desfazia-lhe a sua sociologice literária. Mas o que Mises não vê - na pobreza panfletária da sua análise - é a analogia que ele, sem dar por isso, estabelece entre o criminoso e o capitalista vitorioso. É o que se chama um acto falhado. E todos sabemos o que, para outro austríaco famoso, Sigmund Freud, significa um acto falhado. Talvez um dia destes volte a ler um romance policial.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O cartaz da JSD


Este cartaz da JSD suscitou uma indignação moral - aqui e ali - e levou mesmo Mário Nogueira ameaçar processar (ou a processar mesmo) a JSD. Eu votei na coligação de esquerda, não estou de acordo com alguns aspectos importantes da política educativa da esquerda (embora concorde com o governo no casos dos subsídios aos colégios privados) e acho que o facto de Mário Nogueira ameaçar processar a JSD é uma patetice. Seja como for, Mário Nogueira teve uma excelente oportunidade, mesmo sem cortar o bigode, de demonstrar que não é um adepto estalinista e que acha a comparação ofensiva. Em vez de processar a JSD, deve agradecer-lhe a oportunidade.

Do ponto de vista da eficácia política, o cartaz vale zero. É quase tão mau quanto o do BE sobre a dupla paternidade de Cristo (embora este fosse pior, pois era um tiro no pé). A generalidade das pessoas está-se nas tintas para o Mário Nogueira, muita gente não faz ideia quem foi Estaline e quem sabe tem discernimento suficiente para perceber que Mário Nogueira não é um proto-Estaline nem o ministro da educação é assim manipulável. Mesmo os anti-comunistas sabem que a ameaça bolchevique é uma coisa da história. O cartaz, porém, é bastante interessante pois diz muito do que são as juventudes partidárias. O cartaz não foi feito para ganhar eleitores (quem vai votar na direita por causa daquele cartaz?). O cartaz foi feito para irritar o outro lado. O espírito é igual ao das picardias de futebol entre os adeptos dos grandes clubes. Uma infantilidade. Uma graçola que deve gerar umas larachas lá na sede da congregação, mas sem qualquer relevo político.

O mais importante, porém, é sublinhar que a possibilidade deste tipo de graçolas virem a lume é um bem fundamental. Faz parte da liberdade de expressão. E este é, na vida em sociedade, o bem mais importante. O que me aborrece nestas coisas é que as partes atingidas (agora foi a esquerda, outras vezes é a direita) não têm fair-play e mostram-se sempre muito ofendidas, prontas para rasgar as vestes em público. Não há paciência para isso. Quem está na vida pública está sujeito a este tipo de coisas. Na política não há lugar para virgens que se ofendam ao primeiro piropo rasca. Depois, sabemos que o discurso político é sempre hiperbólico. A hipérbole é, num regime onde o conflito político se trava pelo discurso, a estratégia fundamental. Exageram-se os vícios dos adversários. Exageram-se as virtudes próprias. Acima de tudo, a liberdade de expressão é um bem intocável.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Instabilidade ortográfica


Tenho estado a ler textos na ortografia do português do século XIX. Mesmo nos romances de Eça de Queirós, ainda tão próximos de nós pelo Portugal que desenham, há uma ortografia que, aos olhos da actual, parece fantasmática. O leitor sente-se fora de casa, apesar da beleza gráfica que descobre nos lexemas. Ao olhar o texto, parece ter sido escrito noutra língua. Se comparo esses textos (ainda que de forma impressionista, pois não sou conhecedor da matéria) com textos franceses do século XIX e mesmo do XVIII, fico com a sensação de que a ortografia francesa é muito mais estável que a nossa. Existem diferenças, mas ao olhar para os textos, sinto-me em casa, aquele foi o francês que aprendi e que leio ainda hoje. Pode ser que seja uma ilusão óptica, mas até na ortografia vivemos em constante instabilidade. A coisa que mais me impressiona, porém, é a disponibilidade revolucionária dos portugueses para patetices como as reformas ortográficas. Um povo tão dado à quietude e tão remexido na ortografia é um mistério, ou talvez não. Talvez seja a quietude popular que permite estes arroubos desfiguradores de uma língua, este terrorismo contra o património histórico presente na ortografia. Não há governação que não se preocupe com a estabilidade governativa, mas quanto à instabilidade ortográfica não há quem ponha fim ao desmando. (averomundo, 2010/02/07, acrescentado)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Perplexidades de um muito antigo maoista



A Grande Revolução Cultural Proletária foi lançada faz, dia 16 de Maio, 50 anos. Resultado de uma tremenda luta pelo poder dentro do Partido Comunista Chinês, saldou-se por uma enorme tragédia. Contam-se por centenas de milhares os mortos em consequência da iniciativa de Mao Zedong (Mao Tsé-Tung). Deixo de lado, pois conheço relativamente mal, a realidade da tragédia chinesa e concentro-me numa outra coisa. No terrível fascínio que o acontecimento teve na juventude ocidental. Incluo-me, durante a minha pós-adolescência, no campo dos fascinados, embora me tenha afastado desse fascínio ainda nos verdes anos. Sobre esse fascínio de pelo menos duas gerações, há coisas que continuam a deixar-me perplexo. Há também coisas que aprendi com essa minha experiência político-ideológica.

O que me deixa perplexo é a cegueira desmedida que caiu sobre muitos e muitos jovens, por todo o Ocidente, que estavam bem longe de serem completamente idiotas. Como é que a razão, transtornada pela imaturidade e fascinada pela coreografia revolucionária, se tornou acrítica? Basta olhar para os materiais propagandísticos para perceber que aquilo tresandava a irracionalidade por todos os lados e que só poderia acabar mal. Como é que fotografias ou cartazes onde se viam grandes massas guiadas por um homem, o grande timoneiro Mao Tsé-Tung, seduziram tanta gente que detestava o espírito de rebanho e que não tinha qualquer disponibilidade para seguir um pastor? Como foi possível que a imagem de multidões de jovens a recitar o livro vermelho, como se estivessem numa madrassa comunista e em pleno ritual litúrgico, não fizesse soar o alarme?

Há uma resposta óbvia: a natureza religiosa do acontecimento. Uma religião que erguia um homem à condição de deus. Na verdade, tudo o que se via era encenações rituais e momentos litúrgicos em torno de um Mao Tsé-Tung mitificado, despojado dos seus traços humanos, como já tinha acontecido com Estaline, Mussolini, Hitler e, embora menos, com Lenine. Esta religião veio suprir nos jovens intelectuais a carência de Deus e da religião. Contaminados pelas vulgatas marxistas ou pelo zumbido nietzschiano da morte de Deus, estas gerações encontraram no maoismo um sucedâneo da aspiração mística ao absoluto que as animava. Isso também aconteceu, nas gerações anteriores de intelectuais, com o fascínio pelo comunismo soviético ou pelo nazismo e o fascismo. Ora o facto de as gerações anteriores terem fracassado, de se ter descoberto que aqueles apelos ao absoluto eram falsos e letais, não foi suficiente para a razão funcionar e impedir o fascínio. Porquê?

Haverá múltiplas respostas. Centro-me numa que combina um traço ontogenético ligado à idade e um traço cultural da modernidade ocidental. O que desencadeia a adesão maciça é a promessa do paraíso. O cartaz mostra-o claramente: a revolução cultural promete um mundo novo. Quando se está nos verdes anos é-se um juiz implacável do velho mundo. Aos nossos olhos, ele está condenado e é preciso, o mais depressa possível, substituí-lo por um novo, mais justo, mais belo, mais fraternal. Este é o traço ontogenético e diz mais sobre a imaturidade da pessoa do que sobre a maldade ou bondade do velho mundo. Há contudo um traço cultural que tem a sua raiz no início da modernidade. Trata-se do culto do começar tudo de novo. Os seus modelos cognitivos encontram-se no cogito cartesiano e na tabula rasa de John Locke. Estes modelos passaram do campo do conhecimento para o campo social e estão na génese do culto das revoluções (a gloriosa revolução, em Inglaterra, ainda no XVII, a revolução americana e a revolução francesa, no XVIII, e a revolução industrial, na transição do XVIII para o XIX). Este modelo cultural, baseado num começar tudo do princípio, e a imaturidade ontogenética explicarão, pelo menos em parte, o fascínio pela irracionalidade da revolução cultural chinesa.

O que aprendi com a minha breve passagem pelo maoismo nos anos quentes do pós 25 de Abril? Aprendi duas coisas essenciais. Em primeiro lugar, que não tinha como destino na vida fazer política. Apesar de ser um espectador comprometido e atento do espectáculo político, a política enquanto acção não me interessa para nada. Compreendo bem, demasiado bem, o fenómeno do poder e da luta por ele, mas não me interessa. Em segundo lugar, esta minha experiência conduziu-me a uma posição política a que costuma dar o nome de aristotélica. O importante é o equilíbrio, o meio-termo, entre as partes em confronto. A experiência de fascínio pela irracionalidade política tornou-me, como reacção e desde há muito, um anti-utópico inveterado. Utopias de sociedades perfeitas, através da mão invisível do mercado ou do planeamento central, fazem-me urticária. O importante é que os homens tenham opiniões contrárias e que, na vida prática, vão fazendo acordos. Acordos precários porque na vida tudo é precário e transitório. Não há nenhum mundo novo à nossa espera. A única coisa que nos espera é a morte.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Jogos do espírito

Francis Picabia - Figure triste (1912)

David Hume referia, entre os diversos princípios de associação de ideias, o princípio da semelhança. Por exemplo, um quadro sobre Lisboa conduz-nos a pensar na capital portuguesa. Este exemplo refere-se à semelhança entre objectos tidos como reais. Há outro tipo de semelhanças que não se refere à realidade, pelo menos à primeira vista, mas à linguagem. O quadro acima, de Picabia, tem por título Figura triste. De imediato, num espírito com um certo tipo de cultura, emerge a expressão cavaleiro da triste figura, o muito célebre cavaleiro andante D. Quixote de la Mancha. Esta associação, aparentemente arbitrária e pueril, não deixa de ter um efeito real. Esse efeito deve ser visto como um jogo a que o espírito se pode entregar para seu puro prazer. Um jogo de contaminação. 

Podemos olhar para o quadro cubista de Picabia e imaginar nele uma representação de D. Quixote. Podemos iluminar o espírito tortuoso do nosso cavaleiro manchego a partir das explorações geométricas e cromáticas da obra de Picabia. Esta aproximação entre objectos tão diferentes, proporcionada pela livre associação de expressões linguísticas próximas, não deve ser interpretada como um passo na descoberta de uma qualquer verdade, seja relativa à personagem de Cervantes, seja à do quadro de Picabia. Pelo menos da verdade compreendida como uma crença verdadeira justificada, tal como a concebeu, há muito, Platão. Trata-se apenas de um jogo onde o espírito se compraz. E é no puro comprazimento do espírito que a arte encontra o seu papel. Devemos, porém, ter sempre presente que, na vida dos homens, não há nada mais sério que o jogo.

domingo, 27 de março de 2016

The Astounding Eyes of Rita

Se dissesse que tinha comprado este CD devido ao título, mentiria. A música de Anouar Brahem é uma das que gosto há bastante tempo. A verdade, porém, é que aquela capa e aquele título, mesmo que não conhecesse o músico e o seu percurso, levar-me-iam a ouvir o disco, movido talvez pelo adjectivo astounding, por aquilo que se pensa nele, e pela conexão estabelecida entre o cenário da capa e esse adjectivo.

Olho para a fotografia e vejo a melancolia íntima de uma mulher. Ela olha para fora de si mas é um olhar que fica preso ao interior do compartimento onde se encontra. O mundo da vida, o mundo público onde se desenrola a existência prática, sofreu uma epochê, isto é, foi posto entre parêntesis, foi suspenso. Aquela mulher, só com muita relutância lhe chamaria Rita, está fechada no segredo do seu espírito e é de lá que ela olha.

Como do olhar desta mulher se chega aos olhos astounding de Rita? O que pensamos nós no adjectivo astounding? Pensamos múltiplas coisas. Por exemplo, o estar aturdida, o estar abismada, o estar aterrada, o estar espantada, mas ainda a natureza fantástica, no sentido de excepcional, desse olhar. Os olhos fantásticos de Rita revelam o seu estado de excepção, mas este provém do aturdimento, do terror, do abismo, de tudo isso que provoca espanto.

É aqui que se cruzam os olhos de Rita e aquela mulher que povoa o cenário que encapa o CD. Os olhos fantásticos de Rita são-no, de forma adjectiva, porque o seu olhar provém do espírito, e este é abismo e fonte de aturdimento e de terror. Mais poderoso que o mundo exterior, o espírito é causa de espanto. Os olhos de Rita são astounding, mas o espírito que os move é, verdadeiramente e simultaneamente, substantivo e verbo, é efectivamente astound, se o verbo, to astound, pudesse ser substantivado. A melancolia que vemos no olhar da mulher da foto é o indício da distância que vai do adjectivo ao verbo/substantivo, que vai do olhar ao espírito. A melancolia é sempre o sintoma de uma cisão, de uma separação. Entre os fantásticos olhos de Rita e o abismo que é o espírito há uma distância irreparável.

Será que a música, o universal sem conceito, no dizer de Nietzsche, dirá melhor tudo isto que a palavra fundada em conceitos universais? O melhor será mesmo ouvir um excerto e depois comprar o CD. Bom domingo de Páscoa. (averomundo, 2010)


quinta-feira, 17 de março de 2016

No princípio

Miriam Schapiro - Time (1989-90)

No princípio foi o tempo. Depois, deixar vestígios no tempo, marcas cadenciadas pelos dias e as horas, mesmo se o jogo é o da dissimulação, é um compromisso com o mal. Com o mal? Sim, o estranho matrimónio da escrita com o tempo é uma forma de aceitação deste. E este, o tempo, é apenas, no dizer de Cioran, o pseudónimo que o mal tomou para si. Não há inocência quando as palavras se seguem umas às outras, pontuando as horas, os minutos e os segundos. Nesse momento, já Adão foi seduzido por Eva, e o labirinto que nos arrasta para morte começou a ser trilhado. No princípio foi o tempo, e será assim até que este se acabe. (2007/02/18)

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Grandes Armazens do Chiado


O fascínio do passado reside na sua imperfectibilidade. Eu sei que as nossas representações desse passado são perfectíveis, mas o passado em si é absolutamente perfeito e como tal impossível de aperfeiçoar. Quando nos deparamos com algo vindo do passado, a primeira coisa que damos conta é da sua absoluta superioridade relativamente ao presente. Nisto não há nostalgia, mas apenas a constatação de um facto. O presente não passa de um híbrido entre o que está concluído e o que está em aberto. O passado, pelo contrário, é um animal de raça pura, de pedigree assegurado, nele não há possibilidades em aberto, tudo está fechado, concluído, feito, perfeito. Por exemplo, estas imagens que recolhi no Beautiful Century  são a prova do que está dito. 

Comecemos então a digressão pelos Grandes Armazéns do Chiado, no ano da graça de 1910. A primeira imagem diz respeito à back cover do winter catalog. Em 1910, os Grandes Armazéns do Chiado eram um império distribuído pelo país fora. Aveiro, Braga, Faro, Coimbra, Evora (sem acento), Portalegre, Covilhã, Lisboa, Porto, Setubal (sem acento), Vizeu (assim mesmo), Funchal, Caldas, Beja, S. Miguel. Como se vê, a proliferação dos hipermercados não é uma importação do eng.º Belmiro de Azevedo. Já no tempo da Monarquia isso acontecia.

Uma viagem atenta pelos desenhos não deixa de ser particularmente interessante. Toda uma lição de sociologia pátria está ali inscrita. Atente-se apenas nas figuras humanas das imagens referentes a Lisboa e à Covilhã (ver aqui). O que me fascina, porém, é a ortografia. Falo menos na acentuação, muito diferente da nossa, mas da grafia de certas palavras. Por exemplo, paiz em vez de país, ou succursaes em vez de sucursais. Que distância e que distinção.


Já imaginou a inexistência do pronto-a-vestir? Talvez. Concebeu um mundo de alfaiates, modistas e costureirinhas a receber, nos seus ateliês particulares, os clientes. Sim, isso é verdade, ainda me lembro bem desse mundo ser praticamente dominante, mas em 1910 a vida material era já muito mais complexa. Veja-se esta página, a 33 do catálogo dos Grandes Armazéns do Chiado (ver aqui). Ensina a tirar medidas, para depois se efectuarem encomendas de roupa. A elegância era assinalável. O que se podia encomendar?

As senhoras, capas e confecções, vestidos, calçado, chapéus e luvas; os homens, camisas, casacos, collarinhos e colletes (o duplo "l" como sintoma de civilização), calça (no singular) e essa inesquecível peça de lingerie masculina que dá pelo nome de ceroulas, cujas medidas são as das calças. Também há fatos para os meninos e vestidos para as meninas.

Mas o supremo encanto da página é os plissés (mais tarde falava-se em plissados). Dois tipos de plissés, os Soleil e os accordeon (os primeiros com letra maiúscula e os segundos com minúscula), ou deitado. São executados nos ateliês da casa. Também há recortagem (mas aqui falta-me a cultura para perceber se diz respeito aos plissés ou não) à machina, o que é bem diferente de recortagem à máquina, coisa mais ligado à metalurgia e à metalomecânica, que a reforma ortográfica de 1911 acabou por introduzir.


A página 32 do catálogo de inverno de 1910, um catálogo imaginado em plena Monarquia e que entrou em vigor no início da República, traz-nos os edredons (ver aqui). Quase todos de setim liberty e com enchimento duvet francez. Quantos enigmas aqui? Hoje escrevemos cetim. A palavra chegou até nós vinda de França, onde se diz satin, e tem a sua origem no árabe zaituni referente à cidade chinesa Zaitun, onde o tecido era fabricado. E no simples setim temos uma prática ancestral de globalização que nos faz sonhar com desertos e rotas da seda, camelos e oásis, estreitas sendas e longos poentes.

Nada mais evidente, porém, do que a adjectivação do setim, liberty. Que propriedade, que não a liberdade, poderá vir ao espírito quando se pensa em setim ou mesmo em cetim? Um espírito liberal descia assim, leve e vaporoso, pelo catálogo. Um setim liberty com enchimento francez duvet. Duvet? Claro, duvet a palavra francesa para penugem, para o conjunto de penas que enchem o edredon. Uma coisa é ter um edredon de penas e outra, totalmente diferente, é possuir um edredon duvet, ainda por cima com setim liberty. Repare-se como a vida material é tão pouco material, como ela depende do espírito. Talvez não exista coisa mais espiritual do que a vida material.

Mas não deixemos passar em claro um pormenor significativo: o enchimento duvet, que já não é um enchimento qualquer, é feito segundo os preceitos da hygiene. Não é apenas a nobreza do "y" que nos cativa e que indica o caminho de degradação popular que vai da era da hygiene aos nossos rudes tempos da higiene. Há ali toda uma dedução de carácter kantiano, que pressupõe o imperativo categórico que impõe o respeito pela pessoa enquanto fim em si mesma. Se não, como explicar os preceitos que defendem essa pessoa através da hygiene do enchimento francez duvet. Que tempos!


Como já foi dito, nada há mais espiritual do que a vida material, e esta não é nada se não tiver em conta aquilo que nos alimenta (ver aqui). Por exemplo, lentilhas, ervilhas, favas e grão não levantam o problema da diferença ontológica. São o que são e não têm qualificativo. Diríamos que são transversais. Já o feijão é diferente. Há o feijão suisso (assim mesmo), ofrageolet, osoisson e o cabreiro, e por mais caro que seja o cabreiro, alguém de boas famílias o pedirá? Pelo contrário, um feijão frageolet ou soisson é digno de ser encomendado pelas melhores, apenas as melhores, famílias da pátria.

Novidade, ou quase, deveria ser o vinho engarrafado. O Carcavellos (só estes dois "l" são prova da qualidade), branco (150 réis) ou tinto (120 réis), era vendido em garrafões ou barris de 5 litros. Uma elegante garrafa enrolhada e capsulada automaticamente do Carcavellos branco custava 100 réis. A manteiga era vendida em lata, manteiga do Dão ou manteiga da Praia d'Ancora. O café Princeza vinha em lindas latas axaroadas (não sabe o que é? Bem, talvez se consiga lá chegar por acharoadas, de charão, um verniz à base de laca; seriam lindas latas lacadas). A página 31 do catálogo de inverno dos Grandes Armazéns do Chiado é uma introdução, delicada mas informativa, à dieta das classes médias no início da República ou no fim da Monarquia, conforme preferir.

Como se vê, o passado é absolutamente imperfectível, pois ele é belo e perfeito. E é de tal maneira perfeito que basta umas quantas páginas de um catálogo comercial para deixar manifesta a sua inexcedível beleza. O que nos dá a esperança de, quando formos definitivamente passado, a beleza – uma beleza irremediável e imperfectível – nos tocar, sob o olhar condescendente dos nossos bisnetos ou trinetos. (averomundo, 2009/07/03)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Experiências de invisibilidade

René Magritte - As Férias de Hegel (1958)

Portugal é um país difícil, embora semi-ameno e, apesar das aparências, semi-amável, e isto é já ser tolerante. Quanto aos portugueses, estes têm dias. Às vezes, possuem o dom de fazerem poucas conexões neuronais. Também consta que possuímos o QI médio mais baixo da Europa Ocidental. Basta chegar a Badajoz e o QI sobe, por milagre, três pontos. Quando me sinto irritado – coisa que acontece mais do que devia – com o pouco uso que a variante portuguesa do homo sapiens sapiens faz das estimáveis conexões neuronais lembro-me sempre de uma ocorrência passada, há uns anos, num daqueles restaurantes de referência, garfo de ouro, à época, do Expresso.

Chegámos e entrámos para uma sala onde havia apenas outro casal. Fomos sentados numa mesa suficientemente longe desses comensais. Passado pouco tempo, ficámos sozinhos. Até que chega um novo casal, gente cinquentona como nós, acompanhado pela mãe dele. Falavam alto e nasalavam as palavras, marido e mulher por pouco não se tratavam por tio e tia. Evidenciavam uma boa instalação na vida e a frequência dos sítios certos. A mãe dele olhava para a nora com a habitual condescendência que se tem quando se acredita que os filhos não souberam escolher a mulher. O empregado teve a infeliz ideia de dizer “podem escolher, estejam à vontade” (foi aqui que eu comecei a desconfiar dos garfos de ouro).

Ora há um princípio essencial na vida em Portugal: um português nunca deve ser deixado à vontade. Entre as múltiplas mesas existentes na sala vazia, a única que interessou a estes extraordinários portugueses deixados à vontade foi a contígua à nossa, ali mesmo a uns escassos 50 a 70 cm do meu prato. A esta primeira amabilidade, que me fez acreditar possuir o poder da invisibilidade, acrescentaram, perante o silêncio constrangido em que tomámos a refeição, ainda as suas ruidosas opiniões sobre isto e aquilo e até sobre uma pessoa que, por acaso, conhecíamos muito bem de outras e longínquas paragens. Por vezes, penso que sofremos de um défice de qualquer coisa, ou de um superavit de estupidez. Não, não, nem sempre é fácil a vida em Portugal.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Carnaval e a razão galhofeira

Francisco Suñer - Carnaval (1982)

Partilho com muitas outras pessoas um sentimento depressivo sempre que se chega ao Carnaval. Tentei várias vezes fazer uma arqueologia pessoal deste sentimento. Sempre me pareceram, essas tentativas, inúteis, pois as respostas obtidas estavam longe de me contentar. A tristeza que me invade - e que parece invadir muitos outros - não tem a ver com experiências singulares. Ela vem de outro lado. Vem daquilo em que se transformou o Carnaval. O Carnaval, originariamente, seria uma festa dionisíaco marcada pelo excesso, pelo desregramento, pela ultrapassagem dos limites que a razão apolínea impõe durante o ano. O Carnaval seria, desse modo, um momento do culto - de um culto místico, diria - de Diónisos. O que acontece, porém, é que o Carnaval foi domesticado e Apolo impôs a sua dura regra. O resultado são os tristes carnavais que vemos por aí, onde, em vez da superação dos limites da razão, se assiste à exibição de uma razão galhofeira e patética, que se manifesta nos desfiles das escolas e nos corsos para turista, e que tem a função de vigiar as populações para que evitem o desmando dionisíaco. O resultado é uma sensação de tristeza sem fim.